Por que se vive?

Dream Rangers nos faz pensar que mesmo conscientes do nosso próprio fim, das ameaças e desejos constantes, sempre haverá uma possibilidade, um novo parágrafo da vida, formas de ver a velhice e o envelhecimento como processos, ambos entendidos e resolvidos coletivamente, com o outro e pelo outro, transversalizado por olhares e escutas, num movimento constante de aprender, de conhecer, de saber.

 

O curta-metragem “Dream Rangers”, na verdade um comercial de 2011, criado pela agência Ogilvy Taiwan, trabalha o efeito do tempo e suas implicações, experiências únicas, produzidas justamente porque vivemos. Baseado em uma história real, de cinco homens com problemas de saúde, que viviam das lembranças do passado, dos amigos que se foram e que num determinado momento resolvem dar um basta na vida que levavam.

Recuperam suas antigas motos, fazem seis meses de preparação física e empreendem uma viagem de moto pela Tailândia, de treze dias, por 1.139 km para atravessar o país de norte a sul, reviver uma aventura, recuperar os sonhos perdidos e encontrar um novo sentido para a vida. Por que se vive? Para que se vive? Não há uma resposta que seja definitiva, a busca é constante e particular, de cada um.

O envelhecimento é tatuado na nossa pele desde o nascimento, a cada dia uma nova marca, mortes reais e subjetivas, novos traços que com o tempo se tornam mais profundos formando sulcos que mostram a nossa nudez diante da finitude, como parágrafos acrescentados na nossa própria história.

Mas, mesmo conscientes do nosso próprio fim, das ameaças e desejos constantes, sempre haverá uma possibilidade, um novo parágrafo da vida, um pensar na velhice e no envelhecimento como processo, ambos entendidos e resolvidos coletivamente, com o outro e pelo outro, transversalizado por olhares e escutas, num movimento constante de aprender, de conhecer, de saber.

“Sonho como casa de sabedoria”, outra faceta sobre o “educar”: assim este texto convida o leitor a pensar nas palavras do jornalista Krenak (1992, p.201) em “Antes, o mundo não existia” do livro “Tempo e História”: […] educação, escola, universidade, elas estão nos sonhos, na casa do conhecimento. Esse sonho tem um aprendizado para o sonho. E, quando nós sonhamos, nós estamos entrando num outro plano de conhecimento, onde nós trocamos impressões com os nossos ancestrais, não só no sentido de nossos antigos, meus avós, meu bisavô, gerações anteriores, mas com os fundadores do mundo.

Cinema, Educação e Envelhecimento, um exercício possível que permite voar como as borboletas; ideia expressa no texto oriental recuperado por Monteiro (2005, p.76) em seu artigo “Somos velhos porque o tempo não para”: “O sábio chinês Chuang-Tzu sonhou que era uma borboleta, e ao acordar se perguntou se até então fora um homem sonhando, ou se poderia ser naquele momento uma borboleta sonhando que era um homem”.

Referências

KRENAK, A. Antes, o mundo não existia. In: NOVAES, A. (org.). Tempo e história. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

MONTEIRO, P.P. Somos velhos porque o tempo não para. In: CÔRTE, B.; MERCADANTE, E. F.; ARCURI. I.G. (Orgs.). Velhice, envelhecimento. São Paulo: Vetor, 2005.

SORNSRIWICHAI, T. Dream rangers. Disponível em < http://www.youtube.com/watch?v=40vcTKl0F-w>. Acesso em: 11 mai. 2011.

Luciana Helena Mussi

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

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