Que longevidade será essa que almejamos…

Ao ler a matéria do médico Drauzio Varella “Longevidade irresponsável” no último sábado na Folha de S.Paulo, pensei: que indivíduo será esse que nos tornamos? Fiquei com um gosto amargo de existência ao término da reportagem. Talvez porque concorde com muitas das palavras do médico sobre a evolução desse bicho-homem contemporâneo. Um alguém que consegue chegar às raias do egoísmo na busca pela sobrevivência do próprio umbigo.

Luciana H. Mussi 

 

Estamos sós e nos percebemos sós, diariamente, constatamos o fato pela força das experiências vividas. Cai a ficha: com quem, realmente, podemos contar? De que parte de nós viria isso? De onde, de que época da nossa história aprendemos tanta individualidade, tanta mesquinhez de sentimentos? Bem, aí cito alguns trechos (resumidos) da matéria de Varella, começando com um pouco da história da espécie. Explica o médico:

“Nossa espécie desceu das árvores nas savanas da África há pelo menos 5 milhões de anos. Passamos quase toda a história abrigados em cavernas, atormentados pela fome, pelas doenças infecciosas e por predadores humanos e não humanos. A mortalidade infantil era estratosférica; poucos chegavam aos 20 anos em condições razoáveis de saúde”.

Varella continua falando que “Milhões de anos de privações moldaram muitas de nossas características atuais”. Talvez essa sensação de nada, de vazio ou falta potencial nos tenha moldado através dos tempos para nos fazer assim como somos. Precisamos correr, ganhar dinheiro, comer muito, fazer sexo loucamente, senão, do contrário, podemos perder tudo e pior, numa fração de segundos. A ideia é engolir tudo e todos, guardar para o momento de penúria, que virá, com certeza.

Tenho uma amiga que, creio, nasceu apressada. Um dia ouvi uma história bem interessante que pode, muito bem, ser uma explicação para tanta pressa na vida, muito pior que o coelho e seu terrível relógio de “Alice no País das Maravilhas”. Essa angustiada amiga contou-me que sua mãe tinha dúvidas se deveria ou não ter mais um filho. Relutou muito em aceitar sua gravidez inesperada e não planejada. No decorrer da gestação, sofreu alguns pequenos acidentes, mas nada que prejudicasse a menina apressada que viria a nascer. Em resumo, minha amiga termina essa história dizendo, com muita convicção, que, quase, acabou nascendo no elevador do hospital, e segundo sua elaborada justificativa: tamanha era a pressa de viver para destruir a ameaça de tudo terminar por mais um “evento acidental”. Histórias de família, histórias da gente…

Voltando para Varella, para mais uma história, a de todos nós, outra questão importante foi a “maturidade sexual precoce”. Ele explica: “Vivíamos tão pouco que levavam vantagem na competição as meninas que menstruavam antes e os meninos que produziam espermatozoides mais cedo. Quanto mais depressa concebiam filhos, maior a probabilidade de transmitir seus genes às gerações futuras”.

“A precocidade da fase reprodutiva impôs limites mais modestos à duração da vida. Em todos os animais, quanto mais tarde acontece o amadurecimento sexual, maior é a longevidade”.

“(…) Se nossos antepassados tivessem começado a ter filhos só depois dos 50 anos, agora passaríamos dos 120 com facilidade. O acompanhamento de coortes de centenários confirma essa suposição: mulheres que engravidam pela primeira vez depois dos 40 anos têm quatro vezes mais chance de chegar dos 90 anos”.

Outro ponto essencial neste entendimento da evolução do homem, “a segunda característica moldada nas cavernas foi nosso padrão alimentar”. Varella esclarece a questão através do funcionamento da complexa rede de neurônios que controlam os mecanismos de fome e saciedade no cérebro humano. Ele diz que tudo se originou “em época de penúria”: “Em jejum há três dias, o homem daquele tempo trocaria a carne assada do porco do mato que acabou de caçar por um prato de salada?”

O médico continua: “A terceira, foi a necessidade de poupar energia. Em temporada de vacas magras, absurdo desperdiçá-la em esforços físicos desnecessários. Somos descendentes de mulheres e homens que lutavam para conseguir alimentos altamente calóricos, porque deles dependia a sobrevivência da família. Como o acesso a eles era ocasional, nessas oportunidades comiam até não poder mais. Bem alimentados, evitavam movimentar-se para não malbaratar energia”.

Com o século 20, o saneamento básico, as noções de higiene pessoal, as tecnologias de produção e conservação de alimentos, as vacinas e os antibióticos, este cenário mudou drasticamente. Não precisa ser nenhum expert para saber, usando as palavras de Varella, que em apenas cem anos, a expectativa de vida no Brasil atingiu os 70 anos; mais do que o dobro em relação à de 1900, feito que nunca mais será repetido.

É cada vez mais frequente matérias que traçam amargos prognósticos sobre a longevidade que se anuncia nos próximos anos e décadas: “A continuarmos nesse passo, em 2030 atingiremos a expectativa de 78 anos. A faixa etária que mais cresce é a que está com mais de 60 anos. Sabendo que atualmente 75% dessa população sofre de enfermidades crônicas, a saúde pública estará preparada enfrentar esse desafio?, questiona Varella”

Sabiamente, o médico responde que “Pelo andar da carruagem, é quase certo que não”.

Mas, retornando para o início, para esse estranho Ser que nos tornamos, trago o alerta de Varella quando ele fala da “nossa irresponsabilidade ao lidar com o corpo”. São três parágrafos provocativos, duríssimos e importantes:

“Aos 40 anos, você pesa dez quilos mais do que aos 20. Aos 60, já acumulou mais uma arroba de gordura, não resiste aos doces nem aos salgadinhos, fuma, bebe um engradado de cerveja de cada vez, é viciado em refrigerante, só sai da mesa quando está prestes a explodir e ainda se dá ao luxo de passar o dia no conforto”.

“Quando se trata do corpo, você se comporta como criança mimada: faz questão absoluta de viver muito, enquanto age como se ele fosse um escravo forçado a suportar desaforos diários e a aturar todos os seus caprichos, calado, sem receber nada em troca”.

“Aí, quando vêm a hipertensão, o diabetes, a artrite, o derrame cerebral ou o ataque cardíaco, maldiz a própria sorte, atribui a culpa à vontade de Deus e reclama do sistema de saúde que não fez por você tudo o que deveria. Desculpe a curiosidade: e você, pobre injustiçado, não tem responsabilidade nenhuma?”

Caro leitor, pense nisso e em muito mais, principalmente naquilo que ficou perdido no decorrer na evolução (ou quem sabe involução de sentimentos). E pense também, como bem lembrou um leitor da FSP, da ciência, do estilo de vida, do saneamento, das tecnologias, entre outras, que a cada dia prolongam a vida da gente sem pensar nas suas consequências. Afinal, a pergunta que não quer se calar é: vivemos para termos mais anos de vida ou vivemos para termos prazer na vida?

Referências

VARELLA, D. (2012). Longevidade irresponsável. Disponível Aqui. Acesso em 05/05/2012.

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