Um mestre na “Natureza Selvagem”

Início da década de 90. Christopher McCandless (Emile Hirsch) é um jovem recém-formado, que decide viajar sem rumo pelos Estados Unidos em busca da liberdade. Durante sua jornada pela Dakota do Sul, Arizona e Califórnia ele conhece pessoas que mudam sua vida, assim como sua presença também modifica as delas. Até que, após dois anos na estrada, Christopher decide fazer a maior das viagens e partir rumo ao Alasca.

 

15 de Outubro, Dia do Professor. Aqui estou eu, novamente, um ano depois, procurando palavras especiais para homenagear esses queridos que fazem parte da nossa existência, do primeiro ao último dia das nossas vidas; homens e mulheres que percorrem bravamente a Jornada do Herói, compartilhando saberes e experiência, tudo numa troca generosa, contínua, intensa e profundamente reflexiva.

Para esse delicado momento, escolhi um filme que, creio, já assisti, mais ou menos, umas sete vezes, mas só dessa vez decidi transcrevê-lo na íntegra com todos os diálogos, cenários e, principalmente, a “atmosfera”, tarefa que se torna complexa, na medida que avança a história. Escrever é uma experiência que grita e afeta os sentidos.

Uma curiosidade, quando finalizei esse percurso, percebi que meus dedos estavam tingidos de azul: explico, o calor da minha mão provocou, de certa maneira, uma verdadeira ebulição no líquido que percorre a caneta, emoção demais ao entrar “Na Natureza Selvagem” (2007, Direção: Sean Penn) de Christopher Johnson McCandless (Emile Hirsch) ou, melhor dizendo, Alex Supertramp, protagonista garoto, mestre menino que busca a felicidade e o alento nas coisas simples da vida.

“Há um tal prazer nos bosques inexplorados/Há uma tal beleza na solitária praia/Há uma sociedade que ninguém invade/ Perto do mar profundo e da música do seu bramir/ Não que ame menos o homem/Mas amo mais a Natureza” (Lord Byron).

Na tentativa de encontrar esse mundo indecifrável, ao som da música de Eddie Vedder, esse menino, garoto, homem, mestre, inicia em abril de 1992 sua viagem rumo ao Alasca. “Agora eu caminho na Natureza Selvagem” e na trilha, ele deixa sinais até encontrar sua última morada, o Ônibus 142, o Ônibus Mágico.

Toda história de Chris/Alex é contada em capítulos: Meu Nascimento, Adolescência, Idade Adulta, Família e Tornando-se Sábio. Na trilha sem parada definida, viajamos no tempo: ora estamos no Ônibus Mágico, ora no passado turbulento em família, ora nos felizes e inesperados encontros da estrada, uma grata surpresa do destino.

Em cada passo, eu sentia uma esperança distante. Pensava: quem sabe com algum desses seres iluminados, quase mágicos na imperfeição não estaria o vínculo de afeto que o faria desistir da arriscada aventura? Se pudéssemos furar a grande tela e avisá-lo dos perigos e ciladas da Natureza Selvagem, quem sabe esse jovem mestre não estaria aqui, agora.

Algumas pessoas chegaram a dizer que a tragédia que assolou a vida do jovem foi por pura arrogância de um menino mimado. Entendo que não, era a busca de sentido nas coisas.

Nas palavras gravadas, inscritas na madeira, Chris explica, em segunda pessoa, na pele de Alex: “Há dois anos ele caminha pelo mundo. Sem telefone, piscina, carros, nem cigarros. Apenas ele, a natureza sem fim e os animais. A liberdade máxima. Um extremista. Um viajante esteta cujo lar é a estrada […]. E, agora, depois de dois anos errando, vem a última e maior aventura. A batalha culminante para matar o falso ser interior e concluir com vitória a revolução espiritual”.

Num certo banheiro de uma certa estrada perdida no tempo, Chris pensa: “Preciso de um nome”. Com um batom sabe lá Deus de quem, ele desenha no espelho seu nascimento: Alexander Supertramp (o andarilho), Julho de 1990, Lago Mead, Arizona.

