Representações da Velhice no Cinema: Análise do filme “La Once”

Todas as nove amigas representadas no filme “La Once” pertencem à terceira idade, apesar de que a idade exata nunca é comentada. Sabemos apenas que elas se formaram no colégio há mais de 60 anos. Durante todo o filme, elas conversam entre si sobre vários temas, o que nos permite, como espectadores, adentrar esse “micromundo comunitário” criado por elas. 

Daniella Rocha Castelnuovo, Giovanna Vaz De Donno, Lauren Predebon Murillo, Marina de Paula Oliveira Rosa e Filipe Ronald de Carvalho*

 

Introdução

O cinema, conhecido como a sétima arte, nos permite entrar em contato com diversas realidades de uma maneira única, causando um grande impacto no telespectador, o que pode vir despertar reflexões, emoções e indagações. Permite também entender as transformações sociais, e é considerada uma forma de transmissão de conhecimento.

Após a aula ministrada pela Profa Dra Beltrina Côrte na 8a Escuela de Verano 2017, passamos a entender essa mídia como produto e produtor sociocultural, e também como um objeto de estudo científico. Levando isso em conta, buscamos nesta pesquisa compreender como o envelhecimento está sendo representado no cinema e quais as temáticas envolvidas.

Como afirmam Côrte, Mercadante e Gomes (2006): “a mídia reflete um processo de construção do envelhecimento e da longevidade”. Além de estar presente no processo de construção, ela pode afetar direta e/ou indiretamente na construção da identidade psicossocial, considerado “uma área comum entre o indivíduo e o grupo e considera o trabalho individual na elaboração da identidade grupal” (Ferrigno, 2006). A forma como o idoso será representado não afetará somente a ele, mas também os mais novos se projetam para a velhice.

Para isso vamos utilizar o teste Bechdel, que inicialmente foi criado para avaliar as diferenças de gênero, porém foi se mostrando uma ferramenta capaz para analisar diversas questões sociais, como no nosso caso a velhice. A trama precisa cumprir três regras: 1) ter duas personagens ter duas personagens com nome; 2) ao menos uma cena em que conversam entre si; 3) o assunto não pode ser sob uma perspectiva uma velhice “negativa”.

Foi selecionado um documentário de longa-metragem chileno, de 2014 intitulado: “La Once” (em português: “A hora do chá”). Considerado uma comédia, retrata a vida de nove idosas chilenas que se reúnem uma vez por mês há 60 anos. A diretora do filme, Maite Alberdi, é neta de uma delas e gravou as cenas durante alguns desses encontros.

A obra representa a classe alta da sociedade chilena; são nove mulheres muito distintas, incluindo suas histórias de vida, mas que de alguma forma se conectam e as unem. Isso leva a uma breve reflexão sobre a amizade e o quanto ela permeia durante todas as etapas da vida. O filme permite estudar as representações sociais do envelhecimento através do diálogo dessas mulheres e seus pontos de vista, considerando que as representações sociais que os membros de um grupo social têm são um código comum, ou seja, as ideias sobre um mesmo tema compartilhado; desse modo, as representações facilitam a comunicação entre os indivíduos e dentro dos grupos (Wagner et al, 1999).

Teste de Bechdel

Todas as nove amigas representadas no filme pertencem à terceira idade, apesar de que a idade exata nunca é comentada. Sabemos apenas que elas se formaram no colégio há mais de 60 anos. Durante todo o filme, elas conversam entre si sobre vários temas, o que nos permite, como espectadores, adentrar esse “micromundo comunitário” criado por elas (Iacub, 2006a). O autor ressalta que a agrupação de pessoas idosas em espaços específicos associados à recreação, turismo e educação é um dos fenômenos mais chamativos das últimas décadas. Para este trabalho, destacaremos alguns tópicos tratados por elas nessas reuniões.

