Suíte Francesa

Durante a Segunda Guerra Mundial, na França, Lucile Angellier passa os dias junto de sua sogra esperando pelo retorno do marido, um prisioneiro de guerra. Mas o pequeno vilarejo onde Lucile mora começa a ser invadido por soldados alemães, incluindo o sensível Bruno von Falk. Apesar de resistir à aproximação do soldado, Lucile cede e inicia uma difícil e impossível relação amorosa com ele.

 

“Suíte Francesa”, um filme sobre a Segunda Guerra Mundial ou apenas mais uma história de amor?

Eu diria que vai depender, e muito, dos olhos, apaixonados ou não, de quem assiste a essa bela adaptação do romance de Irène Némirovsky, escritora judia de origem ucraniana cuja família buscou “o seu calor do lugar” em Paris, após fugir da Revolução Russa.

Com uma França invadida pelos alemães em maio de 1940, Irène decide refugiar-se, com o marido e as filhas, em uma pacata cidade do interior, um espaço de paz que julgava bem distante da fúria e perseguição antissemita. Mas em julho de 1942, foi detida e deportada para Auschwitz, onde morreu de tifo um mês depois, aos 39 anos.

Tragédias como essa, ainda hoje, invadem as telas do cinema, tal o inconformismo produzido em quem assiste e testemunha, mesmo muitos anos depois, aquilo que o escritor e psiquiatra austríaco, que também viveu o terror dos campos de concentração, Viktor Emil Frankl (Viena, 1905 – 1997) trata como incomensurável “tormento”.

Manuscrito incompleto publicado em 2004 na França com enorme sucesso, “Suíte Francesa” chegou ao Brasil em 2006. Importante ressaltar que o livro, infinitamente mais completo que o filme, apresenta, em três partes bem definidas, a fuga de Irène, o novo dia a dia estabelecido e os primeiros esforços relacionados à sua participação na resistência.

O livro mescla seu papel como testemunha e também o duro protagonismo de uma história que, como tantas outras, não teve um final feliz. Um relato intenso de um tipo de viver em meio ao caos, onde pequenos e grandes acontecimentos adquirem proporções e consequências inimagináveis, onde vítima e vilão, no seu tumultuado e conflitante modus operandi da relação, nos levam a pensar: na verdade, quem é quem numa guerra?

Na versão cinematográfica dirigida pelo britânico Saul Dibb, assistimos apenas a parte que trata do amor, concretamente impossível, entre uma jovem francesa casada, Lucile Angellier, e seu sensível tenente alemão, Bruno von Falk, um tipo de homem e oficial que foge da crueldade estereotipada que estamos habituados a ver nos filmes sobre o tema. O romance ainda toca, levemente, nos contrastes das relações de classe e relações de ódio, dominação e subserviência entre franceses e alemães.

Respondendo a pergunta inicial: mesmo tendo apenas como pano de fundo, um tanto superficial, as cruezas e revezes do nazismo e mesmo arriscando timidamente em questões mais profundas como a complexa relação de amor e ódio entre “o Diabo e o Bom Deus” em tempos de guerra, “Suíte Francesa” vale a pena ser visto, senão pela vastidão do amor do jovem casal, mas pela bela música.

“Tenha cuidado com a sua vida”, são as últimas palavras trocadas pelos amantes de “Suíte Francesa”.

Traduzindo: quando se ama verdadeiramente, a vida de seu obscuro objeto de desejo é e sempre será “preciosa”.

Trailer disponível Aqui 

Luciana Helena Mussi

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

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