Por que Theresa May criou o Ministério da Solidão

O ato da primeira-ministra, do Reino Unido, de criar um Ministério da Solidão, foi uma resposta a algo ainda mais alarmante do que depressão, suicídio ou mortes por quedas: os britânicos estão “ficando para trás” na revolução da longevidade. Além de estarem morrendo sozinhos, estão morrendo mais cedo. A maior preocupação é que o Brasil corre a passos largos na direção da tragédia britânica.

 

A notícia sobre a criação do Ministério da Solidão para acolher sobretudo idosos com depressão e vulneráveis ao suicídio ou mortes por quedas alarmou boa parte do mundo. Como um dos países mais ricos sofre com esses problemas? Os especialistas em saúde pública ou em envelhecimento ficaram menos surpresos com o surgimento da inusitada pasta. Isso porque em grande parte do globo, a notícia chegou pela metade, ou melhor, sem a sua pior dimensão. O ato da primeira-ministra Theresa May foi uma resposta a algo ainda mais alarmante: os britânicos estão “ficando para trás” na revolução da longevidade. Não estão apenas morrendo sozinhos, mas estão morrendo mais cedo. A maior preocupação é que o Brasil corre a passos largos na direção da tragédia britânica.

Quase 40 anos depois de Margareth Thatcher (1979-1990) ascender ao poder e inaugurar a era neoliberal, com privatizações, flexibilização trabalhista, reforma da previdência e redução de todos os serviços de proteção social no Reino Unido, os britânicos constatam uma inédita queda, de até um ano, na taxa de expectativa de vida – um dos dois principais indicadores de bem estar de uma população (ao lado da mortalidade infantil). Após o avanço do populismo de direita, do Brexit e do sucesso do filme-denúncia “Eu, Daniel Blacke” (de Ken Loach), os britânicos descobrem que aquele mesmo liberalismo que prometia salvá-los, está, literalmente, enterrando-os antes do que o previsto. As reformas prometidas como acesso à modernização, ao crescimento econômico, à aposentadoria e ao emprego para todos revelaram-se assassinas.

Os dados são oficiais e estão estampados em todos os jornais, desde a divulgação em outubro do ano passado, com direito a debates na tevê, artigos e muita discussão acadêmica. O primeiro alarme foi soado pelo médico Michael Marmot ao verificar que a expectativa de vida dos britânicos parou de crescer desde 2010 e caiu já em 2011. Nas cidades em processo de desindustrialização (pós-industriais) e nas áreas rurais isoladas da Inglaterra as pessoas estão morrendo mais jovens, enquanto os londrinos e moradores do sudeste ainda conseguem sustentar a taxa média nacional, mesmo assim, em patamar decepcionante.

 

Enquanto assistem a outros europeus viverem muito mais, as mulheres inglesas estacionaram em uma expectativa de 82.9 anos e os homens em menos de 80 (79.2), o que é considerado bem modesto para um país rico. Ou seja, um britânico tem a mesma expectativa de vida, ao nascer, de um brasileiro de Santa Catarina. Um processo de latinização. E acelerado. Dezenove países europeus estão em melhor situação. O Reino Unido, assim, acompanha a tendência dos Estados Unidos entre os “deixados para trás” (left behind) na grande conquista do século XXI: a longevidade.

As previsões feitas pelo Office for National Statistics (ONS) em 2014 eram de uma expectativa de vida de 87.1 anos para as mulheres em 2041. Em 2016, a projeção foi reduzida para 86.2. No caso dos homens, a queda foi de 84.3 para 83.4 anos. Em outras palavras, os britânicos estão perdendo quase um ano de vida a cada dois anos. É assustador. Os estatísticos do governo afirmam em relatório que a taxa continuará a cair nos próximos anos.

Os professores Danny Dorling e Stuart Gietel-Basten, especialistas em Saúde Pública, fizeram as contas com base nos dados da ONS. Serão mais de 1 milhão de mortes prematuras até 2058. O período de melhora nas condições de saúde que durou 110 anos chegou ao fim. Não porque o avanço tecnológico estagnou. Pelo contrário. O problema é o acesso a uma rede de proteção social cada vez mais encolhida pela política de teto de despesas a impor “cortes de gastos selvagens” na saúde.

As restrições promovidas, desde os anos Thatcher, na proteção social ou no chamado Estado do Bem-Estar Social, têm sido apontadas como as maiores causas dessa desvantagem britânica. Não só. O governo reconhece hoje, em documento oficial, o exagero das medidas de redução do Estado e o impacto desse encolhimento para fomentar o PIB potencial, sobretudo depois da crise de 2008. A flexibilização das regras do mercado de trabalho, aponta o governo, reduziram a produtividade da economia britânica. O tímido aumento do número de empregos foi insuficiente para compensar essa queda, uma vez que os empregos têm menor remuneração, baixa qualificação, satisfação e comprometimento – porque ampliam a rotatividade.

