Perspectivas de um novo olhar para o Momento da Morte

Cerca de um terço dos idosos americanos são submetidos a cirurgias em seu último ano de vida; 8% morrem no decorrer da semana que foi operado. E um terço dos familiares de pacientes internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) apresenta sintomas de transtorno de estresse pós-traumático. Nos países onde a pesquisa foi realizada no que se refere a morte e os cuidados de fim de vida, a maior parte dos participantes responderam que gostariam de morrer em casa. 

Vera Lucia Frazão de Sousa (*)

O tema “Melhorando a Morte” foi matéria divulgada pelo jornal o Estado de S.Paulo em 02 de Maio 2017. O assunto revela uma realidade da população mundial, seja ela idosa ou não, em que a evolução farmacológica e tecnológica é capaz de promover tratamentos cada vez mais sofisticados, por meio de cirurgias, altas doses de medicamentos e prolongamento de vidas, independente por vezes da condição de dor e sofrimento ao paciente e, consequentemente, desconforto aos familiares ou às pessoas do seu convívio.

A matéria apresentou também alguns resultados extraídos de uma pesquisa realizada em quatro países (EUA, Brasil, Itália e Japão) sobre a temática. “A maior parte das pessoas morrem em hospitais ou asilos, amiúde depois de passar por tratamentos tão agressivos quanto inúteis, muitos morrem sozinhos, sem estar em plena posse de suas faculdades mentais, e com dor”, mostram ainda que cerca de um terço dos idosos americanos são submetidos a cirurgias em seu último ano de vida; 8% morrem no decorrer da semana que foi operado. E um terço dos familiares de pacientes internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) apresenta sintomas de transtorno de estresse pós-traumático.

Nos países onde a pesquisa foi realizada no que se refere a morte e os cuidados de fim de vida, a maior parte dos participantes responderam que gostariam de morrer em casa. Essa questão nos chama a atenção pelo fato de se tratar de países com diferentes realidades demográficas, tradições religiosas e níveis de desenvolvimento, como apontou os pesquisadores. Contudo, ao mencionarem a casa, pode-se inferir ao domicílio que é a sede jurídica da pessoa, local onde se presume direitos, nesse sentido as respostas “morrer em casa” pode ser o desejo que cada um tem de escolher a melhor acolhida de morrer.

A morte é um momento para ser vivido e “A vida se torna preciosa demais quando já não há muita vida a ser vivida” e neste curto tempo, muitas vezes, os desejos dos doentes terminais permanecem ignorados ou não são levados em consideração. Quando são cuidados por familiares, amigos ou pessoas próximas, esses vivem um dilema nas decisões de conduzir um diálogo sobre a possível pergunta quanto aos desejos que o seu ente querido gostaria de realizar,   a maioria se esquiva em falar sobre os desejos possíveis de ser realizados nesse tempo diminuto, e se arrependem após o morte do paciente. Dos 56 milhões de pessoas que morrem todos os anos, uma parcela ínfima recebem bons cuidados de fim de vida, isso envolve programas de Saúde: Pública ou Privada. Ora, se os profissionais de saúde ainda se encontram em um processo de consciência e aprendizagem para conversar sobre o assunto da morte e a autonomia de escolha do paciente para um viver bem, com a realização de seus desejos nesse momento, quiçá os familiares e ou amigos, com a emoção aflorada pela perda implacável do seu ente querido, possam fazê-lo.

“Os médicos começam a se dar conta de que há uma maneira melhor de cuidar dos doentes terminais”, apesar de sua prática ser norteada pelo o ideal do controle da doença, e nessa diretriz não se considera o desejo do paciente pela escolha do seu tratamento, percebe-se, portanto, pela leitura dessa matéria que começa a se despertar e intensificar o interesse de médicos para o respeito do paciente, considerando-o um sujeito com liberdade e autonomia de suas escolhas.

Nos EUA, há dois anos o programa público de saúde – Medicare que é destinado a pessoas a partir de 65 anos de idade, propagou o financiamento por conversas sobre cuidados de fim de vida entre médicos e pacientes. Sobre esse assunto a Drª Susan Block, da Harvard Medical School, considera que a conversa sempre ajuda. No entanto, afirma que os médico vão além da conversa pois eles precisam ser especialistas em comunicação, só assim poderão propiciar o melhor cuidado aos pacientes terminais. Sugere ainda que alguns especialistas devem quantificar as conversas sobre a morte com seus pacientes a exemplo dos oncologistas americanos, que precisam ter, em média, 35 conversas sobre cuidados de fim de vida por mês. Observa a Drª Susan que o estresse é uma causa comum entre os médicos devido o despreparo para conversar sobre a morte com os pacientes.