Para que se compreenda, no verão do mesmo ano, esse jovem desaparece do mundo logo após sua formatura – diga-se de passagem, com distinção na Universidade Emory. Muda seu nome, doa 24 mil dólares para uma instituição de caridade, abandona seu carro e a maioria de seus pertences, queima todo o dinheiro que tinha na carteira e inventa uma vida nova para si. Instala-se na margem maltrapilha da sociedade e perambula pela América do Norte em busca de experiências novas, reais, verdadeiras e transcendentes.

Boa parte da história é contada pela irmã, parceira e confidente: “Chris avaliava a si mesmo e as pessoas ao redor com um código moral tremendamente rigoroso. Ele se arriscava a tomar um caminho extremamente solitário, mas achou companhia nos personagens dos livros que amava, de escritores como Tolstoi, Jacklondon eThoreau”.

Para ele: “É inegável que viver sem lenço nem documento sempre nos alegrou. Isto está associado em nossas mentes com fugir do passado, da opressão, da lei e de obrigações maçantes. A liberdade absoluta”.

Vivendo o inimaginável pela estrada da vida, Chris, batizado Alex, encontra o casal de hippies; o compreensivo e companheiro Rainey e sua mulher, a triste Jam que carrega a dor do desaparecimento voluntário de um filho. Ela encontra no nosso jovem aventureiro, seu garoto que se foi:

“Onde estão seus pais?”, ela pergunta. Ele, com a palavra fulminando de ressentimento, responde: “Vivendo suas mentiras em algum lugar. Vou parafrasear Thoreau: “Em vez de amor, dinheiro, fé e equidade, me dê a verdade”.

Vivendo o tormento da perda, Rainey tenta compreender as oscilações de Jam: “Algumas pessoas acham que não merecem ser amadas. Entram silenciosamente em espaços vazios tentando acertar as contas com o passado”.

Alex sente que parte dele e de suas angústias estão ali, na vida daquele casal, mas nada o impede de seguir. Então, pé na estrada, rumo ao desconhecido: “Decidi que vou levar essa vida por uns tempos. Liberdade e beleza natural são bons demais para se recusar”.

“O mundo é de um jeito que nunca se sabe onde colocar nossa fé e o que resultará disso. Ela vai crescer, fazendo sumir as más lembranças, transformando erros em ouro. Ei! O tempo passa tão rápido que não dá para controlar […] vou dar o melhor de mim”.

Nosso Chris/Alex é um bom menino, seria um grande homem simples e o mais justo dos mestres. Pena, os melhores sempre se vão.

Na rota do inesperado, ele conhece Wayne, o homem livre, forte, destemido que vê no desafio dos dias a motivação para continuar sempre, independente do que lhe aconteça. Com a liberdade em estado puro diante dele, esse desconhecido sedutor fala ao coração de Chris: “Se admitirmos que a vida humana pode ser regida pela razão, está destruída a possibilidade de vida”.

E bebendo do direito de viver, o jovem fraqueja e decide ligar para a família. Mas, na cabine ao lado, um velho senhor lamenta que sua conversa será interrompida pela falta de uma moeda. Sim, a moeda que Chris usaria para voltar ao mundo, à família, ao passado.

Nas lembranças de Carine, a irmã: “Ele sabia que eu o amava bastante para suportar a falta de informação, não era só a raiva ou a rebeldia que o impedia de voltar. Chris sempre foi impulsivo, sempre foi aventureiro. Aos quatro anos ele caminhou seis quadras sozinho, às três horas da madrugada. Foi pego na cozinha de um vizinho em cima de uma cadeira abrindo a gaveta de doces. Ele deve ter encontrado algo muito doce na gaveta que abriu agora”.

Mas, como viver na “Natureza Selvagem”? Quando Chris decidiu-se pelo primitivo, ele não tinha ilusões de que estivesse entrando “numa terra de leite e mel”. Ele sabia que enfrentaria perigos e dificuldades, justamente o que estava buscando. E foi o que encontrou, em abundância.

Durante a maior parte das seis semanas de aventura, Chris saiu-se mais do que bem, se não fosse por um ou dois erros aparentemente insignificantes, mas fatais, ele teria saído da floresta em agosto de 1992 de maneira tão anônima quanto nela entrou em abril.

Certo dia vendo os lobos devorarem a carne que garantiria sua sobrevivência, ele constata a dificuldade intransponível do ser humano, sua impotência diante da força da natureza: “Claramente sentia-se a presença de uma força não gentil ao homem”.

