Uma mulher perfeita, mas nem tanto

Você já pensou em, um dia, ser lembrada ou lembrado como uma mulher ou um homem perfeitos? Quanta responsabilidade! Declinamos desses tipos de rótulos, mesmo que sejam oriundos de pesquisas sérias e institutos universitários reconhecidos.

 

Queremos ser lembrados como pessoas normais, repletas de defeitos, alguns acertos e muitas inquietudes, confesso humildemente. A perfeição só cabe aos deuses e veja que muitos são mais confusos que nós.

Mas Elsie Scheel foi considerada a mulher “perfeita” e como vocês verão pela matéria de Pam Belluck do The New York Times (divulgação no site UOL), a mulher eleita à perfeição passou por muitos constrangimentos e grosserias de vizinhos e conhecidos.

Elsie Scheel, aquela, até então “perfeita”

Um século atrás, aos 24 anos, Scheel foi notícia na imprensa do mundo todo após um médico que examinou mais de 400 mulheres na Universidade Cornell – onde ela estudava – tê-la descrito como exemplo de “saúde perfeita”, de acordo com um artigo publicado no The New York Times. Com 1,70 m e 77 kg, porém, ela provavelmente tinha um índice de massa corporal de 27. Segundo os padrões de hoje, Scheel estava com sobrepeso.

E diante disso Elsie não será, nem um pouco, poupada.

No entanto, em uma pesquisa publicada recentemente na Revista da Associação Médica Americana, um grupo de cientistas, após acompanhar quase três milhões de pessoas, descobriu que aquelas cujo IMC indicava sobrepeso apresentavam um risco ligeiramente menor de morrer do que as pessoas com peso considerado hoje normal. E embora as pessoas obesas tenham um maior risco de mortalidade no geral, aquelas cujo nível de obesidade era de Grau I (IMC de 30 a 34,9) não mostravam correr mais risco de morrer do que as pessoas com peso normal.

O que aconteceu com Elsie Scheel?

Ela teve uma vida longa, vindo a falecer em 1979, em St. Cloud, na Flórida, três dias antes de seu aniversário de 91 anos. Mas embora seja tentador concluir que a longevidade de Scheel pode ser um exemplo dos benefícios de se ter um IMC não muito baixo, seu caso sugere que outros fatores podem ter sido muito mais relevantes.

De acordo com membros da família, ela gostava de ser ativa e atlética, e tinha um jeito forte e confiante. Por ser filha de uma médica e mãe de um médico, é possível que tenha tido uma série de hábitos saudáveis. “Ela nunca tomou aspirina nem Tylenol”, disse sua neta Karen Meredith Hirsh, de Broken Arrow, Oklahoma, em uma entrevista recente. Ela tinha hobbies como colecionar selos e escrevia textos para um jornal St. Cloud. Além disso, contou Meredith, “continuou a dirigir quando idosa”.

Meredith disse não se lembrar de ter visto a avó sofrendo de doenças ou sendo hospitalizada, exceto pouco antes de morrer, quando deu entrada no hospital sentindo dor de estômago. Ela acabou se submetendo a uma cirurgia para tratar uma perfuração no intestino e morreu no dia seguinte, lembrou Meredith.

Em 1918, ela se casou com Frederick Rudolph Hirsh, um arquiteto que supervisionou a construção do prédio histórico da Biblioteca Pública de Nova York. Frederick Hirsh, que era viúvo, tinha dois filhos, Frederick Jr. e Mary. Morreu em 1933, aos 68 anos, após ser pai, com Scheel, de um filho, John, e uma filha, Elise. Ela se mudou para a Flórida de Mount Vernon, Nova York, na década de 1940, e nunca mais se casou.

A mãe de Scheel, Sophie Bade Scheel, médica educada na Faculdade de Medicina de Nova York, vivia a profissão de modo muito ativo, algo incomum entre as mulheres de sua época. E Scheel pode ter se beneficiado de bons genes: seus três irmãos tinham 79, 88 e 93 anos quando morreram.

Registros de 1912 e 1913 indicam o tipo de pessoa que Scheel era, assim como foi sua vida logo após ela ser considerada a mulher “perfeita”.

Scheel costumava praticar esportes, tendo inclusive jogado basquete na Universidade de Cornell. “Eu jogo na defesa, posição em que meu peso ajuda”, disse a um jornal. Foi “defensora convicta do sufrágio feminino” e, segundo o artigo do New York Times, era “completamente destemida”.

Hábitos alimentares

Ela fazia apenas três refeições a cada dois dias, adorava bife e evitava doces e cafeína. Um artigo publicado no Oregonian e em outros veículos destacaram seus conselhos para uma vida saudável, relatando que “a senhorita Scheel acha que a maioria das moças não tem vivido do jeito certo – indo a bailes demais e fazendo poucas trilhas”. “Acabei de fazer uma trilha de 40 quilômetros até Enfield Falls”, dizia ela no artigo.

Parte da cobertura da imprensa era maliciosa e até mesmo grosseira. E extremamente detalhada. As características de Scheel – a medida de seu peito, cintura e quadris – chegaram a ser comparadas às da Vênus de Milo. Uma total invasão de privacidade.

Um especialista, dono de uma academia, declarou que a medida do busto de Scheel era “pequena para o peso que se credita a ela”, que ela era “muito alta para ser considerada um tipo ideal” e que o seu peso estava “fora de proporção”.

Perfeição, um inconveniente

Menos de seis meses após Scheel se tornar famosa, o jornal Springfield Daily News publicou um artigo intitulado “a mulher perfeita não está feliz”. Scheel, que então trabalhava na fazenda de seu pai, em Sayville, Long Island, dizia que a perfeição “não era um mar de rosas”, conforme relatou o artigo. “Toda a vizinhança faz perguntas sobre essas famosas medidas físicas. As crianças querem saber o tamanho dos pés de Scheel quando ela caminha. Os rapazes do bairro fazem brincadeiras grosseiras e embaraçosas quando ela passa, e as outras meninas, bem, elas apenas se mostram contrariadas e ficam se perguntando: ‘como diabos alguém pode ver algo bonito em uma criatura assim?’”.

Scheel disse ao jornal que planejava trabalhar com jardinagem em Garden State, mudando-se para “uma parte desconhecida de Nova Jersey”.

No geral, porém, ela parecia ter autoestima suficiente para lidar com o supostamente desejável rótulo de “perfeita”.

No artigo do Oregonian, Scheel disse que não teria concordado com toda aquela publicidade se não tivessem sido dito a ela que ela poderia fazer bem para outras meninas ao mostrar que era perfeitamente possível ser forte e saudável. “Estou muitíssimo bem e nunca fiquei doente na vida”, disse.

Não há como negar, a perfeição de Elsie Scheel lhe custou caro. Assim, continuemos imperfeitos, inacabados, inconformados, mas humanos.

Como diria Salvador Dalí, “não nos preocupemos com a perfeição – nós nunca iremos consegui-la”.

Referências

BELLUCK, P. (2013). Entusiasmo ajudou mulher considerada “perfeita” há um século a viver até os 91 anos. Disponível Aqui . Acesso em 17/06/2013.

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Redação Portal do Envelhecimento

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