Que tal passear por suas memórias?

Já ouviu falar de black Mirror? A série é famosa por problematizar a sociedade contemporânea e retratar o futuro com uma boa dose de ironia. O quarto episódio da terceira temporada mostra um possível tratamento para a doença de Alzheimer em meio a uma bela história de amor.

 

“[Cuidador]: Yorkie contou como ficou tetraplégica e por quanto tempo vive assim?… Quando tinha 21 anos ela se assumiu para os pais conservadores. Eles disseram que não admitiriam uma filha lésbica, que não era natural. Brigaram, logicamente. Yorkie pegou o carro e meteu o pé na estrada. Deu no que deu.

[Kelly]: Ela tinha apenas 21?

[C]: Exato. Isso foi há mais de 40 anos. Viveu assim a maior parte de sua vida (em estado vegetativo). Por isso o sistema San Junipero é importante para ela e será até a sua morte, quando poderá se tornar um membro permanente do sistema. Agora ela o utiliza no limite, cinco horas por semana. Imagino que você também.

[K]: Limitam nosso tempo. Não confiam em nós.

[C]: Dizem que enlouquecem com tempo demais. Há o risco de dissociar corpo e mente.

[K]: Como se isso já não acontecesse nos asilos. O sistema foi criado para fins terapêuticos. Terapia de imersão nostálgica. Você mergulha num mundo de memórias. Dizem que ajuda com a doença de Alzheimer.

[C]: Pequenas dádivas. ”
O que o cuidador de Yorkie chama de pequena dádiva é o sistema de San Junipero que proporciona ao idoso a oportunidade de visitar suas memórias viajando virtualmente para outras épocas. Visitar qualquer ano de sua vida. A cidade virtual de San Junipero está voltada para a diversão e o prazer, pois é isso que os idosos buscam em suas memórias, momentos intensos, felizes e agradáveis.

É o caso das visitantes Kelly e Yorkie. Retornam à década de 80 e transformam suas memórias em um belo caso de amor. A conexão é tão profunda que faz Kelly – que só queria curtir a vida, sem vínculos – fugir para outros anos, outras décadas para evitar Yorkie. Mas o amor é forte e extrapola o ambiente virtual. Kelly procura Yorkie pessoalmente e se depara com o Cuidador (que resulta no diálogo transcrito livremente acima).

Quem assiste ao episódio só vai se dar conta que se trata de duas idosas vivendo suas memórias em um sistema virtual neste ponto. O episódio nos faz refletir sobre a importância da memória no trabalho terapêutico com pessoas idosas e faz isso por meio de uma história de amor entre uma mulher branca, virgem, lésbica e uma negra, sexualmente ativa e bissexual. O sistema San Junipero proporciona vivências como estas. Ao visitar suas memórias, o idoso pode ir além e realizar fantasias.

Esta é uma das propostas da série, quebrar tabus. Por isso, Black Mirror toca a todos, especialmente os integrantes da comunidade LGBT. Gugu Mbatha-Raw, atriz que interpreta Kelly, explica: o episódio transcende os rótulos. Ele retrata antes de tudo seres humanos apaixonados. É lindo ver pessoas simplesmente assumindo seus desejos e sendo quem são.

É lindo ver idosas simplesmente sendo idosas. é lindo ver lésbicas e bissexuais simplesmente sendo quem são e é ainda mais lindo quando essas características não definem as personagens, são meros traços de suas personalidades que não deveriam ser malvistos.

Saiba mais

http://apaixonadosporseries.com.br/series/black-mirror-3×04-san-junipero/

http://www.vanityfair.com/hollywood/2016/10/san-junipero-black-mirror-season-3-review-lesbian-couple-charlie-brooker-gugu-mbatha-raw

https://blog.alzheimers.org.uk/dementia-insight/confronting-dementia-in-netflixs-black-mirror/

 

Dhara Lucena

Dhara Lucena

Estudante de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo.

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