USP convoca idosos para cursos gratuitos

As inscrições para os cursos da UnATI-USP são semestrais. Para muitos cursos, a matrícula é online. Outros, como os da EACH (USP-Leste), são presenciais.

Por Manuel de Barro

 

Inscrição – parte 4.

Com a ajuda do meu filho, Maurício, escolhi com antecedência os cursos que me interessavam. Nada poderia sair errado, mas Maurício estava preocupado. Botou na cabeça que eu esqueceria – propositadamente – de ir fazer a inscrição nos cursos da EACH (USP-Leste).

– Ninguém esquece nada por querer – ralhei.

– O senhor é capaz de tudo – disse meu filho.

Esquecer não é sinal de demência, mas o geriatra me diagnosticou com TNL (Transtorno Neurocognitivo Leve) mais por conta dos meus esquecimentos do que de qualquer outra coisa.

– Manuel, sua memória está comprometida, seus neurônios estão se apagando. Você precisa urgentemente praticar atividades intelectuais se quiser salvar os outros.

Não entrei em pânico porque sou assim desde pequeno. Mamãe dizia que eu vivia com a cabeça nas nuvens. Se saía para comprar duas coisas, esquecia uma.

– Cadê a manteiga, seu cabeça oca? Agora vai comer pão seco.

Quando papai dizia que eu só tinha cabeça para as mulheres, eu respondia:

– Para elas tenho duas.

Papai ria e mamãe ficava furiosa:

– Tem a quem puxar.

Um dia ela fez papai sair embaixo de frio e chuva para comprar rebuscados de eucalipto para curar seu pigarro. Papai esqueceu de voltar. Nunca mais o vimos.

Quando casei, o excesso de trabalho se tornou desculpa.

– Lembrou de passar no mercado, amor?

– Esqueci… estava atolado de trabalho… mas vou lá agora mesmo…

– Não precisa mais – respondia minha mulher e declarava greve… de sexo.

Mas Maurício não precisava se preocupar com as inscrições nos cursos da EACH (USP-Leste), pois desde que a psicóloga me fez prometer que voltaria a estudar, os cursos não saíam da minha cabeça. Sabia que não haveria testes, entrevistas, nada, mas estava ansioso com a possibilidade de voltar a sentar em um banco de faculdade.

Antes de sair para o trabalho, meu filho repassou tudo comigo. O caminho. Ônibus, Metrô e trem. Cópias e RG original. A caderneta para tomar nota de tudo, caneta, celular etc.

– Pai, hoje é um dia especial. Era bom o senhor tomar banho, botar uma boa roupa e ir cedo pra lá…

– De jeito nenhum. Vou caminhar. As matrículas começam só às duas da tarde. Vá trabalhar e não se preocupe, pois esses cursos passaram a ser minha razão de viver.

– Pai, falei sério…

– Eu também!

Caminhava e repetia um mantra que criei só para me divertir: preciso me matricular nos cursos da UnATI para me livrar das perguntas chatas da psicóloga chata e afastar o fantasma da Doença de Alzheimer… preciso me matricular…

Repetia em ritmo de marcha. Falava para mim mesmo e para o vento. Falava para as casas, as ruas, os postes e a paisagem. No fundo, queria que mortos e vivos soubessem desta minha nova fase da vida.

– Querida, o Manuel voltou a se animar com a vida. Vai ter que me esperar um pouco mais. Vou estudar. Vou ser aluno da USP. Vou ser uspiano. Vou me reinventar.

Não sei se acontece com todo idoso, mas comigo é assim: penso um turbilhão de coisas ao mesmo tempo. Coisas boas, prazerosas, engraçadas, e coisas das quais me arrependo, que magoam e me enervam. Às vezes brigo com elas em voz alta.

– Pai, com quem o senhor está falando?

– Comigo mesmo, não posso?

– Esquizofrênico é quem fala sozinho…

– Esquizofrênico é o raio que o parta!

Meu filho pega no meu pé. Torra minha paciência.

– Ele pensa que é meu pai, por isso discutimos. Às vezes tento fazer uma piada para melhorar o clima. Ele diz que minhas piadas são sem graça, mas ri do que chama de meme, idiotices que vê no computador.

– O senhor só tem esse filho solteiro?

– Maurício é casado. Casou, mas não saiu de casa.

– E como é a relação com a mulher dele?

– Ado, ado, ado, cada qual no seu quadrado. A mulher dele mora com o pai dela. Casaram, mas sequer praticam o ritual de acasalamento.

– Ele cuida do senhor? – disse a doutora, mudando de assunto.

– Como assim, cuida?

Antigamente se cuidava da casa, das plantas, dos animais domésticos, das coisas. Mamãe dizia: cuide de suas coisas porque ninguém irá cuidar delas por você. Hoje o velho é a “coisa” a ser cuidada. Antes, cuidávamos dos filhos, mas apenas enquanto eram coisas. Quando cresciam, dizíamos: você agora é grande e pode se cuidar sozinho.

– Seu Manuel?

– Doutora, se a senhora perguntar ao meu filho se ele cuida de mim, ouvirá que sim, mas apenas porque se preocupa.

– Se preocupar não é um forma de cuidar?

– O que ele quer é controlar minha vida – bufei, já sem paciência.

– Vocês dividem as tarefas domésticas?

– Mantenho a casa, a roupa e a louça limpas, cozinho, arrumo tudo, inclusive o quarto dele, faço as compras, em suma, sou a fada madrinha do lar.

– O que o senhor quer dizer com “fada madrinha do lar”?

