Uma nova vida com a terceira idade

Ao trabalhar com idosos em um Centro-dia, historiador descobre uma nova fase de sua vida e tem a oportunidade de conhecer um novo trabalho em uma área onde só tinha se envolvido com velhos a partir de seus avós, tios e pais.

Luciano Andre Cardoso (*)

 

Tudo que vou relatar aqui falará sobre vidas e vida, em que aprendemos a cada momento como driblar problemas e continuar sorrindo mesmo sabendo que o amanhã é incerto mas que com vontade podemos chegar a vivê-lo bem.

A história desta nova fase de minha vida começou no dia 04 de maio de 2016 quando após dois anos desempregado em um Brasil acometido por uma crise, já me fazia perder as esperanças de um trabalho em minha área, já que sou professor formado em História. Surge através de uma amiga a oportunidade de conhecer um novo trabalho em uma área onde só tinha me envolvido com avós, tios e pais.

Um novo trabalho surgido em São Paulo na gestão do prefeito Fernando Haddad (2013 e 2016) traz aos familiares um grupo de profissionais com apoio de uma gerente, uma equipe de técnicos, de dez cuidadores, uma equipe de cozinha e limpeza. Trata-se da implantação de Centros-dia, que faz parte da rede socioassistencial (com capacidade para 30 vagas). Nesses locais os idosos passam o dia e retornam para casa à noite. São dirigidos a idosos com maior fragilidade que recebem cuidados especiais como alimentação, terapia ocupacional, atendimento multidisciplinar, além de participar de oficinas. Com o trabalho e famílias secundárias, muitas vezes fica difícil os cuidados com os idosos e no Centro-dia os responsáveis desses idosos encontram por um período de 10 a 12 horas o apoio necessário neste cuidado.

Quando fomos contratados pela prefeitura e pela instituição em maio de 2016, ainda não tínhamos os idosos, tudo era projeto e tudo deveria ser criado por toda equipe. Primeiro foi necessário capacitar esses cuidadores e equipe da cozinha e limpeza para o trabalho. Por quase dois meses a gerência e a equipe técnica, composta por uma psicóloga, uma enfermeira, uma terapeuta ocupacional, uma assistente social e uma nutricionista, desenvolveram momentos de rodas de conversa sobre os mais diversos assuntos, aprendizados com artesanatos e dinâmicas para, mais a frente, realizarmos com os idosos palestras sobre tipos de doenças ou conflitos familiares e estudos em leis, como a leitura do estatuto do idoso, por exemplo.

Era necessário algum conhecimento básico do trabalho para com a terceira idade, já que a maioria dos funcionários não tinha prática no serviço a não ser com seus familiares. Esse momento de formação ajudou-nos no conhecimento da equipe, suas fraquezas e contribuições, pessoas que achavam não ter nenhum tipo de dom, descobriram nas oficinas realizadas que sabiam muito mais do que imaginavam e que poderiam contribuir muito para uma velhice melhor aos usuários do Centro-dia.

Enquanto a equipe dos cuidadores, cozinha e limpeza estavam se preparando para receber os idosos, a equipe das técnicas, juntamente com a gerência, começavam a selecionar famílias da região de Pinheiros, Vila Madalena, Brooklyn, Vila Olímpia e outros bairros próximos, interessados no auxílio dessa nova política pública. Feita essa seleção inicial, todos os dias as técnicas, juntamente com os cuidadores, faziam visitas para conhecer familiares e idosos e ter uma ideia básica dos usuários que o serviço estaria trabalhando a partir de então.

Eu mesmo fiz algumas dessas visitas e em uma delas conheci uma linda alma que aqui chamarei de idosa A, a fim de manter o anonimato. Esta idosa vivia sozinha em sua residência até uma queda que a levou para casa do filho e da nora. Mas, novamente por motivos da crise em nosso país, o filho estava desempregado e por ter um filho pequeno necessitava de um novo trabalho e isso muitas vezes o tirava de casa e não tinha com quem deixar sua mãe. Quando ficou sabendo do nosso trabalho entrou em contato e muito interessado fomos ao encontro dessa família, eu e a assistente social.

Lá, observamos que a idosa poderia ter uma vida diferente e um desenvolvimento em busca de sua própria autonomia. Observamos que nosso trabalho, além de envolver a idosa também envolveria a família. Dessa mesma forma fomos para outras visitas e aos poucos foram selecionados idosos e idosas e, dois meses depois, já tínhamos quatro idosos. Cabe ressaltar que a capacidade é para 30 idosos. No primeiro dia da abertura do trabalho idosos e familiares foram convidados para uma conversa e um café da manhã para que o trabalho fosse exposto.

Cada dia uma surpresa e um aprendizado

Com o início de nossas atividades começamos por conhecer um pouco de nossos usuários e vimos que pessoas lindas com um passado nem sempre bom, estavam chegando até nós. Era necessário nos despir de nossos conceitos para entender o próximo e não tentar mudá-lo, mesmo porque nosso trabalho consiste em ser uma luz no fim do túnel para muitos que não têm com quem conversar, sair e até mesmo trocar carinhos. Preciso confessar que realmente ainda tenho muito para aprender com esses idosos, carinhosamente chamados por mim de anjos.

