A sexualidade nasce e morre conosco

A velhice é um fenômeno social e possui características próprias, inclusive aquelas relacionadas a sexualidade. É engano pensar que as pessoas perdem suas habilidades sexuais à medida que envelhecem.

Luciene Fernandes da Silva (*)

Ao longo do tempo, a imagem que a sociedade cria ou tem em relação ao velho, na maioria das vezes, está baseada em juízo de valores que não correspondem à realidade daqueles que vivem o processo de envelhecimento como por exemplo, os mitos que cercam a condição de velhice que são: o Mito da Senilidade, o Mito do Isolamento Social, o Mito da Inutilidade, o Mito da Pouca Criatividade e da capacidade para aprender. É certo que os idosos contam com maior lentidão e não possuem mais tanta atenção, memória e agilidade. Porém, são capazes de aprender muito. É preciso desmitificar certos conceitos em relação ao idoso, pois a tendência é fazer com que este sujeito se sinta estimulado a buscar sua própria felicidade, através das relações que se estabelecem em seu convívio. É necessário criar outras formas de ensino voltados para necessidades e habilidades dos idosos.

Partindo do pressuposto de que a afetividade é um fator determinante para o processo de envelhecimento saudável, esta reflexão tem como objetivo aprofundar o conhecimento sobre a sexualidade na velhice, em especial a repercussão do “mito da velhice assexuada ou mito da assexualidade” (LOPES, 19956). Esse mito nasceu de tabus culturais e de atitudes de muitos profissionais. As pessoas velhas são julgadas como carentes de desejos sexuais e, no caso de manifestarem este desejo, são tidas como anormais, julgam que a sexualidade e as relações sexuais são reservadas para os jovens. Um tema carregado de tabus, preconceitos e dos arcaicos estereótipos, principalmente os que se relacionam à deterioração do corpo, com que as pessoas idosas se deparam quando o assunto é enamoramento entre parceiros da terceira idade. Este tema torna-se relevante devido à necessidade de se buscar novas formas de enfrentamento da sexualidade nesta etapa da vida como um fator que poderá favorecer um melhor desenvolvimento físico e psíquico do idoso.

Como assinalam Bento, Gonçalves e Prizmic (2007), “A ideia de que as pessoas perdem suas habilidades sexuais à medida que envelhecem não passa de um grande equívoco. A verdade é que o sexo, assim como várias atividades, vai se tornando menos necessário com a idade. O mito, entretanto, é alimentado pela desinformação e pela má interpretação das inevitáveis mudanças fisiológicas que ocorrem nos indivíduos de mais idade. O fato de haver uma diminuição na frequência das atividades sexuais não significa o fim da expressão ou do desejo sexual” (pp. 98-99).

A sexualidade faz parte de todo ser humano, ao longo de toda sua vida, desde a infância até a morte. A sexualidade nasce conosco e morre conosco. Em uma sociedade que valoriza as pessoas mais pelo que fazem do que pelo que são, e considera inúteis aqueles que já não são capazes de produzir, não se pode afirmar que a vida sexual termina ou diminui, apenas que mudam as formas pelas quais o erotismo se manifesta.

O idoso é hoje um marginalizado não só sob o aspecto econômico, mas principalmente no social e sexual. Fala-se pouco da sexualidade das pessoas idosas, e nossa sociedade demonstra absoluta incompreensão diante das manifestações afetivas e sexuais das pessoas longevas. Também é importante citar que o interesse pela vida sexual dos idosos é devido a vários fatores, dentre eles estão: aumento da expectativa de vida, melhoria da qualidade de vida, progresso técnico, melhor alimentação, melhores cuidados, sanidade etc…

A importância dada atualmente ao bem-estar, à tranquilidade e, definitivamente, ao prazer de viver a sexualidade, saber que não existe limite de idade para as relações sexuais, ainda que toda pessoa tenha sua maneira de vivê-la em cada etapa da vida, entender que a sexualidade não tem porque ser um privilégio de jovens, a necessidade de abraçar e ser abraçado, de relacionar-se com outra pessoa, de expressar seus sentimentos… não se atrofia nem desaparece com a idade.

As pessoas de idade foram educadas na aprendizagem de atitudes sexuais do tipo genital e reprodutor e da proibição do prazer sexual, ignorando outros ricos significados da sexualidade, e seu maior problema está na capacidade de corrigir, aceitar e aprender a viver e expressar todos os novos significados. A sexualidade pode ser vivenciada pelo idoso em suas mais diversas maneiras, mas, em grande parte, acontece como forma de expressão verdadeira de carinho.

Com isso podemos concluir que muitos idosos, pela formação reprimida que tiveram, possuem uma dificuldade em falar sobre sexo, bloqueando muitas vezes o esclarecimento de suas dificuldades sobre o assunto. Que nem todas as mulheres se permitem vivenciar sua sexualidade na velhice. Motivadas por repressão, conservadorismo e por não achar importante. A sexualidade na velhice ainda é cercada de tabus e preconceitos.

Referências

BENTO, J.; GONÇALVES, M. C.; PRIZMIC, P. Sexualidade: autoconhecimento e qualidade de vida. São Paulo: Alaúde, 2007.

LOPES, G. P. – Sexualidade e envelhecimento: envelhe-sendo com sexo/ Gerson Pereira Lopes e Mônica B. Maia – 3. Ed. São Paulo: Saraiva, 1995.

(*) Luciene Fernandes da Silva – Assistente Social. Texto escrito para o Curso Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento, da COGEAE/PUC-SP, segundo semestre 2016. E-mail: luciene_fsilva@hotmail.com

 

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