Transhumanismo – o pior e o melhor

O filósofo Luc Ferry, em entrevista à revista francesa L’Express, fala do transhumanismo, movimento que busca passar da medicina terapêutica clássica para, posteriormente, “combater” o envelhecimento, e mesmo conseguir aumentar a longevidade humana.

Por Claire Chartier e Christophe Barbier (*)

 

Depois de abordar os temas da vida bem sucedida, da espiritualidade e o amor, como se interessou por um assunto mais “científico” como o transhumanismo?

LF – A primeira tarefa da filosofia consiste em pensar uma época. Ela deve ser, como dizia Hegel, “o pensamento preso ao tempo”. Vivemos uma terceira revolução industrial, que transforma o mundo, com dois desdobramentos principais: de um lado, o surgimento da tecnomedicina, e de outro, o da economia colaborativa, com os aplicativos como Uber, Aibnb, Bla-BlaCar, etc. Estava cansado das ideologias depressivas, e as nostalgias políticas.

Quais são as principais características do transhumanismo?

LF – Inicialmente, esse movimento busca passar da medicina terapêutica clássica – cuja finalidade, ao longo do tempo, era de tratar e aumentar o potencial humano – para, posteriormente, na ambição de “combater” o envelhecimento, e mesmo de conseguir aumentar a longevidade humana, não apenas erradicando as mortes precoces, como acontece desde meados do século XIX, mas recorrendo a tecnomedicina ou engenharia genética. No momento, nada de real prova que isso é possível para o homem, mesmo que o seja para os ratos, mas Google já investiu centenas de milhões de dólares no projeto. Outra ideia importante: corrigir, de modo voluntário, a loteria genética, que distribui, injustamente, as qualidades naturais e as doenças. É a proposta de “passar da chance cega à escolha esclarecida”. Ainda estamos longe, mas quem pode dizer como será a biocirurgia em 2300? É preciso refletir!

Concretamente, como passamos do terapêutico ao prolongamento excessivo da vida humana?

LF – Consideremos, por exemplo, as cegueiras decorrentes de uma retinopatia pigmentar: podemos devolver a visão inserindo um chip eletrônico atrás da retina e, neste sentido, estamos abordando a perspectiva terapêutica. Imagine agora que o chip se aperfeiçou de tal modo que permita uma visão como da águia: neste caso passamos ao excesso. É um exemplo simbólico, mas não podemos duvidar que a competição assim nos encaminhará, queiramos ou não…

Os transhumanistas não formam uma família homogênea. Qual diferença o senhor faz entre os ‘biologistas’ e os ‘pós-humanistas cibernéticos’, que cita em seu livro?

LF – Os primeiros são fiéis ao humanismo tradicional, especialmente na linha de Condorcet (1). Encontramos já no período iluminista a ideia de que que a perfeição humana era infinita, destacando não apenas as desigualdades sociais, mas também as desigualdades naturais. Os segundos, representados por Ray Kurzweil (2), fundador da Universidade da Singularidade criada graças ao financiamento do Google em 2008, são materialistas radicais, que planejam cruzar o ser humano com o computador, ou seja fabricar os poshumanos. O cruzamento da robótica e da inteligência artificial permitirá conectar nosso espírito com as redes da Web no futuro imaginado de 2035 ou 2040. Existe no transhumanismo o pior e o melhor – de projetos delirantes como este de Kurzweil, e de perspectivas fecundas. É muito fácil ridicularizar essa discussão, como fazem os que não conhecem o assunto. O risco, como na uberização do mundo, é de não prever e deixar passar inovações que vão transformar, como nunca, nossas vidas.

O senhor destaca também que a argumentação dos poshumanistas não é fácil de ser descartada…

LF – Sim, e é mais complexo do que pensamos. Para Kurzweil, não é a máquina que se tornará humana graças a inteligência artificial, mas o homem que é, desde de sempre, uma máquina. Para os materialistas coerentes, portanto monistas, o cérebro não é mais do que um mecanismo complicado e o pensamento é seu efeito visível. Vem daí a ideia de copiar pela tecnologia as redes neuronais para chegar um dia a uma inteligência artificial forte. Não chegamos lá ainda, mas você deve ter visto que a inteligência artificial já venceu o melhor jogador mundial de Go!(3).

Alguns transhumanistas chegam a falar da ‘morte da morte’. Como podemos pensar seriamente uma tal transformação da condição humana?

LC – A Morte da morte(4) é o título de um livro apaixonante de Laurent Alexandre, cirurgião francês, mas também um tema da teologia cristã – a promessa de Cristo é a imortalidade na vida após a morte. Para os transhumanistas essa promessa deve ser realizada neste mundo. Aos meus olhos isto é, obviamente, pura fantasia. Em primeiro lugar porque o organismo vivo é uma totalidade: uma vez que tocamos em um de seus componentes, podemos produzir um efeito perverso. Em seguida, porque continuaremos a morrer por acidente, atentado ou suicídio. No entanto, não é inimaginável que nós poderemos, um dia, viver duzentos ou trezentos anos.

Qual a origem dessa sua convicção? 

LF – Não é uma convicção, mas sim uma probabilidade. Em 1990, a esperança de vida dos franceses era de aproximadamente 45 anos. Hoje ela chega aos 80 anos. Este prolongamento se deve, essencialmente, a erradicação das mortes precoces. Mas nada nos proíbe de pensar que podemos avançar, detectando a maior parte das doenças genéticas, podendo reparar um dia os gens ‘defeituosos’. As pesquisas sobre as células tronco e sobre hibridização homem-máquina progridem de forma extraordinária, e é a convergência dos vários componentes da tecnomedicina que faz pensar que progressos são possíveis nessa área. O problema é saber a que preço!

