A procura do método RPG pelos velhos, o corpo precisa mexer

A promoção de atividade física para idosos que não tem a mesma “sorte” dos pacientes que atendo é crucial. Precisamos de ruas, praças, parques e outros locais abertos à livre escolha e às ações espontâneas dos indivíduos, dotados de acessibilidade pública e designados, construídos ou apropriados para atividades funcionais, sociais ou de lazer que possibilitam a convivência e a permanência.

Jacqueline dos Santos Alencar (*)

 

Sou fisioterapeuta, e trabalho atualmente com o método de Reeducação Postural Global (RPG), técnica que alonga vários músculos simultaneamente, pertencentes a mesma cadeia muscular, e parte do pressuposto de que um músculo encurtado cria compensações em músculos próximos ou distantes.

Este método preconiza a utilização de posturas específicas para o alongamento de músculos organizados em cadeias musculares, sendo considerada de longa duração (aproximadamente 15 minutos em cada postura). De acordo com o RPG, as cadeias musculares são constituídas por músculos gravitacionais que trabalham de forma sinérgica dentro da mesma cadeia. Por exemplo, todos os músculos da cadeia posterior possibilitam a manutenção da posição ortostática contra a ação da gravidade.

O alongamento segmentar de um desses músculos, ao não levar em conta as compensações secundárias que ocorrem na respectiva cadeia muscular, poderiam torná-lo menos eficiente. O alongamento estático normalmente é utilizado para alongar isoladamente um músculo até um ponto tolerável e sustentar a posição por certo tempo, daí ser considerado segmentar.

Eu, particularmente, utilizo os dois métodos, tanto o RPG como o alongamento segmentar. Em estudo comparativo entre RPG e alongamento estático segmentar, as duas técnicas de alongamento foram igualmente eficientes no ganho de flexibilidade, amplitude de movimento e força muscular. Dessa forma, ambas podem ser utilizadas em situações clínicas, e dependendo da necessidade do paciente, introduzo outras técnicas também, além de orientações sobres as atividades de vida diária (AVDs) que compreendem aquelas que se referem ao cuidado com o corpo das pessoas (vestir-se, fazer higiene, alimentar-se ) e as atividades instrumentais de vida diária (AIVDs), as relacionadas com atividades de cuidado com a casa, familiares dependentes e administração do ambiente (limpar a casa, cuidar da roupa, da comida, usar equipamentos domésticos, fazer compras, usar transporte pessoal ou público, controlar a própria medicação e finanças).

Quando iniciei esse trabalho na clínica, há cerca de 6 anos, não imaginei esse número crescente de pacientes velhos, acreditava que os jovens fariam parte de uma porcentagem maior, mas a preocupação de um envelhecer com qualidade de vida é grande. E acredito também que toda essa atenção dada ao velho de uma maneira geral seja um grande diferencial. Além do RPG e alongamento segmentar, também oriento a todo momento a prática de atividade física, de acordo com o perfil e limitação de cada um.

Tenho pacientes que estão comigo há anos, e mesmo praticando outras atividades secundárias eles não querem largar esse tratamento. Estudos relatam benefícios do método na melhora da força muscular respiratória, expansibilidade torácica, mobilidade toracoabdominal e da pressão respiratória máxima, além de redução da dor e da perda de urina em mulheres incontinentes, melhora da flexibilidade, da atividade eletromiográfica nas disfunções temporomandibulares e da estabilidade postural em alterações ortopédicas de membros inferiores. Vejo o paciente não em partes e sim o corpo de um modo global.

O padrão etário mais envelhecido acarretou a necessidade de buscar soluções criativas e viáveis para oferecer a essa parcela da população condições qualificadas para o prolongamento da vida, com preservação da saúde e melhor assistência em caso de doenças.

Sem condições adequadas de independência e saúde para os idosos, o aumento da expectativa de vida, ao invés de se caracterizar como uma conquista da sociedade, pode se tornar um problema sério a ser resolvido. Nessa perspectiva, são importantes ações amplas e efetivas para promover o envelhecimento saudável e manter a independência dos idosos. Acredito que não envelhecemos igualmente, as marcas do tempo mudam de acordo com o indivíduo, sua herança genética, hábitos e condições ambientais, portanto temos duas idades: a idade cronológica e a idade biológica. O processo de envelhecer é imparável, mas suas consequências podem ser prevenidas e minimizadas, e meu trabalho na clínica se baseia nesse conceito. Fico imensamente feliz quando vejo resultados significativos.

Outro ponto importante é que as mulheres têm participado mais ativamente dos projetos sociais ofertados para os velhos, representando a maioria esmagadora dos seus favorecidos. A menor participação de homens em programas educativos, assim como em serviços primários de saúde, pode ser devido em grande parte a questões culturais, considerando que na socialização dos homens, os cuidados com a saúde têm sido pouco enfatizados. Além disso, os homens tendem a apresentar maior dificuldade do que as mulheres para verbalizar suas emoções e necessidades, à medida em que temem que isso possa ser interpretado como demonstração de fraqueza.

Observo também na clínica e é um exemplo, uma paciente que já realiza tratamento há cerca de 4 anos, e que acabou “obrigando” seu cônjuge a realizar também o tratamento, que apresentou resistência no início. Ele muito mais fragilizado que sua esposa, mas por mais que eu tente passar segurança, diminuir o desconforto que ele sinta, por mais que já esteja acostumado com a profissional, ainda sente vergonha quando precisa de ajuda em certos momentos. E claro, que só realiza o tratamento por “pressão” da esposa, mas reconhece a importância do mesmo, e seus benefícios.

