Relatividade temporal

relatividade-temporalO desenvolvimento da Física, durante o século XX, foi decisivo para o desenvolvimento tecnológico que está à nossa volta nos dias de hoje.

José Roberto Castilho Piqueira / diretor da Poli-USP

Vivemos um panorama novo e de mudanças socioeconômicas mais rápidas.

Em cada tarefa de produção ou atendimento, um agente novo, cada vez mais efetivo, aparece. É a automação transformando imensas fábricas de automóveis em conjuntos compactos de ilhas de montagem robotizadas.

Nos hospitais, equipamentos sofisticados aprimoram procedimentos clínicos e cirúrgicos. Na construção civil, módulos pré-fabricados e processos de avançados de montagem diminuem os tempos de obras e apuram a qualidade do processo construtivo.

Nas indústrias química e farmacêutica, concentrações de soluções são monitoradas e controladas por instrumentos de alta precisão.

O trânsito das grandes metrópoles parece não ter solução sem estudos computacionais cuidadosos que levem em conta uma grande quantidade de parâmetros técnicos e sociais.

As ideias que originaram essa revolução foram formuladas pelos precursores da Mecânica Quântica e da Teoria da Relatividade, pilares da Física Moderna. Cientistas que ousaram ir além da observação humana habitual pensaram em partículas que podem atravessar barreiras aparentemente intransponíveis e em relógios que pulsam de acordo com a velocidade que possuem.

Para nós, seres humanos normais, pensar que o tempo possa passar de maneira diferente, de acordo com a velocidade de seu medidor não soa assim tão estranho. É comum dizermos e ouvirmos expressões do tipo: “como este ano passou rápido” ou “este jogo não acaba mais…”.

Enfim, estamos acostumados a sensações temporais que parecem desprezar os relógios e seguir cursos relacionados às nossas construções mentais, isto é, ao chamado tempo psicológico.

Quando se é jovem, parece que ser velho é quase um defeito e não nos damos conta que só é possível viver bastante, ficando velho.

Nasci depois da Segunda Grande Guerra, fiz a escola primária enquanto se construía Brasília, e os antigos cursos ginasial e científico, embalado pelo sonho do desenvolvimento tecnológico da corrida espacial. Tudo parecia andar muito devagar e o dia de sair de casa para estudar em uma boa faculdade soava distante.

Finalmente, chegou o tempo de cursar a Escola de Engenharia. Estudei Cálculo e Física com afinco, em tempo de válvulas e de início da tecnologia de transistores. Circuitos integrados eram sonhos e as calculadoras eletrônicas começavam a nascer. Tudo começou a ficar muito rápido.

Ao ver meu neto operar seu ipad, acessando a Internet em um misto de diversão e aprendizado, confesso que lembro com saudade de meu trabalho no desenvolvimento dos primeiros modems nacionais para comunicação de dados. Parece que foi ontem, diriam os da minha geração.

Fico imaginando um médico que, no início dos anos 1960, participou dos primeiros transplantes de órgãos, contribuindo para o desenvolvimento desses procedimentos. É possível entender o orgulho desses profissionais ao pensar em como vidas são salvas, cada dia de maneira mais efetiva.

Prosseguindo o raciocínio, penso naqueles que ensinaram minha geração, nas escolas e nos lares, com exemplos e trabalho. Muitos ainda vivos e bisavós. Chego, então, àquilo que quero abordar: o aumento do tempo de vida da espécie humana é fator decisivo para o progresso.

A maior longevidade é, em geral, atribuída ao progresso tecnológico. Credita-se ao desenvolvimento dos fármacos, das técnicas e equipamentos cirúrgicos, bem como das estratégias de cuidados, o aumento significativo do tempo médio de vida das populações, nas sociedades mais desenvolvidas.

Claro que não vou contrariar essa argumentação, por ser lógica e talvez, até passível de verificação. Entretanto, gosto de uma explicação mais completa e compatível com meus ideais humanísticos: a tecnologia ajudou decisivamente a prolongar as vidas e estas, uma vez prolongadas, implicaram a transmissão cada vez mais eficiente do conhecimento entre as diversas gerações.

Inovações efetivas e que contribuem para a melhoria do ser humano combinam a experiência e o conhecimento dos avós com a ousadia dos netos, mediadas pelo dia a dia dos pais, que sustentam a cadeia produtiva industrial, agrícola, comercial, social e, principalmente, a da geração e viabilização das novas ideias.

Alguém pode considerar que essa é uma visão inocente do mundo e argumentar que, rigorosamente, não há progresso, pois a violência e as diversas formas de preconceitos aumentam a olhos vistos.

Caberia aqui uma pesquisa mais cuidadosa, uma vez que os principais regimes de segregação racial acabaram e as lutas por territórios sempre fizeram parte do gênero humano. Embora com armas menos potentes, batalhas antigas sempre foram tão ou mais impiedosas do que as recentes.

Entretanto, tratados internacionais, respeito aos direitos das sociedades e dos cidadãos, cuidado nas relações individuais e coletivas, parecem, também, evoluir positivamente, com a ajuda do conhecimento humano acumulado, sempre transmitido pelos mais velhos e lapidado pelos mais novos.

Parece até que a Teoria da Relatividade e toda sua sofisticação teórica são aplicáveis à vida diária: os intervalos de tempo variam de acordo com as sensações humanas, mas os conhecimentos se acumulam regularmente, levando à constância da evolução da espécie.

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