– Ele pensa que possuo uma varinha mágica. Larga as coisas em qualquer lugar, eu guardo. Suja, eu limpo. Bagunça, eu organizo. As pontas de cigarro que ficam pelos cantos, somem. O cinzeiro imundo ressurge limpo. Não faltam sabonete, pasta de dente e toalha no banheiro; cueca e meias limpas nas gavetas.

– Por que não se abre com seu filho, pede ajuda?

– Porque não se trata de ajuda, mas de responsabilidade, obrigação, pois dividimos a mesma casa. Há dez anos, desde que a  mãe dele se ausentou por motivo de força maior, a casa sobrou para mim…

– O que significa “se ausentou por força maior”, seu Manuel?

– A senhora sabe muito bem que sou viúvo…

– Quer conversar sobre isso?

– A conversa é sobre meu filho.

Caminhava, pensava e me distanciava cada vez mais dos cursos da UnATI. Já não lembrava em que dia da semana estava e muito menos a data. Mas lembrei de uma coisa: a caderneta que comprei depois que a psicóloga sugeriu uma atividade intelectual simples: iniciar a escrita de um diário.

– É uma estratégia cognitiva. Um exercício para a mente.

– Diário, diário, doutora? Escrever todo dia?

– O senhor pode começar a escrever uma ou duas vezes ao mês até conseguir escrever toda semana e, no futuro, todo dia, quem sabe, não?

– Um diário mensal… uma atividade intelectual para afastar o fantasma do Alzheimer – repeti o que ouvi do geriatra.

– Não é só Alzheimer, existem dezenas de demências que podemos desenvolver. São mais de 60, sabia?

– Antigamente só havia uma, caduquice. Mas tudo bem. Se esta é a atividade intelectual que preciso fazer para recuperar meus neurônios, perfeito. Acho que dou conta de escrever um diário mensal…

– Este é um exercício muito importante. As atividades, no entanto, são outras. O senhor vai se inscrever nos cursos da USP, da UnATI, Universidade Aberta à Terceira Idade. O senhor tem sorte. As inscrições para o próximo semestre ainda não começaram. Vai poder escolher com calma alguns cursos, algumas matérias, e se inscrever em pelo menos duas. Se o senhor fizer isso, estará dispensado da terapia semanal.

– Deixa ver se entendi: se eu me inscrever nos cursos da USP a senhora vai me dispensar da terapia?

– Há alguns anos tenho indicado os cursos da UnATI para meus pacientes idosos e o resultado é tão bom que passamos a nos encontrar apenas semestralmente. Em vez da terapia semanal, uma avaliação semestral.

– Tô dentro! Se for para nos encontrarmos apenas semestralmente topo até sair de baiana no Carnaval.

Na hora, só pensei em me livrar da terapia. Não avaliei o tamanho da encrenca. E ainda me comprometi a escrever um diário mensal com o objetivo de se tornar semanal e um dia, quem sabe, diário.

– Então, o que o senhor vai fazer?

– Vou passar em uma papelaria e comprar uma caderneta para começar a escrever e depois vou ver com meu filho essa coisa dos cursos da USP.

– A cadernetinha é uma ótima ideia. Como nunca pensei nisso?

– Não? Mas a ideia foi da senhora, não foi minha.

– Que ideia, seu Manuel?

– Doutora, vou comprar a caderneta para começar a escrever o diário mensal…

– Computador, seu Manuel. Hoje escrevemos no computador. Mas a cadernetinha é uma boa para o senhor anotar seus pensamentos, ideias, tópicos para serem desenvolvidos depois no computador. O senhor só tem que lembrar de carregar a cadernetinha no bolso para anotar na hora que tiver uma ideia. O senhor tem um computador, não tem?

– Tenho um laptop antigo que era da minha mulher…

– Laptop?

Deixei a clínica me perguntando se sentiria saudades da psicóloga. De tão nova, não sabia o que era um laptop. Para levá-la a sério, passei a chamá-la de doutora. Podia ser minha neta. Aos poucos conquistou minha confiança. Hoje falamos de tudo, menos sexo. Foge do assunto como o diabo da cruz.

– Vi na sua ficha que o senhor vai completar 70 anos, o que sente a respeito?

– Por mim, permaneceria no 69 para o resto da vida.

– O senhor teme a velhice?

– Foi uma piada, doutora.

Detesto explicar piadas. Meu filho diz que a culpa é minha, pois são piadas sem graça, sexistas, machistas, preconceituosas etc. Senso de humor zero.

– Seu Manuel, como o senhor lida com sua vida sexual?

– Depois que minha mulher se foi fiquei na mão…

– Poderia explicar?

– Piada não se explica…

Entrei em casa correndo, peguei a caderneta – que nunca lembro de carregar comigo – e passei a anotar todos os tópicos para desenvolver mais tarde a primeira parte do diário. Fui almoçar com a sensação que estava esquecendo alguma coisa. E estava. Os cursos da EACH (USP-Leste). Depois continuo.

Leia as partes I, II e III desta história

Parte I: Atividade intelectual previne Alzheimer

Parte II: USP: vagas abertas à terceira idade

Parte III: USP: cursos gratuitos para idosos

Serviço: Confira os cursos oferecidos pela Universidade Aberta à Terceira Idade (UnATI- USP) para o primeiro semestre de 2018 no link: http://prceu.usp.br/3idade/sao-paulo/

Foto: reprodução

Mário Lucena

Mário Lucena

Jornalista, bacharel em Psicologia e editor da Portal Edições, editora do Portal do Envelhecimento. Conheça os livros editados por Mário Lucena.

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