O Relatório publicado em 2015 pela Economist Intelligence Unit (EIU), que avaliou a “qualidade da morte” em 80 países, apontou que apenas a Áustria e os EUA têm condições de garantir tratamento paliativo para ao menos metade dos pacientes para os quais haveria indicação. Essa lacuna pode ser diminuída com a conscientização e aderência pelos médicos e equipe de saúde no tratamento cotidiano dos pacientes por meio do “Guia de Conversação” sobre Doenças Graves, criado por Ariadne Labs, no qual apresenta uma lista de tópicos que os médicos precisam abordar ao falar com seus pacientes terminais. “A recomendação é que o médico comece perguntando o que a pessoa efetivamente sabe sobre sua condição clínica, em seguida verifique até que ponto ela deseja aprofundar seu entendimento, depois ofereça um prognóstico honesto e indague quais são seus objetivos e do que ela está disposta a abrir mão para atingi-los”. O referido Guia já trouxe resultados positivos, onde alguns médicos já antecipam a conversa com seus pacientes, segundo o Dana-Farber Cancer Institute, de Boston.

Nesse cenário, a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2014, recomendou a integração de cuidados paliativos a sistemas nacionais de saúde. No Brasil, com uma visão qualitativa já se desperta na área médica o cuidar voltado para o bem-estar de pacientes considerados terminais, pois a reforma mencionada no referido jornal (para aprimorar a comunicação entre médicos e pacientes e mudar a maneira como são ministrados os cuidados a pessoas que se aproximam da morte) trata-se de iniciativa do Conselho Federal de Medicina (CFM) e os Conselhos Regionais de Medicina (CRMs), com a participação de médicos e suas entidades e de movimentos organizados da sociedade, que iniciaram no primeiro semestre de 2016 o processo de revisão do atual Código de Ética Médica, em vigor desde 13 de abril de 2010. Este Código trouxe importantes inovações como a previsão de cuidados paliativos, o reforço à autonomia do paciente por exemplo, tendo o objetivo principal de aperfeiçoá-lo em função dos mais recentes avanços técnico-científicos ocorridos no âmbito das relações humanas, profissionais e sociais.

Algumas ações já funcionam no sentido de estimular e popularizar a conversa sobre a morte, nas últimas décadas nos EUA tem se divulgado a elaboração de documentos em que as pessoas especificam o tratamento que desejam receber caso fiquem incapacitadas. No Japão, existe à venda “cadernos de anotações terminais” que as pessoas podem adquirir para registrar mensagens e instruções para os familiares sobre seus desejos no fim de vida. Mundialmente existem espaços denominados “cafés mortais, são mais de 4,4 mil” (death cafés), nesses espaços os eventos são organizados com a intenção das pessoas conversarem sobre a morte enquanto tomam uma xícara de chá e comem um pedaço de bolo. No Brasil também existe o documento que se refere às diretivas antecipadas de vontade dos pacientes, elaborado pelo CFM, explícito na resolução nº 1.995/2012.

Nessa reforma percebe-se um movimento de uma prática orientada por um discurso – valorização do humano enquanto sujeito – com foco na qualidade de vida na sua finitude individual e uma mudança de cultura da sociedade. Nos remete, portanto, o “Cuidar”, que nos escritos de Ayres (2003) o cuidar evoca um exercício articulado de sabedoria prática e científica, e é no campo das práticas que nós, humanos, nos reconhecemos sujeitos. A noção de cuidado identifica uma potencialidade reconciliadora entre as práticas assistenciais e a vida, nesse sentido a prática almeja uma conformação humanizada do ato assistencial, distingue-se daqueles que, por razões diversas, não visam essa ampliação e flexibilização normativa (biomédica) na aplicação terapêutica das de saúde.

Referências

AYRES, J. R. C. M. Care and reconstruction in healthcare practices. Interface – Comunic., Saúde, Educ., v.8, n.14, p.73-92, set.2003-fev.2004.

AYRES. J.R.C.M. O cuidado, os modos de ser (do) humano e as práticas de saúde. Saúde soc. [online]. 2004, vol.13, n.3, pp.16-29. ISSN 0104-1290.  http://dx.doi.org/10.1590/S0104-12902004000300003.

AYRES. J.R.C.M. Sujeito, intersubjetividade e práticas de saúde. Ciênc. saúde coletiva [online]. 2001, vol.6, n.1, pp.63-72. ISSN 1413-8123.  http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232001000100005.

Brasil. RESOLUÇÃO nº 1.995/2012. Conselho Federal de Medicina – CFM: Dispõe sobre as diretivas antecipadas de vontade dos pacientes. Disponivel em: portalmedico.org.br/resolucoes/cfm/2012/1995_2012.pdf. Acesso Mai. 2017.

Jornal. Melhorando a Morte. In: The Economist. Disponível em: O Estado de S. Paulo de 02 de Maio de 2017 pg. Metrópole A11:

(*) Vera Lucia Frazão de Sousa é Assistente Social, Mestranda em Gerontologia Social PUC/SP, Especialista em Saúde Pública, com ênfase em Ciências da Saúde e Saúde Coletiva, Especialista em Serviço Social na Saúde HC-FMUSP/SP. É Chefe do Serviço Social do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia – SP e Professora do Centro Universitário Anhanguera Educacional. E-mail: vefrazao@yahoo.com.br

 

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