Segredos foram trocados, histórias de amor ou algumas de tristezas foram relatadas, risadas e muitas lições foram acontecendo. Lembro-me que em uma dessas conversas conheci um idoso, que chamarei de idoso B; ele me contou algo que vergonhosamente pensava não existir nesses seus 80 anos. Disse que ainda se excitava ao ver ou sonhar com alguma mulher. Eu que tinha como exemplo meus avós, acreditava que na terceira idade só restavam a jogatina de Dominó ou as idas à Missa. Sei que é difícil acreditar, mas fiquei perplexo quando em uma atividade de pintura e escultura o idoso B fez um pênis e, eu, na minha ignorância quando vi aquilo fiquei vermelho de tanta vergonha.

Outra vez em uma conversa com a idosa C ela desabafou todo seu passado e ainda disse que não estava vivendo bem o presente e que o futuro era incerto pois já estava muito velha. Aprendi que antes de tudo precisamos ouvir, entender para depois dar uma opinião, isso se for pedido pelo usuário. Aos poucos novas conversas vão surgindo e novas pessoas também. Homens e mulheres vindo do povo de culturas e religiões diferentes, de estados brasileiros diferentes e até países diferentes. Pessoas calmas e alegres, pessoas tristes e bem depressivas, cada uma com suas necessidades e prontas para dar suas contribuições em um serviço que foi criado para ajudá-los, mas que está mais ajudando os funcionários que ali estão trabalhando.

Atividades corporais e intelectuais

Uma outra forma de desenvolver nosso trabalho para melhorar a autonomia do idoso são as atividades artesanais, corporais e intelectuais. Muitos foram os momentos que em grupos ou individuais essas atividades aconteceram, ora com os cuidadores, ora com as técnicas e ora ainda com oficineiros.

Nas atividades artesanais desenvolvemos desde crochê até abajures, desde pinturas em simples folhas de papel até pinturas em telas, desde fuxicos até capas de almofadas decoradas. Nestes trabalhos descobrimos alguns dotes de nossos idosos.

Nas atividades corporais temos o desenvolvimento e o descobrimento do próprio corpo com as danças, jogos na quadra de esportes, ginásticas, tudo no ritmo deles, mas trazendo efeitos maravilhosos. Até mesmo aqueles que não gostam de dançar ou jogar se divertem em ver os outros realizarem as atividades.

Nas atividades intelectuais temos as rodas de conversas sobre os mais diversos assuntos, muitas vezes trazidos pelos idosos, músicas, e para isso um oficineiro foi contratado e estamos todas as quintas tendo aula de música, não importa o ritmo ou o gosto musical, todos participam e amam.

Quando essas atividades são realizadas percebemos que os idosos mudam o brilho de seus rostos e olhos, trazendo satisfação a eles e a quem está aplicando atividades. Muitos dos usuários não tinham parado para perceber que tinham um corpo e que cada membro faz parte de um todo. Na maioria das vezes nem se aceitavam e, parando para se tocar ou fazer alguma outra atividade usando as mãos ou os pés, percebem o quanto o corpo foi e é importante para uma vida melhor e o quanto esse mesmo corpo deve ser cuidado.

A enfermeira com assuntos voltados para saúde também tira as dúvidas e os faz terem mais cuidados ao buscarem médicos especialistas e a não tomarem qualquer remédio, isso junto a nutricionista, que vem melhorando a alimentação e muitos aceitam fazer suas dietas com o bem estar garantido.

As atividades externas também fazem parte do nosso dia, onde em parques, teatros e Sesc, os usuários saem do prédio do serviço e vão conhecer lugares e pessoas diferentes, fazendo uma integração com o mundo.

Considerações finais

Posso dizer que minha vida está se transformando a cada instante, a cada trabalho desenvolvido, a cada novo idoso que chega e também a cada idoso que se vai, seja porque falecem ou deixam de usar o trabalho.

Nesses poucos meses de trabalho perdemos uma usuária que aos 94 anos veio a falecer deixando muita saudade e mostrando-nos que a vida foi feita para ser vivida da melhor maneira possível, sem medo de ser feliz. Perdemos também dois usuários que por motivos particulares não comparecem mais ao serviço. Isso nos deixa tristes pela falta física, mas sabemos que mesmo por um período pequeno conseguimos fazer a diferença na vida deles e eles na nossa.

Posso dizer com toda certeza que antes, quando eu era professor, os meus alunos necessitavam muito mais de mim do que eu deles, agora a situação inverteu, eu já não me vejo sem os idosos e eu preciso muito mais deles, que com suas sabedorias e vivência de vida me ajudam a construir a minha vida.

A cura de nossos traumas ou problemas físicos acontece a cada dia, fazendo com que o desejo de querer viver aumente.

(*) Luciano Andre Cardoso, é historiador. Texto escrito para o Curso Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento, da COGEAE/PUC-SP, segundo semestre 2016. E-mail: lucianoandrecardoso.1@gmail.com

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