O abandono do “capitalismo de reconstrução”, como Thomas Piketty define o período pós Segunda Guerra, e a adesão incondicional ao que pode ser chamado de “capitalismo de desconstrução” reforçou as previsões mais pessimistas sobre o Reino Unido. O fato de terem acreditado na famosa frase de Thatcher de que “não existe esse negócio de sociedade, o que existe é o indivíduo e sua família” está cobrando um preço alto dos britânicos: desigualdade e morte. Com consequências na política. O historiador Tony Judt havia alertado: “o thatcherismo até conseguiu alguns resultados na economia, mas destruiu o Reino Unido como sociedade”.

Dorling e Gietel-Basten mostram como mesmo os governos conservadores do século XIX investiram na saúde pública, com vacinas, saneamento básico e água potável. No século XX, os mesmos conservadores acompanharam essas melhorias com ampliação da seguridade social, seguro desemprego e um sistema tributário progressivo. O NHS (o SUS britânico) é de 1948. A política de saúde, lembram os autores, incluiu melhorias na habitação e transporte público. Depois tudo mudou na gestão pública e agora as reformas cobram seu preço. “O mais plausível culpado é uma combinação de um tipo particular de austeridade para os pobres e os idosos que tão rapidamente decretou o governo conservador-liberal-democrata”, escreveram.

Isso significou, continuam os professores, uma perda de suporte de cuidado para meio milhão de idosos desde 2013. O orçamento do NHS estagnou desde 2010 e muitas casas de cuidados de idosos faliram [aliás, o mesmo está ocorrendo na França] de Emmanoel Macron. A pobreza entre os idosos aumentou pela primeira vez. As britânicas com mais de 80 anos são as maiores vítimas de mortes por solidão. De acordo com os autores, o governo ignorou, durante anos, os dados de piora nas condições de saúde da população. Sempre dizendo que era apenas um pico de mortes causados pelo influenza.

Desde 2016, os cortes nos gastos sociais, “especialmente para a redução do valor de benefícios de aposentadorias”, têm sido vinculados às mortes consideradas prematuras. O Financial Times chegou a registrar que a redução da expectativa de vida poderia ajudar os fundos de pensão a poupar 310 bilhões de libras. O governo, segundo Dorling e Gietel-Basten, continua negando esta relação. Mas a situação é de calamidade, sobretudo na Escócia, garantem pesquisas das universidades de Oxford, Liverpool, Glasgow e York, citadas pelos autores. O Ministério da Solidão, portanto, pode ter sido a rendição do governo May a esta realidade.

A desilusão das novas gerações ao constatarem ser impossível replicar o padrão de vida de seus avós ou pais – mesmo com suas vidas cortadas por duas guerras mundiais – amplia as patologias neuronais do século XXI: obesidade, depressão, alcoolismo, tabagismo e, o que atinge os idosos e antecipa a morte, a solidão. Os britânicos jovens precisam, cada vez mais, ir buscar oportunidades em outras cidades ou países. Os velhos morrem de doenças do Terceiro Mundo, como as gripes no inverno, seja por falta de cuidados ou dinheiro para o aquecimento. As quedas são altas em números “sem precedentes em tempos de paz”, como diz o The Times. Dramática, rara e enorme são as palavras usadas para definir a queda abrupta verificada na expectativa de vida britânica nos últimos cinco anos.

Esses adjetivos revelam o medo de o país estar assistindo a uma réplica do que ocorre nos Estados Unidos, onde estudo do prêmio Nobel de Economia Angus Deaton e da economista Anne Case encontraram também uma queda inédita na expectativa de vida de homens, brancos, não-hispânicos entre 45 e 54 anos. O principal motivo apontado por Deaton e Case foi a redução da cobertura da seguridade social. A falta de perspectiva de que um dia poderiam se aposentar como seus pais e avós está causando desilusão nesse segmento etário, vítima do fenômeno da “fragilização da segunda metade da carreira” ou, simplesmente, sem satisfação no trabalho pela ausência de qualquer chance de expressividade no que fazem.

As doenças neurais ou físicas levam a um consumo – e vício – de opióides, uma vez que a saúde é privada e muito cara. Ainda hoje, mesmo com o Obmacare, 33 milhões de norte-americanos vivem sem nenhuma cobertura de saúde, segundo o Census Bureau. A depressão, a obesidade e outras Doenças Não-comunicadas (NCD, na sigla em inglês) matam 4 milhões de norte-americanos por ano. Elas são um dos grandes problemas econômicos do momento. O prefeito de Nova Iorque, Mike Bloomberg, reconheceu o papel das “políticas fiscais” nesta empreitada e nomeou nada menos que Lawrence Summers para chefiar uma força tarefa para elaborar novas alternativas.

