Reflexões sobre a velhice, arte e a Chapada dos Veadeiros

Pensava então na velhice e no caminho que a constitui repleto de atitudes e escolhas que ora cegará nossos olhos para um contexto possível de ser admirado, ora nos ensinará a sermos fortes o suficiente para não fazer das “escaladas” um empecilho para um mergulho de corpo e alma nas mais belas cachoeiras.

 

A Natureza é exuberante! O Brasil surpreende por suas paisagens diversificadas assim como nossa cultura. A Chapada dos Veadeiros é um lugar marcante por sua beleza natural ainda pouco explorada pelo turismo e pelo homem. Localizada na região centro-oeste do estado de Goiás, a Chapada dos Veadeiros é uma unidade de conservação brasileira de proteção integral à natureza criada em 1961 por Juscelino Kubitschek e incluída em 2001 como Patrimônio Mundial pela UNESCO.

Vale a visita para os amantes de um viver de dias regrados à paz e à harmonia de um contemplar calmo em barulhos e em paisagens.

Administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação a Biodiversidade, o parque da Chapada é um convite imperdível para os aventureiros de alma e para as pessoas descoladas de alguns valores sociais que nos amarram a um viver repleto de regras totalmente fora de sentido. Ao passear pela cidadezinha de Alto Paraíso de Goiás ou pelo vilarejo de São Jorge, é comum encontrar pessoas que abandonaram suas vidas nas grandes cidades para morar em um lugar onde o andar do tempo segue a nosso favor e não contra nós.

Lugar de pedras, a existência de quartzo e seus cristais fazem da Chapada um lugar de forte energia propícia ao turismo místico.

Tribos de cabeludos descalços, jovens vegetarianos e turistas dispostos a esquecer da vida burguesa e consumista, nem que seja por um curto tempo, fazem parte do cenário repleto de cachoeiras e banhos gelados.

Os passeios são deslumbrantes e requerem uma disposição de um corpo com energia para escalar pedras e trilhar caminhos, muitas vezes difíceis para alcançar o destino desejado.

A beleza de suas cachoeiras faz valer qualquer esforço trilhado.

Tive o prazer de fazer parte deste contexto durante sete dias das minhas férias. Momentos especiais para explorar as paisagens de um cerrado aberto e fascinante. A cada passo que dava sentia estar vivendo um caminhar muito semelhante ao que trilhamos ao encontro de nossa velhice.

Passo a passo vamos construindo nosso viver por caminhos repletos de dificuldades que acabam retendo o foco do nosso olhar para as pedras e não para o entorno. Ao andar pelas trilhas da Chapada, ao caminhar para as cachoeiras, entendia o mundo como uma constituição de ações que tomamos ao longo do percurso onde muitas vezes o medo da queda nos impede de apreciar o próprio caminhar.

As cachoeiras da Chapada dos Veadeiros faziam parte do ápice da trajetória. Algumas trilhas exigiam uma energia de pernas e de ação já que era o forte desejar da cachoeira que nos impulsionava a trilhar as dificuldades do caminho.

Pensava então na velhice e no caminho que a constitui repleto de atitudes e escolhas que ora cegará nossos olhos para um contexto possível de ser admirado, ora nos ensinará a sermos fortes o suficiente para não fazer das “escaladas” um empecilho para um mergulho de corpo e alma nas mais belas cachoeiras.

O caminho a seguir estará ali na nossa frente todas as vezes que optarmos por viver algo valioso para nossa constituição, mas é a maneira que vamos trilhá-lo que fará a diferença.

Olhamos as pedras e esquecemos o caminho ou aproveitamos o caminho mesmo que haja o risco de um ou outro tropeço?

As trilhas das cachoeiras são difíceis, muitas vezes, mas o caminhar é divertido apesar de intenso.

Entre tantos passeios que a Chapada oferece, alguns se tornaram meus preferidos: Banho na cachoeira dos Arcanjos glorificou um caminhar pesado mostrando que não há como mergulhar num paraíso de sensações sem desbravar as dificuldades impostas pelo caminho.

O Poço Encantado me fez crer que mesmo com um trajeto tranquilo é preciso vencer as correntezas para usufruir de uma das mais belas quedas d’águas da região.

Já o Vale da Lua comprovou o que sempre desconfiei ser fato: A natureza é uma obra de arte. Inquestionável!

Ao andar por suas rochas irregulares que fazem jus ao nome do lugar, tive a mais pura sensação de estar numa grande instalação.

Jardin D’Émail do artista Jean Dubuffet

Lembrei-me da obra Jardin D’Émail do artista Jean Dubuffet. Na Holanda, próximo a Amsterdam o museu Kröller-Müller, famoso por abrigar a segunda maior coleção de quadros de Van Gogh, o artista elaborou para o jardim uma instalação genial onde o expectador passeia pela obra cujo piso irregular realça os traços pretos pintados em um plano branco. A sensação é indescritível com um visual que garante lindas fotos para seus exploradores.

Na Chapada o Vale da Lua também nos apresenta um piso irregular com poços para banho e um visual lunático e encantador de tão exótico.

Ao passear pelo lugar, a certeza da arte e estética vinda da natureza encantava cada passo que dava.

Os dias foram maravilhosos, mas faz-se hora de voltar ao caminho que escolhi trilhar: urbano, porém com valores modificados a cada passo que ouso dar a favor de um envelhecer interessante.

Seguimos em frente construindo nosso viver e nosso envelhecer. Seja qual for o caminho, seja qual for as dificuldades é preciso fazer valer o desejo de encontrar na velhice uma bela cachoeira: Forte na sua beleza e potência, capaz de escoar entre as rochas um viver construído por caminhos onde o afeto e a estética possam prevalecer em cada escalada.

Fotos: Cris Pomeranz

Para saber mais sobre o Jardin D’Émail e sobre o museu Kröller-Müller: http://krollermuller.nl/en/jean-dubuffet-jardin-d-email 

Cristiane T. Pomeranz

Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte e mestranda em Gerontologia Social PUC-SP. E-mail: crispomeranz@gmail.com

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