Um outro olhar sobre a “dependência” na velhice

Existem diferentes graus de dependência (leve, parcial ou total) e diferentes atividades em que a mesma pode estar relacionada (atividades básicas da vida diária, atividades instrumentais e atividades avançadas da vida diária). Segundo Pitaud (1999), citado em Caldas (2003): “a realização de atividades, além da capacidade de participar da vida econômica e social e decidir o que se quer fazer com seus recursos sem a ajuda de terceiros, caracteriza uma pessoa independente”.

Daniel Penteado Gomes de Sá Carvalho e Ruth Gelehrter da Costa Lopes (*)

 

A expectativa de vida do ser humano tem crescido de forma considerável nas últimas décadas e, segundo as projeções da Organização Mundial de Saúde (OMS), o Brasil poderá agregar cerca de 32 milhões de pessoas na faixa etária superior a 65 anos nos próximos anos (BRASIL, 2010). Um fator que têm contribuído para este aumento da expectativa de vida é o avanço da medicina. Porém, como aponta o médico Atual Gawande, em reportagem de Ricardo Mioto (2015) ao jornal Folha de S. Paulo, “este avanço traz consigo um efeito colateral: a dependência”.

Gawande explica que o termo ‘dependência’ liga-se a um conceito fundamental na prática geriátrica: a ‘fragilidade’. O autor cita a definição de Hazzard e colaboradores (1994) para o termo: “A fragilidade é definida como uma vulnerabilidade que o indivíduo apresenta aos desafios do próprio ambiente. Essa condição é observada em pessoas com mais de 85 anos ou naqueles mais jovens que apresentam uma combinação de doenças ou limitações funcionais que reduzam sua capacidade de adaptar-se ao estresse causado por doenças agudas, hospitalização e outras situações de risco”.

Existem diferentes graus de dependência (leve, parcial ou total) e diferentes atividades em que a mesma pode estar relacionada (atividades básicas da vida diária, atividades instrumentais e atividades avançadas da vida diária). Segundo Pitaud (1999), citado em Caldas (2003): “a realização de atividades, além da capacidade de participar da vida econômica e social e decidir o que se quer fazer com seus recursos sem a ajuda de terceiros, caracteriza uma pessoa independente”.

Dessa forma, diante da questão sobre o aumento do número de pessoas nessa faixa etária e de todo um valor negativo atribuído socialmente à condição de dependência, torna-se necessário a busca pela compreensão da forma como os atores desse enredo vivenciam a dependência em suas velhices.

Sabemos e reiteramos a importância dada aos estudos sobre cuidadores, destacando que são os familiares aqueles que mais se ocupam das tarefas diárias, assumindo, muitas vezes, um caráter informal, lançando mão das mais variadas condições estruturais e de conhecimento para “o cuidar”, já que nem sempre os médicos são capazes de atender tal demanda. Lembremos, também, das Instituições que, nem sempre, conseguem dar conta da particularidade de cada caso. Todos estes setores devem ter uma atenção voltada para o preparo do cuidador, desde aspectos práticos, até o bem estar da pessoa que envelhece. Assim, reflete-se sobre o sujeito cuidado, que se encontra em situação de dependência.

As pessoas, de maneira geral, carregam uma espécie de estigma ao tratar do tema velhice. De antemão, já podemos dizer que existe resistência ao entrar em contato com o velho. O tabu aumenta para assuntos ligados às velhices, como a sexualidade, dependência, finitude, etc. O próprio velho deixa de falar, muitas vezes, por falta de espaço. Sendo assim o indivíduo vai perdendo voz e até sua própria subjetividade. Essas questões levam-no à exclusão e ao afastamento desse indivíduo da sociedade e de si mesmo.

Neste sentido, a negação e o distanciamento da velhice podem levar a uma falta de preparo por parte dos próprios velhos (e futuros velhos) para o processo de envelhecimento, intrínseco à vida. O velho não se vê como velho, mas sim como jovem. Negligenciam-se, desta forma, aspectos que podem ser transformados por eles mesmos.

A mídia aparece, ainda que não em toda a sua totalidade, como um instrumento que reafirma essa negação da dependência por três aspectos: a não discussão sobre o tema, a própria degradação da imagem do velho e também a unilateralidade exposta em que se adere uma imagem da velhice, que existe, mas não é a única possibilidade, reduzindo e até simplificando um processo complexo e diverso. Na realidade, o que existe são velhices.

Um dos problemas está na introjeção destas questões. O indivíduo pode passar a vida sem pensar na velhice – seja de uma forma ou de outra – como alguém que pode precisar: de bengala, cadeira de rodas, aparelho de surdez, remédios, até precisar de auxílio nas atividades diárias mais simples, além de suporte emocional e acompanhante terapêutico. Para agravar esse cenário, vemos que a mídia contribui para uma visão limitada sobre tais aspectos da dependência. O indivíduo passa a não ter chance de reconhecer essa condição como uma possibilidade para sua própria vida, se distancia das necessidades reais que pode vir a ter, isentando-se da responsabilidade sobre si.

