Tô suave! Valeu!

Penso na importância de se apropriar do tempo presente, afinal só através deste apoderamento que será possível viver a velhice com a sabedoria que ela merece.
Vivê-la de forma sábia é o coroamento da própria vida, ou seja, é finalmente poder olhar para o tempo passado e presente sem temer o que há pela frente coroando assim a existência. É saber que o tempo foi usado da melhor maneira possível, sem arrependimentos e sem a sensação de vazio de uma existência sem sentido.

Cristiane T. Pomeranz (*)

Sempre que um ano acaba, com o seu fim vem aquela engraçada sensação de análise dos fatos e do tempo como se isso fosse fundamental para que os acertos do próximo ano sejam feitos.

Depois de viver um ano de um Brasil conturbado e inseguro chega finalmente o momento de desacelerar para voltar, então, a correr atrás dos sonhos, desta vez, revigorados e cheios de esperança. E seguimos a passos largos rumo ao futuro que ameaça a nossa irreal soberania que pensa controlar a vida.

Somos sonhadores na nossa essência e por sorte, essa característica nos impulsiona a favor da ventania de um viver que nos descabela, ao mesmo tempo em que nos mantém acessos.

Milton Nascimento já cantava nossos sonhos em 1972 quando lançava a música “Clube da Esquina no 2” cujo movimento musical do mesmo nome surge em Belo Horizonte para celebrar a música brasileira como uma das mais lindas do mundo.

Nos seus versos “Porque se chamavam homens, também se chamavam sonhos e sonhos não envelhecem” percebemos de forma poética a condição do homem de envelhecer sem deixar de sonhar.

Com o ano que se inicia, novinho em folha, percebemos o correr da vida e do tempo em sua natureza concreta que modifica tudo a nossa volta enquanto transforma, inclusive, a nós mesmos.

Na Arte, o pintor espanhol, expoente do surrealismo, Salvador Dali expressa o tempo e seu significado nas suas obras com os relógios derretidos. “A Persistência da Memória” é uma famosa pintura exposta pela primeira vez em 1934. Na tela vemos três relógios que marcam diferentes horas e ao fundo uma paisagem de Port Liligat, cidade marcante na infância de Dali. Seus relógios derretem e nos mostram o tempo como um fator transformador.

Relógios dependurados e derretidos abalam nossa crença e esperança de um tempo cronológico pacífico em nossa existência.

Se não soubermos lidar com o tempo que derrete relógios e altera as vidas, será muito difícil lidar com o correr do rio de um viver que leva as águas por curvas sinuosas extremas e descontroladas. Será difícil, inclusive, envelhecer, condição sine qua non de quem deseja viver.

Analisar o tempo, os homens e os sonhos, pertence ao íntimo dos artistas, músicos, poetas e filósofos.

Lúcio Aneu Séneca, pensador e filósofo do Império Romano, em suas cartas a Lucílio registradas em um livro maravilhoso impresso em português pela Fundação Calouste Gulbenkian de Portugal, nos escreve sobre o tempo e a velhice de maneira encantadora. Cartas a Lucílio é um livro que deveria estar na cabeceira de quem enxerga no envelhecimento algo novo e como tal, que deve ser percebido como curso natural da vida.

Saber envelhecer não é para todos. Renegar a velhice é muito mais fácil do que aceitá-la já que ela traz modificações e perdas que podem, muitas vezes, até superar os ganhos de um longeviver.

Séneca nos fala da importância de tomar nas mãos o dia de hoje para desta forma poder depender menos do dia de amanhã. De adiamento em adiamento, a vida vai se passando e nada nos pertence. Apenas o tempo é mesmo nosso, segundo o filósofo.

Penso na importância de se apropriar do tempo presente, afinal só através deste apoderamento que será possível viver a velhice com a sabedoria que ela merece.

Vivê-la de forma sábia é, segundo este pensador, o coroamento da própria vida, ou seja, é finalmente poder olhar para o tempo passado e presente sem temer o que há pela frente coroando assim a existência. É saber que o tempo foi usado da melhor maneira possível, sem arrependimentos e sem a sensação de vazio de uma existência sem sentido.

“Se queres ter uma vida agradável, deixa de preocupar-te com ela”, diz o filósofo.

Viver nossa história e envelhecer docemente é aceitar o caminho das pedras e o das flores. É olhar para o que foi construído ao longo da vida e do tempo para aceitar o que a velhice te entregará.

Passeando com minha filha, ao olhar uma vitrine de sapatos, pergunto se ela gostaria de comprar algum par. A resposta que ela me deu me fez pensar na minha velhice. Quando chegar a hora de coroar o meu viver, espero olhar para trás e perceber o tempo passado com uma aceitação harmônica como as músicas do Clube da Esquina.

Quero olhar para frente e saber que ali sempre haverá uma possibilidade de transformação. Quero poder sempre transformar os meus relógios, assim como Dali os fez. Não quero temer a morte. Não quero chorar o que não foi vivido. Quero esgotar a vida até sua última gota de orvalho.

E assim como ela que olhava a vitrine, quando me perguntarem se quero algo além daquilo que a vida me deu, minha resposta estará na ponta da língua.

“Filha você quer um sapato?”

“E você quer algo mais da vida?”

Vozes então ecoarão, como a voz do Milton Nascimento em meu coração: Tô suave! Valeu!

Que o ano que se inicia nos traga paz, sabedoria e suavidade.

Que a vida se esgote em cada ano, em cada tempo presente, para poder viver um futuro que nos preencha por inteiro.

Vamos viver o ano! Vamos envelhecer com harmonia de justa causa para poder ter a sensação de estar suave como a pluma.

Que venha o ano novo! Que possamos envelhecer, que possamos ser velhos em paz!

Feliz Ano Novo e que ao fim dele possamos gritar aos quatro ventos em alto e bom tom:

Tô suave! Valeu!

(*)Cristiane T. Pomeranz é arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte e mestranda em Gerontologia Social PUC-SP. E-mail: crispomeranz@gmail.com

Cristiane T. Pomeranz

Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte e mestranda em Gerontologia Social PUC-SP. E-mail: crispomeranz@gmail.com

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