Um mergulho nas memórias

Algumas vezes, rememorar as passagens dos anos pode ser até uma tarefa difícil, mas também pode impulsionar o indivíduo para uma grande mudança, uma verdadeira transformação, àquela que o leva ao movimento da vida com todos os desafios, alegrias e frustrações. Neste sentido podemos visualizar o significado educacional deste curta ao tratar da memória como fonte ilimitada do viver, do reviver.

 

Exemplo do uso apropriado do silêncio na ficção é o curta-metragem “A casa em pequenos cubinhos” , direção de Kunio Kato (2008). Pequena obra-prima que trabalha o rememorar, a passagem do tempo e suas implicações. Um trabalho artesanal da animação japonesa de grande competência estética e poética que com extrema delicadeza conta a história – sem diálogos – de um senhor com idade já avançada que mora em uma cidade ao nível do mar.

Todos os cenários do enredo são retratados em um grande filme passado em apenas 12 minutos, tempo no qual as lembranças se apresentam de forma lenta e nostálgica, uma magnífica viagem ao longo da própria vida, um mergulho em tudo que, hoje, já é passado.

Para o personagem, não se trata de viver obcecado e aprisionado numa vivência que lhe foi outrora significativa. Existem outras formas de rememorar fatos vividos, outros olhares, como explica Brandão (1999, p.51): “Recordar para o idoso não é doloroso e nem deve ser visto como uma fuga da realidade atual. Ao contrário, rememorar possibilita a ressignificação, unindo passado, presente e futuro, que se harmonizam reforçando a sensação de pertinência a um grupo de origem e a um destino”.

A casa em pequenos cubinhos é uma história repleta de encantos e encantamentos, que pode ser vista como uma metáfora da vida, do tempo, do amor e da solidão. É o encontro poético entre a realidade e a ficção, onde o término de um pode representar o início do outro.

Duarte, em “Cinema e Educação” (2002, p.70), menciona a importância da ficção como ferramenta de entendimento das mudanças tão delicadas e ao mesmo tempo tão complexas pelas quais passamos, independente da idade: “Precisamos da ficção tanto quanto precisamos da realidade. Embora não possamos viver em um mundo de fantasias, temos a necessidade de sair um pouco do mundo real para aprender a lidar com ele. Além disso, a ficção atua como um dos elementos dos quais lançamos mão para dar sentido à nossa existência”.

A vida prega algumas peças, nos faz enfrentar a fragilidade, as mudanças produzidas pelo tempo, nos leva aos extremos daquilo que julgamos ser a destruição. Monteiro (2005, p.67) desenvolve esta ideia usando a física como sua aliada para desvendar as relações entre tempo, espaço, corpo: “A teoria da relatividade preconiza o intrincado entrelaçamento do tempo e espaço. Segundo Einstein, um não existe sem o outro. O tempo possui forma, portanto se reflete no corpo da pessoa. Isto é, a temporalidade se manifesta na configuração de cada um de nós. O corpo do velho, como o corpo do novo, são corpos no tempo”.

“A casa em pequenos cubinhos” é para o senhor de idade avançada o mundo que ele não quer perder, símbolo de uma história num lugar. Um lugar que ao longo da travessia se mostrou também estar em risco. No filme “A casa adormecida” (Rose Red), roteiro de Stephen King, logo no início se lê nas legendas que “a casa é o corpo que colocamos sobre o nosso próprio corpo e conforme o nosso corpo envelhece, a casa também envelhece e assim como nosso corpo, adoece”. Em outras palavras, a casa segue o ciclo de vida de seu dono. Brandão (1999, p.52) amplia essas reflexões ao afirmar: “[…] a questão da memória exige uma abordagem complexa, envolvendo conhecimentos sobre o funcionamento dos mecanismos cerebrais. Ligado à área biológica (ainda com muitas descobertas a serem feitas), aos aspectos culturais, em que se coloca a memória histórica, pessoal e coletiva e aos aspectos filosóficos, quando pensamos na questão do “ser” e no tempo e espaço que são sua base de sustentação”.

Algumas vezes, rememorar as passagens dos anos pode ser até uma tarefa difícil, mas também pode impulsionar o indivíduo para uma grande mudança, uma verdadeira transformação, àquela que o leva ao movimento da vida com todos os desafios, alegrias e frustrações. Neste sentido podemos visualizar o significado educacional deste curta ao tratar da memória como fonte ilimitada do viver, do reviver.

Referências

BRANDÃO, V.M.A.T. (1999). Os Fios da memória na trama da cultura. Revista Kairós Gerontologia, Ano 2, n.2. São Paulo: EDUC/PUC-SP.

DUARTE, R. Cinema e educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2012.

MONTEIRO, P.P. Somos velhos porque o tempo não para. In: CÔRTE, B.; MERCADANTE, E. F.;

ARCURI. I.G. (Orgs.). Velhice, envelhecimento. São Paulo: Vetor, 2005.

VÍDEO. A casa de pequenos cubinhos. Disponível em < https://www.youtube.com/watch?v=jUVhV1px6js. Acesso em: 22 jan. 2016.

 

Luciana Helena Mussi

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

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