Mas é necessário desejarmos uma tal longevidade ?

LF – Esta é a questão, e ela nos obriga a refletir sobre nossa condição humana. Se o ser humano pode se aperfeiçoar infinitamente, e se consegue envelhecer em boas condições, a perspectiva de uma vida mais longa é tentadora. Existem tantos livros para ler, de pessoas para amar…Contudo, não faltarão problemas demográficos e sociais. As famílias estarão longe da igualdade, e essas diferenças de possibilidades tornarão a vida insuportável, pois se trata de viver ou morrer. Mais problemático ainda é que haveria humanidades diferentes: aquelas que aceitariam esse prolongamento e as outras.

O transhumanismo defende, sem preconceitos, também a eugenia. Por que devemos aceitar essa ‘classificação’ do ser humano em nome de um progresso hipotético futuro?

LF – Quando nós falamos em ‘eugenismo’ pensamos imediatamente no nazismo. Para os transhumanistas provenientes, frequentemente, da esquerda libertária, é o contrário, pois se trata de corrigir desiguadades genéticas numa perspectiva fundamentalmente igualitária. Podemos não estar de acordo, mas deixemos de hipocrisia: o eugenismo ‘eliminador, já é praticado entre nós: 97% das mulheres que descobrem, no exame de amniocentese, que estão grávidas de uma criança com síndrome de Down recorrem ao aborto.

Os transhumanistas têm consciência dos efeitos perversos de uma competição baseada na inovação permanente?

LF – Acredito ser esta a principal questão. A maioria não percebe que sua lógica pode nos levar a ‘perda’ da humanidade. Como utilitaristas, eles imaginam que o prolongamento da vida humana trará, necessariamente, a felicidade, enquanto que dar mais liberdade ao indivíduo tem também, como consequência, provocar mais angústia, porque ele deve sempre se assegurar de ter feito boas escolhas. Além disto, o ideal de autonomia que traz dinamismo às democracias, desde a Revolução Francesa, dificulta o enfrentamento. Nessa perspectiva é que o transhumanismo se aproximou da economia colaborativa, que visa também mais autonomia, ignorando intermediários para uma organização entre indivíduos.

De progresso em progresso, como evitar uma corrida ‘louca’ em direção a esse ‘prolongamento’ do humano que se esboça?

LF – Este é o ponto central de meu livro. A competição, sem dúvida, acontecerá inicialmente entre os diferentes grupos, e suas convicções, e depois nas famílias. E a questão da regulamentação será crucial, vital mesmo. Autorizar tudo será assustador, e proibir tudo não terá sentido, no momento em que não se trata de fabricar monstros, mas melhorar a humanidade como, por exemplo, aumentar a longevidade saudável. O dia em que pudermos eliminar dos embriões a mucoviscidose ou a doença de Huntington faremos isto, caso contrário nossos filhos nos repreenderão por não termos tomado tal atitude.

Então, qual a regulamentação a adotar?

LF – Somente uma regulamentação europeia, e mesmo mundial, pode ter sentido. A Comissão e o Parlamento europeus já estão cientes do problema apoiados em dois alentados relatórios dedicados ao transhumanismo. Mas, sem a conexão entre os Estados nacionais nada será possível. Na França será necessário uma reflexão sobre a inovação no centro da questão política. Neste momento os Gafa (Google, Apple, Facebook e Amazon) são americanos, e é sempre tardiamente que a Europa descobre os problemas inerentes à terceira revolução industrial. É para os fazer compreender e soar o sinal de alarme que escrevi este livro.

Notas
(1) Marie Jean Antoine Nicolas Caritat – Marquês de Condorcet (1743-1794) – matemático e filósofo cuja ideia da “perfectibilidade e de progresso do homem” influenciou, e continua influenciando, muitos pensadores.
(2) Ray Kurzweil, inventor e escritor norte-americano, nascido em 1948, considerado um dos maiores visionários do mundo da tecnologia, publicou em 2014 o livro How to Create a Mind, no qual avança em sua exploração sobre inteligências artificiais, elevando-a a novo patamar. Em Transcendent Man (2009),  trecho de documentário no qual expõe suas principais ideias (original em inglês).
(3) O Go é um jogo de tabuleiro fascinante que nasceu na China há mais de 3000 anos. A sua origem permanece incerta e é rodeada por vários mitos. Das quatro grandes artes da China antiga – Go, poesia, música e caligrafia – o Go, apesar da sua aparente simplicidade, foi considerada a arte mais difícil de apreender, compreender e dominar. Foi introduzido há cerca de 1300 anos no Japão através de mestres budistas que visitaram a China e, ganhando popularidade junto da corte imperial, foi institucionalizado em quatro escolas, tornando-se num modo de vida para alguns sábios. Hoje, o Go ainda é jogado na sua forma original.
(4) La mort da la mort. Comment la thecnomédicine va bouleverser l’ humanité. J.C. Lattès (2011) Conferência do autor – TEDxParis 2012 (no original francês)

(*)Claire Chartier e Christophe Barbier fizeram a entrevista ao filósofo Luc Ferry, publicado pela Revista L´Express (05/04/2016). Tradução livre de Vera Brandão. 

Imagem de destaque: Future of Life Institute.

Vera Brandão

Vera Brandão

Pedagoga (USP); Mestre e Doutora em Ciências Sociais (PUCSP); com Pós.doc em Gerontologia Social pela PUCSP. Pesquisadora CNPq (PUCSP); responsável pela editoria da Revista Portal de Divulgação desde 2004. Associada fundadora do Olhe (Observatório da Longevidade Humana e Envelhecimento). Coordenadora da Coluna Memórias do Portal e escreve sobre educação continuada; memória social; saúde e espiritualidade; intergeracionalidade. Email: veratordinobrandao@hotmail.com

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