Sobre preconceitos: Neymar calado é um poeta!

Pessoas influentes como Neymar, Romário e Pelé não podem se dar ao luxo de disseminar preconceitos pelas redes sociais. Agora imaginem como será difícil eliminar os termos Mal de Parkinson e Mal de Alzheimer do dicionário português? A dificuldade será maior ainda, pois os manuais dos grandes jornais não dão a menor atenção ao fato.

 

Para um candidato a melhor do mundo, Neymar pisou na bola ao postar: “Tem algum idiota se passando por mim e mandando mensagens pra galera… favor denunciar esse mongol”.

Deliberadamente relacionou as palavras “mongol” e “idiota”. O craque de bola se mostrou péssimo com as palavras. Se fosse Pelé, Romário diria: calado é um poeta. Pai de uma garota com Síndrome de Down, Romário luta contra a discriminação e o preconceito que atinge não apenas um grupo de pessoas, mas toda a raça mongol.

Neymar, ao chamar outra pessoa de “idiota mongol” insulta gratuitamente três milhões de pessoas. Mas isso é só o começo, pois estamos considerando apenas o país, a Mongólia, situado na Ásia Central.

Alguém, por favor, conte ao Neymar que a Mongólia existe, não é brincadeira. E Existem grandes comunidades mongóis na China, Rússia e nos demais países da antiga União Soviética. Porém, se considerarmos que os mongóis já formaram o maior império de terra contígua da história, quando era comandado por Genghis Khan, famoso por sua brutalidade e pela extensão de suas conquistas, Neymar pode estar xingando a si mesmo de “idiota”. Explicaremos por quê. De tão abrangente, o império de Genghis Khan acabou por espalhar seus genes por toda a face da terra. Um estudo genético estimou que 1 a cada 200 homens são descentes do imperador mongol.

Utilizar deliberadamente um termo que advém de uma ideia intrinsecamente errada, muitas vezes com o intuito de ofender ou estimular o preconceito, é privar um povo da sua identidade, do seu passado histórico, da sua riqueza cultural e da sua personalidade coletiva, diz a intelectual portuguesa Margarida V. Lisboa.

De onde Neymar tirou isso? É difícil saber. Se seus parentes nunca se utilizaram do termo, certamente nunca corrigiram o filho ou não foram felizes na correção quando ele começou a usar. Pois seguramente faz isso desde sempre.

No litoral paulista é comum a molecada escolher um colega de turma para chamar de mongo. Os adultos assistem de braços cruzados. São coniventes. No futuro, por achar um termo normal, o filho acaba por fazer papel de idiota ao usá-lo em uma rede social.

Mongo é de mongol e mongol é de mongoloide cujo significado é “próprio da raça mongol”.

O preconceito é fruto das descobertas feitas pelo primeiro cientista a estudar a trissomia do cromossomo 21, o inglês John L. Down. O médico notou que os “idiotas” atingidos pela trissomia tinham as características da raça mongol.

Reginald Down deu continuidade aos estudos do pai sobre o tema e concluiu que: “devia ser uma regressão para um tipo ainda mais retrógrado que a raça mongol, de onde alguns etnologistas acreditam que todas as raças humanas se originaram”.

Um idiota maior, Francis G. Crookshank, epidemiologista britânico, no seu livro The Mongol in Our Midst, tratou de “provar” que entre as raças que formavam nossa civilização a mongol era mesmo a mais atrasada.

O racismo científico prevaleceu. Por mais de um século a trissomia do cromossomo 21 foi tratada por mongolismo nos meios científicos e populares. Apenas em 1959, um movimento que incluía Norman L. Down, neto do cientista John L. Down que iniciou em 1860 a pesquisa da trissomia do cromossomo 21, conseguiu chamar a atenção do mundo para a discriminação que era feita às etnias orientais ao nomear a trissomia de mongolismo.

Mas foi preciso a Mongólia se tornar membro das Nações Unidas, em 1961, e se juntar à Organização Mundial de Saúde, em 1965, para oficialmente o termo mongolismo ser banido e a trissomia se tornar oficialmente Síndrome de Down em homenagem ao primeiro cientista a pesquisá-la.

Há mais de 50 anos o mundo luta para acabar com a discriminação, o racismo e o preconceito contidos na relação “idiota mongol”. Quando alguém do porte de um Neymar Jr. recorre ao termo que deveria estar obsoleto pisca uma luz de alerta no coração da OMS.

Como eliminar o “Mal” de Parkinson e Alzheimer?

Agora imaginem como será difícil eliminar os termos Mal de Parkinson e Mal de Alzheimer do dicionário português? A dificuldade será maior ainda, pois os manuais dos grandes jornais, das grandes corporações, não dão a menor atenção ao fato.

No caso do mongolismo, o mundo inteiro usava, por isso foi relativamente fácil a OMS encarar o problema por meio de uma campanha global. Já o Mal de Alzheimer no lugar de Doença de Alzheimer, trata-se de um problema localizado, só o Brasil fala errado. Um médico ignorante adaptou a palavra Maladie, doença em francês, para Mal e assim ficou. O médico foi só ignorante, como foi Down ao relacionar a trissomia com uma raça, idiota é quem repete o termo.

Na área da saúde já existe um consenso, ninguém fala mais em mongolismo e Mal há muito tempo. Quem falar é imediatamente corrigido, mas se segue falando fica evidenciado que é um profissional desatualizado ou um idiota convicto.

Ficamos assim: falou, escreveu, foi alertado, pare, não seja idiota.

Mário Lucena

Mário Lucena

Psicólogo e jornalista, faz parte da Equipe do Portal do Envelhecimento.

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