Tostão, 70 anos do trem azul, o rei branco do futebol

Você que não conheceu Tostão, não viu suas jogadas mágicas, a qualquer momento pode fazer uma pesquisa na internet e se deliciar com o baile do Mineirinho de Ouro. Você que conhece as jogadas, mas não acompanha as crônicas do craque escritor, Tostão acabou de lançar um livro fenomenal como é sua característica: Tempos Vividos, Sonhados e Perdidos, um Olhar Sobre o Futebol. Claro, é muito mais que isso, é um olhar sobre a vida.

 

Tostão faz aniversário no dia 25 de janeiro. Vamos abrir um espaço para dar os parabéns a este ser espetacular. Tostão não é humano de jeito nenhum. Como cantou Gilberto Gil, dedicou a vida a aperfeiçoar o imperfeito. Essa frase de Gil é a cara de Tostão. Um mágico dentro e fora dos gramados. Fez isso a vida inteira e continua a fazer. Gil se colocou no lugar dele ao declarar “não sou Pelé nem nada, se muito for eu sou um Tostão”.

No Olimpo, Tostão humildemente se coloca entre os filhos de Zeus. Jamais desejou o trono, seu trabalho de formiguinha é o de operário, de servir ao rei. Se tem um cara que sabe exatamente qual é o seu lugar, esse cara se chama Tostão. E o seu lugar é o Panteão, o mais elevado, mas sem Carnaval, tudo muito racional, muito bem pensado, trabalhado, arquitetado. Um vencedor nato.

Trem porque é mineiro. Azul porque é Cruzeiro. E não tem nada mais mineiro que combine com Tostão do que o Trem Azul de Lô Borges: Coisas que a gente se esquece de dizer/frases que o vento vem às vezes me lembrar/Coisas que ficaram muito tempo por dizer/Na canção do Vento não se cansam de voar.

Uma dessas coisas que queremos dizer é obrigado Tostão por ser quem você é, um vencedor com os pés (no chão) e com as mãos (na caneta). Para quem não sabe (pois de tão discreto até os números temem falar por ele) é que Tostão ainda é o maior artilheiro do Cruzeiro. O Baixinho de 1,72m não era só capaz de sapatear, girar e ziguezaguear diante de um zagueiro troncudo no tapete verde, ele também sabia enfiar bola nas redes. Sempre com elegância e classe. Sua parceria com Pelé foi fundamental para garantir o caneco mais democrático da história do nosso futebol (pois depois derreteram para fazer alianças, anéis, brincos, pulseiras no ritmo de “a copa do mundo é nossa, com brasileiro não há quem possa…).

Ao completar 70 anos, Tostão não quer festa, mas tem aqui nosso reconhecimento pela fase em que vestiu azul (sua sorte então mudou) e desfilou com a amarelinha no México.

Tostão deixou os gramados, como todos sabem, para renascer como dr. Eduardo. Difícil acreditar.

– Papai, marquei consulta com o dr. Eduardo Gonçalves de Andrade…

– Tostão! Filha, esse médico é o Tostão!

– Será? Bom, papai, não vá tocar nesse assunto. Nada de pedir autógrafos. Pelo amor de Deus nem pense em ir para a consulta com a camisa do Cruzeiro!

– Filha, vou ficar muito nervoso, você não entende, eu vi Tostão jogar. Tostão fazia gol de calcanhar, dava passe de calcanhar, infiltrava-se, era rápido, qualquer sobra na área ele estava lá para marcar. Sabe como os radialistas se referiam a ele? Mineirinho de ouro. Rei Branco do futebol…

– Pai, não chora. Hoje ele é só um médico e mais nada…

– Só um médico, filha? Blasfêmia! Queria que sua mãe estivesse aqui para ir comigo. Tostão. Não acredito. Tostão nunca vai ser só um médico, dr. Eduardo. Isso não faz sentido. Tostão é um patrimônio nacional, é uma das glórias desse país sofrido. Tostão é amor, é alegria, é paixão, é poesia…

– Chega, papai, já entendi, vou desmarcar a consulta, o senhor confia nele mais com a bola nos pés, é isso?

– Filha, prometo ficar pianinho, mas vou chorar…

Tostão foi por muito tempo professor na Faculdade de Ciências Médicas. Acabou voltando para o mundo do futebol como comentarista. Atualmente escreve para a Folha de S.Paulo e cada texto seu é uma lição de vida. Tornou-se craque da caneta. Outro dia meu sobrinho me perguntou como Tostão jogava. Respondi assim: imagine se Iniesta (craque do Barcelona) fosse canhoto. Seria Tostão. Com um diferencial, Tostão sofria da síndrome de Luis Suarez (outro craque do Barcelona), distribuía canetas. Por isso escreve tão bem. Usa seu conhecimento de analista…

– Analista de futebol, tio?

– Analista freudiano aplicado ao futebol… deixa para lá, Tostão seria a soma de Iniesta mais Luis Suarez, entendeu?

– Tudo isso, tio?

– Na copa de 70 Gerson disse que ele foi melhor que Pelé…

– Aí o senhor forçou…

– Forcei, é verdade, Tostão nunca quis destronar Pelé, mas sabe como é a imprensa sensacionalista, exagerada, e Tostão, mesmo sem querer, deu motivos para ser chamado de Novo Rei do Futebol. O Cruzeiro era uma máquina e ele o maestro. Meteu 6×2 no Santos em Minas, e em São Paulo confirmou com um 3×2 no final da Taça Brasil de 1966. Um repórter engraçadinho sacou uma coroa de papel e colocou na cabeça dele e as manchetes do dia seguinte foi Tostão, o Novo Rei.

– Ele deve ter ficado todo cheio…

– Arrasado. Sentiu-se um usurpador. Pediu desculpas ao verdadeiro Rei. Aquilo foi de momento, Tostão estava no auge e Pelé, quatro anos mais velho, já não tinha o mesmo pique. Se existe um cara consciente do lugar que ocupa no Panteão da Fama, esse cara é Tostão. Veja que não o comparei a Messi ou Cristiano Ronaldo, mas a Iniesta e Luis Suarez… juntos.

Você que não conheceu Tostão, não viu suas jogadas mágicas, a qualquer momento pode fazer uma pesquisa na internet e se deliciar com o baile do Mineirinho de Ouro. Você que conhece as jogadas, mas não acompanha as crônicas do craque escritor, Tostão acabou de lançar um livro fenomenal como é sua característica: Tempos Vividos, Sonhados e Perdidos, um Olhar Sobre o Futebol. Claro, é muito mais que isso, é um olhar sobre a vida.

Mário Lucena

Mário Lucena

Psicólogo e jornalista, faz parte da Equipe do Portal do Envelhecimento.

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