Um desses tópicos é o papel da mulher na sociedade. Alicia traz ao encontro um antigo caderno de escola no qual cita valores morais da época e como uma mulher deveria se comportar para ser uma boa dona de casa; deveria ter higiene, bom caráter, compreensão, abnegação, prudência, tolerância e domínio de si mesma. Em contrapartida, Maria Teresa, avó da diretora, opina: “A mulher hoje trabalha fora, chega e cuida das crianças, a mulher faz de tudo hoje”. Dessa forma, as personagens do filme são representadas como pessoas que acompanharam a evolução histórica da representação da mulher na sociedade, permitindo-se mudar de opinião; desconstroem, assim, o estereótipo da pessoa idosa como alguém com opiniões rígidas. Além disso, a oportunidade de participar desse tipo de discussão permite incluir as mudanças sociais em uma narrativa, lidar com a continuidade e a descontinuidade, a permanência e a impermanência, o que por sua vez possibilita produzir sentido e identidade (Iacub, 2011). Isso fica claro também quando elas trazem à mesa o assunto do lesbianismo. Maria Teresa comenta que assistiu um filme em que duas mulheres mantinham uma relação amorosa, o qual é definido por ela como realista e bem-feito. Esse assunto levanta um pouco mais de polêmica; Alicia critica o tema como “inadequado” para ser tratado no grupo. Maria Teresa responde que hoje em dia não se pode ter uma visão preconceituosa sobre um tema que é real e atual.

Outro tema interessante abordado por elas é a relação com o passado e com a perda de seres queridos. Em um dos encontros, Maria Teresa diz que no dia 14 de março, teria completado 57 anos de casamento com Billy, já falecido. As amigas dizem que ela se recuperou logo da viuvez, que não se deprimiu; deixam implícito, assim, que esse seria um comportamento esperado de quem passa por essa experiência. Ela, por sua vez, mostra antigas correspondências trocadas durante o noivado, e se emociona ao ler. Suas amigas lhe aconselham a “não viver de fotos amarelas”, ao qual ela responde que “cada um deve cuidar do seu próprio rabo”, e que “o futuro se constrói com base no passado”. A divergência de opiniões entre elas retrata uma das grandes questões dessa etapa da vida: como relacionar-se com o passado, em uma fase em que pareceria que a pessoa tem mais passado que futuro. Iacub (2006b) destaca que pessoas mais velhas tendem a atribuir um valor maior às recordações; entretanto, quando muito tempo é dedicado à recordação, o sujeito pode ficar preso em momentos passados e triste pela impossibilidade de repará-lo, além de descomprometer-se com o momento presente. Por essa razão, o autor destaca a importância do projeto de vida; a necessidade de um objetivo que não seja apenas recreação, e de sonhos, não apenas memórias. Nesse sentido, o filme resulta bastante conservador, uma vez que não aborda projetos futuros das personagens além de viagens recreativas e planos de novos encontros.

O filme também trata sobre a subjetivação da própria morte, outro tema caro a quem vive essa etapa da vida. Maria Teresa falece entre o penúltimo e o último encontro, e deixa uma carta para as amigas com uma oração de Santo Agostinho. Essa oração traz uma mensagem positiva, de esperança, derrubando ideias pré-concebidas sobre a morte como algo doloroso e impossível de lidar – por exemplo, nos seguintes trechos: “A vida que compartilhamos com amor permanece como foi. O que fomos um para o outro ainda é assim. Mencionem-me como sempre”. Também, traz uma interpretação a morte: “O que é a morte? É algo que ocorre diariamente”. Essa última mensagem de Maria Teresa demonstra consciência sobre sua morte iminente e preocupação com o impacto desse acontecimento na vida das amigas. Para Correa e Hashimoto (2012), constituir-se como sujeito, subjetivar-se também é incorporar a morte e a velhice como objetos da vida, como sua maior defensora e não seu algoz; entretanto, esse exercício constitui um desafio tanto para o pensamento quanto para a construção de si. Nesse sentido, Maria Teresa deixa um belo legado sobre a aceitação da finitude.