Qual lição podemos tirar disso tudo? A população brasileira ganhou 30 anos de expectativa de vida de 1940 a 2014. O nosso objetivo, evidentemente, sempre foi um catching up (alcançamento) das taxas dos países ricos. Nossas conquistas foram maiores depois da Constituição de 1988 e da implementação do Sistema Único de Saúde, ampliação da cobertura de previdência (sobretudo a rural) e assistência social. Como recomenda a OCDE, o envelhecimento populacional impõe uma nova agenda socioeconômica porque é um fator de risco para o crescimento da desigualdade social.

O Brasil, como alertei em outra oportunidade, está no caminho inverso: o da chamada “reprivatização da velhice”, como definiu Guita G. Debert (Unicamp). Sofisticação tecnológica, os tipos de integração no mercado de trabalho, cuidados na primeira infância e rede de suporte social à pessoa idosa são fatores, hoje, negligenciados. Eles degradam a saúde, operam contra a economia da longevidade e, certamente, ampliam a necessidade de no futuro o Brasil ser obrigado a também criar o seu Ministério da Solidão. Um triste catching up.

Referências

CENSUS BUREAU (2015) Income, Poverty and Health Insurance Coverage in the United States: 2014, Disponível em https://www.census.gov/newsroom/press-releases/2015/cb15-157.html Acesso em 19 de janeiro de 2018.

DEATON, A.; CASE, A. (2015) Rising morbidity and mortality in midlife among White non-Hispanic Americans in the 21st century, Woodrow Wilson School of Public and International Affairs and Departament of Economics, Princeton University, NJ 08544, vol. 112, nº 49, pp. 15078-15083.

DEBERT, G. G. (1999) A reinvenção da velhice: socialização e processos de reprivatização do envelhecimento, São Paulo, Edusp/Fapesp.

DORLING, D. e GIETEL-BASTEM, S. (2017) Life expectancy in Britain has fallen so much that a million years of life could disappear by 2058 – why? Disponível em https://theconversation.com/life-expectancy-in-britain-has-fallen-so-much-that-a-million-years-of-life-could-disappear-by-2058-why-88063 Acesso em 29 de novembro de 2017.

FELIX, J. (2017) Um Brasil mais velho e mais desigual?, artigo publicado no jornal Valor Econômico, em 07 de dezembro de 2017. Disponível em https://www.valor.com.br/opiniao/5220217/um-brasil-mais-velho-e-mais-desigual Acesso em 07 de dezembro de 2017.

JUDT, T. (2008) Pós-guerra, uma história da Europa desde 1945, Rio de Janeiro, Ed. Objetiva.

LCI (2017) Un rapport alarmant remis sur les conditions de travail dans les maisons de retraite, Disponível em https://www.lci.fr/societe/un-rapport-alarmant-remis-sur-les-conditions-de-travail-dans-les-maisons-de-retraite-2064456.html Acesso em 19 de janeiro de 2018.

LE MONDE (2016) La France à l’épreuve du grand âge, reportagem de janeiro de 2016, Disponível em  https://www.lemonde.fr/economie/article/2016/01/20/la-france-a-l-epreuve-du-grand-age_4850612_3234.html Acesso em 18 de janeiro de 2018.

NYT (2018) U.K. Appoints a Minister for Loneliness, 17 de janeiro Disponível em   https://www.nytimes.com/2018/01/17/world/europe/uk-britain-loneliness.html

OCDE (2017) Preventing Ageing Unequally, OECD Publishing, Paris, Disponível em https://www.keepeek.com/Digital-Asset-Management/oecd/employment/preventing-ageing-unequally_9789264279087-en#page4 Acesso em 2 de dezembro de 2017.

THE TIMES (2018) Life expectancy falls by a year in several regions of England, 17 de janeiro, Disponível em https://www.thetimes.co.uk/article/life-expectancy-falls-by-a-year-in-several-regions-of-england-prwcdgzvl Acesso em 17 de janeiro.

Jorge Félix

Jorge Félix

Jornalista especializado em envelhecimento populacional, pesquisador (CNPq), mestre em Economia Política e doutorando em Sociologia na PUC-SP. Foi o primeiro pesquisador (CNPq) a citar o conceito economia da longevidade (silver economy) no Brasil. É professor convidado na PUC-SP (Cogeae), FESP-SP, USP (EACH). Autor do livro “Viver Muito”. Escreve sobre Economia da Longevidade. Email: jorgemarfelix@uol.com.br Twitter/@jorgemarfelix – www.economiadalongevidade.com.br. Facebook Viver Muito

jorgefelix escreveu 5 postsVeja todos os posts de jorgefelix