A maioria dos pacientes demonstra possuir redes sociais efetivas, sendo a principal delas a própria família. De um modo geral observa-se entre eles grande apoio familiar e evidências de satisfação com a quantidade e tipos de suporte recebidos. É importante que os idosos possam participar das redes sociais de forma ativa, recebendo e fornecendo apoio social, de modo a encontrar fatores de proteção à saúde e terem preservados seus sentimentos de pertencimento a grupos compostos por pessoas significativas para eles. Ou seja, apesar de toda a “pressão” pelo tratamento, essa ligação forte do casal, 60 anos juntos, foi um ponto importante, o ponta pé inicial ao tratamento do paciente, e a permanência dele até hoje.

Os pacientes que atendo na clínica são particulares ou possuem um ótimo plano de saúde, e aí entra em questão as barreiras que influenciam os velhos a não praticarem atividade física ou participarem dos serviços de saúde. Precisamos de incentivo à promoção da expectativa de vida com saúde e qualidade para todas as pessoas em processo de envelhecimento, visando incentivá-las a perceber o próprio potencial para o bem-estar físico, social e mental ao longo da vida.

À medida que as pessoas envelhecem e têm suas competências reduzidas, os ambientes passam a exercer uma pressão maior sobre seu comportamento, sendo necessário recorrer a adaptações nos elementos ambientais de acordo com os níveis de competências dos indivíduos para atingir níveis ideais de ajustamento, conforto e desempenho. Nesse sentido, os indivíduos com capacidades funcionais mais comprometidas seriam os que mais sentiriam a influência da pressão ambiental, adaptando-se a uma variedade menor de ambientes.

Acatando esse tipo de argumentação, ao instituir a perspectiva do envelhecimento ativo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) inclui o ambiente como fator determinante para o envelhecimento saudável. Segundo a organização, as características do ambiente influenciam o comportamento humano de modo significativo, podendo representar a diferença entre a independência e a dependência para todos os indivíduos, mais especialmente para os mais velhos. Pessoas velhas que moram em ambientes ou áreas de risco com múltiplas barreiras físicas saem de casa com menos frequência e, por isso, estão mais propensas ao isolamento, depressão, menos preparo físico e mais problemas de mobilidade.

Para que o ambiente físico possa proporcionar mais benefícios do que dificuldades aos velhos, isto é, para que seja mais dócil e propicie apoio adequado às suas necessidades, as proposições do envelhecimento ativo recomendam que as opções de atividades mais saudáveis também sejam as de mais fácil execução, estimulando-os a serem mais ativos diante das situações da vida cotidiana. Com a finalidade de alcançar esses objetivos recomenda-se:

1) oferta de serviço de transporte público acessível e barato;

2) ausência de obstáculos que possam causar lesões por quedas, acidentes e incêndios;

3) moradia apropriada e adaptada para suas necessidades de saúde e de segurança;

4) vizinhança segura que favoreça uma interação social positiva;

5) ruas bem iluminadas para caminhadas seguras, banheiros públicos acessíveis, semáforos com mais tempo para os pedestres;

6) fornecimento de água limpa, ar puro e alimentos seguros;

Programas de exercícios para ajudar as pessoas idosas a manter sua mobilidade

Em relação a todos estes itens citados, há muita coisa a ser trabalhada. Mas a questão da promoção de atividade física para idosos que não tem a mesma “sorte” dos pacientes que atendo é crucial. Os idosos que atendo, além de terem acesso aos mais diversos tipos de serviços de saúde, ainda podem pagar por outras atividades, como hidroginástica, pilates, personal trainer… etc. Precisamos de ruas, praças, parques e outros locais abertos à livre escolha e às ações espontâneas dos indivíduos, dotados de acessibilidade pública e designados, construídos ou apropriados para atividades funcionais, sociais ou de lazer que possibilitam a convivência e a permanência. Eles têm sido utilizados em diversas partes do mundo como locais para a promoção de atividades físicas, recreativas, de cultura e lazer para todas as idades por serem acessíveis, possibilitando o encontro das diferenças sociais. Especificamente no caso os velhos, vários grupos de pesquisa têm apresentado indicativos consistentes com relação a esses espaços estimularem a permanência física, cognitiva, social e afetiva, resultando em benefícios para a saúde e o bem-estar.

Sou a favor de atividades que mexam com o corpo de um modo geral para os velhos, só que além de todos os itens citados acima, temos também algumas barreiras para a não adoção de atividades físicas por estes. Observam-se os seguintes motivos: relação negativa com a prática de atividade física (ficar viúvo, atividades ocupacionais); limitação física por doença (dores, limitações físicas, quedas); maneira de ser da pessoa longeva (as pessoas serem amargas, mal humoradas, tristes, ruins, antissociais, acomodadas entre outras), papel familiar (superproteção e falta de estímulo), a influência do meio ambiente (incentivos negativos familiares, falta de vivência com relação a atividade, inadequação de transporte, locais e a falta de segurança).

Observo também muito destes fatores nos meus atendimentos, como já relatei tenho pacientes de anos, que além do RPG também realizam outras atividades, mas também atendo pacientes que realizam somente as 10 sessões que geralmente o médico indica, e depois somem, têm uma ansiedade em terminar logo as sessões, ou não apresentam ânimo algum para realizá-las.

Gostaria muito de futuramente realizar algum trabalho em parque, praças, seja o que for, para os “meus velhos”.

(*) Jacqueline dos Santos Alencar é fisioterapeuta. Reflexão final para o Curso Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento, da PUC-SP (COGEAE), primeiro semestre de 2017. E-mail: jacq.santos@superig.com.br

 

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