Quem vai cuidar de quem? Procura-se pessoas disponíveis para cuidar!

As pessoas não pensam que serão dependentes em algum momento da vida ou talvez não contem com seus filhos para cuidados em caso de dependência. Acreditam que terão uma velhice independente e não há nada de errado nisso. Mas, se não tiver um filho, quem cuidará? Vizinhos? Amigos? Instituições?

 

Tenho refletido sobre a questão do cuidado e me pergunto de tempos em tempos: o que faz um ser humano cuidar do outro? Cuidar é dedicar-se, interessar-se, aproximar-se do necessitado de cuidado. Envolve valor, afeto, interesse e dedicação. Altruísmo, solidariedade e reciprocidade.

O que faz um ser humano cuidar de um idoso? Estou falando daquela fatia da população de idosos que estão dependentes para realização de suas atividades cotidianas, muitas vezes deprimidos ou com a demência em curso.

A resposta pode parecer simples, mas não é, e corremos o risco de ser moralistas. Tive a oportunidade de conhecer um homem de seus 50 e poucos anos, que era responsável pelos cuidados de um idoso de 80 anos. Relatou que sempre foi amigo do idoso e que, hoje, é seu cuidador. Conversava com a equipe, questionava, trazia informações, sempre dedicado, embora fosse perceptível seu cansaço e também a necessidade de autocuidado.

Conheci também filhos dedicados, filhos ausentes, filhos que não conseguiam se organizar para se aproximar de seus pais, filhos que buscavam uma ”consciência tranquila” após a morte do idoso e, por isso, cuidavam. Filhos que ainda eram muito filhos, incapazes de se ver como cuidadores de seus pais. Conheci ainda filhos que travaram uma jornada em busca de apoio entre irmão para que todos cuidassem e nem sempre com sucesso, enfim, existem diversas formas de cuidar e de não cuidar. E isso é um fato!

Nesses últimos anos, tem-se defendido e valorizado o envelhecimento ativo, novas gerações de idosos estão cada vez mais independentes, mesmo os idosos mais longevos. E isso é incrível, mas, ainda teremos muitos idosos envelhecendo com doenças crônicas e dependentes, solitários e amargurados, mesmo que tenham sido muito ativos.

Envelhecer de forma ativa, não é só uma questão individual, existem diversos fatores determinantes sobre a questão do envelhecer, não é igual para todos. Precisamos de rede de amigos, apoio emocional, família, enfim, precisamos de outras pessoas por perto para que todo o curso de nossa vida seja positivo, gratificante e marcante. Sendo assim, ainda precisaremos de pessoas dispostas a cuidar e estar presente respondendo ou apoiando nas necessidades de alguns idosos.

Só que temos uma questão a resolver, boa parte dos idosos de hoje veio de um contexto social em que era uma prática ter muitos filhos, mas essa não é uma realidade em pleno século XXI. As pessoas optam por ter 1 a 2 filhos ou até preferem não os ter. E mesmo quem tem um número maior de filhos, não está garantido o cuidado de todos ou mesmo de um. Como fica a rede de cuidado?

As pessoas não pensam que serão dependentes em algum momento da vida ou talvez não contem com seus filhos para cuidados em caso de dependência. Acreditam que terão uma velhice independente e não há nada de errado nisso. Mas, se não tiver um filho, quem cuidará? Vizinhos? Amigos? Instituições?

Será que precisamos cada vez mais de amigos solidários, como citado no início desse texto? Quem cuidará dessa população que está envelhecendo, sozinha, sem filhos presentes ou algum familiar que cuide? Que políticas podem ser desenvolvidas para lidar com essa situação emergente?

Sugiro uma reflexão, quem estará ao seu lado nas necessidades de cuidado? Como você estabeleceu seus vínculos afetivos? Quem te amará no futuro quando estiver dependente? Será que você precisa realmente fazer laços para ter cuidados? Teremos condições para pagar cuidadores? Essa mão de obra estará disponível?

Precisamos de pessoas interessadas em cuidar, pois, para alguns idosos, ter alguém que cuide é uma questão de sobrevivência. Cuidar de quem precisa é uma responsabilidade social na qual todos nós estamos sujeitos e envolvidos. Que disposição que temos de cuidar de alguém?

 

 

Fabiana Petito

Fabiana Petito

Formada em Psicologia pela FMU, especialista em Psicologia Clínica no Hospital do Servidor Público Estadual, pós graduada em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública, Pós graduanda em Gerontologia pela Hospital Osvaldo Cruz. Psicóloga da Unidade de Referência em Saúde do Idoso PMSP- OSACSC.

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