Nascendo menino, passando pela adolescência rumo a maturidade, Chris registra a experiência da sua curta vida mais do que sentida: “Já vivi muita coisa, e agora acho que sei o que é preciso para ser feliz. Uma vida mansa e isolada no interior com a possibilidade de ser útil a quem é fácil ser bom. Pessoas que não estão acostumadas a serem servidas. E trabalhar com algo que pode ser útil. Além de descansar, natureza, livros, música, amar seu próximo. E, então, acima de tudo você como parceira … e, quem sabe, filhos. O que mais o coração de um homem pode desejar?”

“Chega a manhã em que sinto que nada mais precisa ser ocultado, ir embora parece surreal, mas meu coração nunca ficará longe daqui. Tão claro quanto respirar, quanto estar triste. Trago na carne o que aprendi, vou embora acreditando mais do que antes. E existe um motivo, um motivo para voltar. Enquanto cruzo o hemisfério tenho vontade de ir e desaparecer. Eu me machuquei, eu me curei, agora me preparo para pousar, já estou pronto para pousar. Este amor não tem limites”.

A vida prega peças, uma ironia devastadora. Agora o retorno se torna impossível, a Natureza Selvagem se revela uma irreversível cilada, a face da finitude. O Ônibus Mágico o espera.

Resignado com seu fim, ele registra: “Desastre! É impossível atravessar o Rio – Estou ilhado pela chuva”. E pela primeira vez, ele diz: “Solitário, Assustado”!

No capítulo final da vida desse andarilho, algum tempo antes do “inevitável”, no acaso, num gesto de gentileza, ele conhece o velho Ron Franz, um homem generoso, solitário com sua triste história de perdas.

Tornando-se sábio, Chris no meio da imensidão da natureza, fala ao novo amigo: “O Senhor precisa voltar para o mundo. Deixe aquela casa solitária. Volte para a estrada […]”.

Na despedida:

Ron: “Vou sentir saudades quando se for”.

Chris: “Eu também, mas está errado ao pensar que a alegria da vida tem sua principal fonte nas relações humanas. Deus colocou tudo à nossa volta. Está em tudo. Em tudo que podemos vivenciar. As pessoas só precisam mudar o jeito de ver as coisas”.

Ron: “Mas quero te dizer uma coisa. Pelo que entendi das coisas que me contou sobre sua família, sua mãe e seu pai e sei que também teve problemas com a igreja…existe algo maior que todos podemos apreciar e, me parece, você não se importa de chamar isso de Deus. Quando você perdoa, você ama. E quando ama, a luz de Deus brilha em você”.

No Ônibus Mágico, Chris se desespera: “Cadê os animais? Estou morto de fome!!!”

Na falta de carne, o menino, agora mestre, procura por plantas comestíveis, mas como identificá-las?

Fraco, desesperado e sem perspectiva, ele comete um erro: a planta ferozmente devorada por ele, era aquela que “se ingerida, os sintomas incluem paralisia, inibição da digestão e náusea. Sem tratamento, leva à inanição e à morte”.

Com um balde na mão a procura de água, quase sem enxergar, numa condição de extrema fraqueza, um urso se aproxima, sente o cheiro de um suposto ser humano, mas o identifica como um igual: “Fui literalmente aprisionado pela natureza”.

“A felicidade só é de verdade quando compartilhada”, com lágrimas, vem a constatação. Agora ele compreende: tantas estradas percorridas, uma busca sem fim para perceber que para a felicidade acontecer, basta apenas que exista “um certo outro” e de grandes olhos generosos.

Num último gesto, ele veste sua roupa, se apoia onde a luz do sol possa aquecê-lo e deixa sua mensagem.

No encontro com os pais: “Se eu tivesse sorrido e corrido para seus braços? Vocês então veriam o que eu vejo agora?”

E o céu finalmente se abriu para que o mestre Alexander Supertramp, o andarilho, no Ônibus Mágico mergulhado na imensidão azul da “Natureza Selvagem”, completasse sua Jornada do Herói.

Trailer: Ver Aqui

Trilha Sonora – Eddie Vedder: Ver Aqui

Luciana Helena Mussi

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

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