Conclusão      

Podemos observar que o processo de envelhecimento retratado no filme se aproxima de uma velhice mais diferenciada da representação social que temos do idoso. Enquanto essa representação fala de uma pessoa que está presa a concepções passadas, que não é capaz de refletir, de construir novas ideias e mudar de opinião, o filme nos mostra que é possível sim um idoso acompanhar as mudanças do seu tempo, mudar de opinião e se colocar disposto a repensar e ressignificar conceitos e acontecimentos. Outro aspecto que vale ser lembrado é a questão da finitude. Por mais que se diga que os homens, e daí não somente os idosos, não lidam bem com o fato de serem seres para a morte, o filme nos mostra que pode haver uma melhor aceitação desta finitude, como vemos na personagem da Maria Teresa. Logo, fica evidente que a velhice não é algo estático, limitante e que não ocorre da mesma forma para todos os indivíduos. É claro que ela pode ser assim, engessar o indivíduo e envolve-lo em relações de dependência, mas pode ser de outro modo também, visto que existem inúmeras possibilidades para essa fase da vida. Outro fato importante é como é trabalhado a questão da rede de relacionamento na velhice e como ela é importante na vida do idoso. O filme se mostra conservador apenas no aspecto de não mostrar essas possibilidades aos idosos, pois, como foi dito anteriormente, ele se limita apresentando projetos futuros apenas como viagens recreativas e agendamentos dos encontros mensais das senhoras. É importante que cada vez mais, os meios de comunicações, as artes, as literaturas, os pensadores, falem e deem espaço a essa nova representação social de velhice, não só pelo fato de traduzirmos e tentarmos compreender um fenômeno humano tão complexo, mas também por podermos contribuir com uma melhora na qualidade de vida desses sujeitos, visto que eles não precisariam mais ficar presos a estigmas tão negativos e limitantes.

Bibliografia
ALBERDI, M. La Once. [filme-vídeo]. Chile, EUA. 2014. Disponível online no Netflix, 1h 10min. color. son.
CORREA, M; HASHIMOTO, F. (2012). Finitude, envelhecimento e subjetividade. Revista Temática Kairós Gerontologia, v.15, n.4, p. 85-99.
CÔRTE, B; MERCADANTE, E.F.; GOMES, M.R. Quais são as imagens dos idosos na mídia? In: Velhices: reflexões contemporâneas. São Paulo (SP): SESCSP/PUC-SP, 2006.
FERRIGNO, J.C. A identidade do jovem e a identidade do velho: questões contemporâneas. In: Velhices: reflexões contemporâneas. São Paulo (SP): SESCSP/PUC-SP, 2006.
IACUB, R. (2006a). Erótica y Vejez: Perspectivas de occidente. Buenos Aires, Argentina: Paidós.
________. (2006b). No somos solo memoria. Disponível em <http://www.ricardoiacub.com.ar/no-somos-solo-memoria/> . Acesso em: 12/03/2017.
________. (2011). Identidad y envejecimiento. Buenos Aires, Argentina: Paidós.
SANCHEZ, C.S. (2015). Educación y envejecimiento: una relación dinámica en constante transformación. Educación XX1, v.18, n.2, p.235-255. Madrid, España.
WAGNER, W; DUVEEN, G; FARR, R; JOVCHELOVITCH, S; LORENZI-CIOLDI, F; MARVOVA, et al. (1999). Teoría y Método de las Representaciones Sociales. Asian Journal of Social Psychology, v.2, p. 95-125.
*Daniella Rocha Castelnuovo, Giovanna Vaz De Donno, Lauren Predebon Murillo, Marina de Paula Oliveira Rosa e Filipe Ronald de Carvalho, estudantes de diversos cursos de graduação da América Latina, contemplados com bolsas para cursarem a 8a Escuela de Verano 2017, de 14 a 23 de fevereiro de 2017, na Universidade de la República, Uruguai, que teve como tema “Investigaciones interdisciplinarias en el campo del envejecimiento”. Giovanna Vaz De Donno e Marina de Paula Oliveira Rosa são alunas do curso de Psicologia da PUC-SP.

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