Uma breve história sobre o cinema

No final dos anos 1800, uma nova forma de arte ganhou vida: o cinema. Parecia com os nossos sonhos, movidos por paixão, desejo e inovação. E tudo orquestrado pelas mãos do homem: roteiristas inventando histórias de ficção e realidade; diretores comandando movimentos, cenários, palavras, silêncios e imagens; atores dando vida a personagens controversos e também ao simples, além dos demais profissionais comprometidos em entender o cinema como um espaço artístico, palco das questões e manifestações existenciais, uma forma de arte inefável e sublime…

 

“Minha alma vive na tela toda poderosa e agitada: participa das paixões das sombras que ali produzem […]. Mas, em que se transformou a objetividade?” Diz Paul Valéry na sensível interpretação de Edgar Morin (2014, p. 140).

Como tudo começou? Só poderia ser pela obsessão do homem interessado em projetar imagens e eternizar o momento, um lance qualquer, um primeiro ou último suspiro. Não há como citar uma data precisa, mas por volta do ano 5000 antes de Cristo já havia registros das chamadas “sombras chinesas”, que nada mais eram do que aquela brincadeira de luz e sombra que as crianças adoram fazer com as mãos. A ideia era captar imagens e projetá-las de alguma forma.

É exatamente por isso que não podemos creditar a descoberta do cinema a uma pessoa ou país em especial. Foi um processo longo e globalizado. Por exemplo, o primeiro aparelho criado para este fim era chamado de “lanterna mágica” e foi desenvolvido pelo alemão Atharasius Kircher no século XVII. O grande invento era uma simples caixa com iluminação interna que conseguia ampliar uma imagem e projetá-la em uma superfície lisa.

Mas o que mudou realmente o rumo dessas pesquisas foi uma descoberta do século XIX, feita pelos franceses Louis-Jacques Daguerre e Joseph-Nicéphore Niépce: a fotografia. Com ela era possível preservar uma imagem em uma folha de papel! A partir daí, inventores e fotógrafos espalhados pelo mundo tentavam de qualquer forma dar movimento a essas figuras estáticas.

Para o crítico e estudioso em cinema, André Bazin (1985, p. 25), “a fotografia nos permite, por um lado, admirar em sua reprodução o original que os nossos olhos não teriam sabido amar […] por outro lado, o cinema é uma linguagem”.

Sobre a fotografia, Christian Metz (2014, p. 28) diz “[…] faltava-lhe a sensação do movimento, comumente sentida como sinônimo da vida”. E o cinema trouxe tudo isso de uma só vez: movimento e história. O autor finaliza suas considerações lembrando que “o segredo do cinema é também isto: injetar na irrealidade da imagem a realidade do movimento e, assim, atualizar o imaginário a um grau nunca dantes alcançado”.

Cinema, uma linguagem que recebe a denominação de sétima arte na magia das imagens em constante movimento; inquietas, silenciosas, mudas e em preto-e-branco. Os primeiros filmes são rudimentares, de curta duração, recortes que mostram cenas do cotidiano captadas, ao ar livre, por uma câmera fixa.

Em 28 de dezembro de 1895, munidos de “criatividade, possibilidades e transformações”, os inventores e industriais bem-sucedidos – os irmãos Auguste (1862–1954) e Luis Lumière (1864–1948), promoveram em uma sala no Boulevard des Capucines, em Paris, a primeira apresentação pública de dez dos seus filmes com apenas dois minutos de duração.

Os Lumière haviam criado o cinematógrafo, um aparelhinho capaz de exibir imagens em movimento. Eles conseguiram imprimir movimento na realidade do dia a dia. Oficialmente, os irmãos são considerados os inventores do cinema.

Morin (2014, p. 29) abre um parêntese para lembrar que “a originalidade do cinematógrafo é relativa. Edison já havia animado fotografias; Charles-Émile Reynaud havia projetado imagens em movimento. Mas a própria relatividade do cinematógrafo – ou seja, a relação dentro de um sistema único entre a fotografia animada e a projeção – é sua originalidade”.

Um ano depois da exibição dos Lumière, Máximo Gorky (1868–1936), – escritor, romancista, dramaturgo, contista e ativista político russo –, inquieto em sua primeira experiência de cinema diante de filmes fantasmagoricamente monocromáticos que mais pareciam estranhos “precursores de um futuro incerto” (GUNNING, 1996), desabafou: “é aterrorizante ver esse movimento cinza de sombras cinzentas, mudas e silenciosas. Será que isto não é já uma sugestão da vida no futuro? Diga o que quiser, mas isto é irritante”.

No século seguinte, o cineasta sueco Ingmar Bergman lembra da emoção que teve ao encontrar seu velho cinematógrafo, aquele que entrou para sempre em sua vida, aos 8 anos de idade: “Para mim foi o início de uma febre que até hoje não passou. Aquelas pálidas imagens silenciosas com os rostos voltados para mim comunicaram-me com os meus mais profundos sentimentos através de suas vozes mudas. Sessenta anos se passaram e nada mudou, minha excitação diante de um filme continua a mesma” (1987, p. 19).