Acreditamos que a mídia tem um papel fundamental na sociedade: auxiliar no estímulo de reflexões sobre diversos temas. Porém, a forma pela qual a mesma apresenta a velhice, contribui para a degradação imagética e concreta dessa fase da vida e, ainda mais, intensifica um processo de mal estar sobre essa condição que, por si só, já pode trazer sofrimento para o indivíduo. A mídia é uma referência e, como qualquer outra, possui grande responsabilidade diante de questões em que se insere.

Outro fator a ser considerado, está na forma como os velhos lidam com a condição de dependência. Nota-se, de maneira geral, uma significativa dificuldade em encontrar materiais que tratem dessa temática, não só nas mídias, como também em literatura específica (estudos e pesquisas). Acreditamos que a falta de estudos sobre a dependência na velhice pode significar, ainda que não intencionalmente ou até inconscientemente, uma forma de se evitar o tema. Desta maneira, mais do que um efeito colateral, a dependência na velhice se torna um efeito adverso, no sentido de ser indesejado e, até certo ponto, aversivo, o que culmina em uma ampliação da segregação, degradação e preconceitos.

“A dependência se traduz por uma ajuda indispensável para a realização dos atos elementares da vida. Não é apenas a incapacidade que cria a dependência, mas sim o somatório da incapacidade com a necessidade. Por outro lado, a dependência não é um estado permanente. É um processo dinâmico cuja evolução pode se modificar e até ser prevenida ou reduzida se houver ambiente e assistência adequados” (CALDAS, 2003).

Essa afirmação retrata a condição que o sujeito enfrenta ao perceber-se dependente, mas, é preciso entender que a dependência pode não ser permanente. Podemos ir além, ao pensar na totalidade do indivíduo: o velho pode ser dependente para algumas atividades e não para outros.

Considerações
Acreditamos que diversos trabalhos e esforços são feitos para que o velho possa conviver da melhor forma que lhe é possível com suas dificuldades, doenças, etc. A ele próprio cabe um papel de sujeito ativo nesse processo de tentativas e de adaptação, não se limitando apenas ao trabalho dos cuidadores. Essa é a metade do caminho para uma melhor qualidade de vida. Outro aspecto fundamental é a autonomia.

Não é raro encontrarmos discursos que se apropriam da velhice como uma volta à infância, muito devido à condição de dependência dos indivíduos. Nas críticas sobre essa afirmação, identificamos que a falta de autonomia dos velhos ocorre, muitas vezes, por inibição, privação ou falta de conhecimento. Quando trazemos o termo autonomia, pensamos em um olhar real, concreto sobre a questão; sua viabilidade diante das condições de um indivíduo que possui particularidades e dificuldades. Não entendemos o termo por um viés idealizado, como somos estimulados a pensar.

O primeiro passo para a promoção de uma boa qualidade de vida, não só dos velhos, mas também da sociedade, é a análise crítica sobre o que está posto, seja pela mídia, pela cultura, pelos valores pessoais. Entrar em contato com tais aspectos permite uma desconstrução para uma reconstrução futura, uma reelaboração e uma ressignificação da forma como podemos pensar o indivíduo, permitindo que ele seja o que pode e o que quer ser.

Referências
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas e Estratégicas. Atenção à saúde da pessoa idosa e envelhecimento / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Ações Programáticas e Estratégicas, Área Técnica Saúde do Idoso. – Brasília , 2010.

MIOTO, R. Envelhecer até a fase da dependência é efeito colateral do avanço da medicina. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2015/10/1695979-reflexao-sobre-como-e-onde-viver-a-velhice-e-tema-de-livro.shtml. Acesso em: 10 mai. 2016.

CALDAS, C.P. Envelhecimento com dependência: responsabilidades e demandas da família. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X2003000300009. Acesso em: 30 set. 2016.

 

(*)Daniel Penteado Gomes de Sá Carvalho é aluno do curso de graduação de Psicologia, da Pontifícia Universidade Católica – PUCSP, 5º semestre. 

Ruth G. da Costa Lopes

Ruth G. da Costa Lopes

Psicóloga, mestrado em Psicologia Social pela PUC-SP e doutorado em Saúde Pública pela USP. Atualmente é professora Associada da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo na Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde e Programa de Gerontologia. Tem experiência na área de Saúde Coletiva, com ênfase em Gerontologia e Psicogerontologia, atuando principalmente nos seguintes temas: processo de envelhecimento, psicoterapia em grupo para idosos, velhice e família. E-mail: ruthgclopes@gmail.com

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