Parece que o cinema sempre provocou sensações inimagináveis, controversas, vivendo o dilema de representar a realidade e, talvez, simultaneamente, oferecer ao espectador um certo sentido de irrealidade, um universo de sombras impalpáveis. Mas, é exatamente essa dualidade, como bem acrescentou Gorky, essas “estranhas visões que invadem sua mente” que o torna, ao mesmo tempo, irritante e deliciosamente irresistível.

Para melhor definir essa “estranheza” de imagens “animadas”, o pesquisador argentino, Gerard Yoel (2015, p. 20), traz as palavras do cineasta e crítico de cinema Jean-Louis Comolli: “O cinema é um campo de batalha que se situa ‘entre’ as imagens, entre a ‘coisa’ e sua ‘representação’ – como diria Henri Bergson (1999), no prólogo Matéria e memória –, entre as imagens projetadas e as construídas pelo espectador. Campo de batalha que se desloca para a exterioridade, ampliando a cena, estendendo-se além dela, permanecendo na escuridão do “entre dois” para capturar aquilo que, embora escondido, às vezes se transforma no ‘real’, na ‘verdade’ de uma imagem”.

Considerações à parte, o encanto, o realismo e, claro, todo proveito financeiro capturado dele, foi imediato. Não tardou para que essa nova forma de arte virasse entretenimento. Eram como espetáculos teatrais que podiam ser vistos várias e várias vezes seguidas. O pioneiro do cinema como ele é hoje (aliás, muitos o consideram ainda mais importante do que os irmãos Lumière para a história da sétima arte) foi o francês Georges Méliès (1861–1938). Ele toma a iniciativa de introduzir a ficção no cinema, utilizando recursos como cenários e figurinos.

A descoberta mágica por meio do acaso e imaginação, de inovação, e porque não dizer tentativa e erro, foram os caminhos que inspiraram Méliès a fazer filmes como “A Lua a um metro” (La lune a un Metre, França, 1896) em que vemos primeiro um observatório e, então, um corte para uma pintura cenográfica da lua em close-up, como se estivéssemos olhando por um telescópio.

“A câmera foi colocada perto dos trilhos, de modo que o trem aumentava gradualmente de tamanho conforme se aproximava, até parecer que atravessaria a tela e invadiria a sala. As pessoas se abaixavam, gritavam ou levantavam para sair. Sentiam a emoção, como se estivessem em uma montanha-russa”. (COUSINS, 2013, p. 23)

Era a criação a serviço do Mestre que já se fazia presente e, de tantos outros cineastas que viriam ao longo das décadas.

Talvez nem os Lumière e nem Méliès podiam imaginar que o tipo de arte que estavam desenvolvendo atingisse, um século depois, tamanha dimensão, que passaria a ser tratada de “sétima arte” ao juntar-se a outras seis tradicionalmente consideradas: arquitetura, literatura, pintura, música, dança e escultura.

Segundo Lisboa (2006), do ponto de vista formal, num dado momento histórico o debate nesta área reivindica o reconhecimento do cinema o estatus de uma arte de síntese em busca de uma linguagem própria. As novas cinematografias reivindicam o reconhecimento do cinema como manifestação artística de valor sociocultural. O cinema evolui da simples técnica de registro da presença humana, para uma representação artística. Isto ocorreu no momento em que as imagens foram organizadas, por um cineasta, como narrativa desenvolvendo conceitos, sensações e sentimentos.

O cinema surgiu como uma possibilidade, inicialmente uma diversão a mais, até que foi conquistando o mundo ao mostrar as representações da sociedade e suas culturas, nos mais diversos campos. Chega para registrar o cotidiano de diferentes culturas, transformando a imagem em objeto etnológico.

Referências

BAZIN, André. O Cinema: ensaios. Tradução Eloisa de Araújo Ribeiro. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985.

BERGMAN, I. Lanterna mágica. 3a ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987.

COUSINS, M. História do cinema: dos clássicos mudos ao cinema moderno. Tradução Cecília Camargo Bartalotti. São Paulo: Martins Editora, 2013.

GUNNING, Tom. Cinema e história: “fotografia animada”, contos do esquecido futuro do cinema. In: Xavier, Ismael (Org.). O Cinema no século. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

LISBOA, F.S.G. Artista, intelectual: Glauber Rocha e a utopia do cinema novo (1955-1975). Revista Intellectus, v.5, n.1, p.1-10, 2006.

METZ, Christian. A significação no cinema. 2. ed. Tradução Jean Claude Bernardet. São Paulo: Perspectiva, 2014.

MORIN, Edgar. O Cinema ou O Homem Imaginário. Tradução Luciano Loprete. São Paulo: É Realizações, 2014.

YOEL, G. (Org.). Pensar o cinema: imagem, ética e filosofia. Tradução Livia Deorsola et al. São Paulo: Cosac Naif, 2015.

 

Luciana Helena Mussi

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

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