Pequenos prazeres

Assim como Monet que cultivava suas mudas para crescerem livremente em formas e desenhos na natureza, precisamos semear ao longo dos anos, essa ideia de plantar novos encantos. Diariamente. Encanto por encanto intercalados por suspiros sempre que a vida exigir mais ar. Que assim seja sem pestanejar.

 

Tenho um truque eficaz para ajudar a lembrar de coisas que tenho que fazer e não posso esquecer. Muitas vezes a ajuda está em pequenas atitudes, como por exemplo, mudar a aliança da mão esquerda para a direita. Isso tem colaborado a driblar o esquecimento de muitos afazeres. Ao olhar para minha mão e ver o anel no outro lado, já sei que preciso lembrar-me de algo. Mas o quê? Sempre acabo resolvendo, o que muitas vezes parece um mistério: Por que será que coloquei a aliança no outro dedo?

Esta manhã foi assim ao acordar com o anel na outra mão. Levei mais de uma hora para, finalmente, lembrar que precisava pegar o talão de cheque para levar à consulta médica. Demorou, mas lembrei. Esta estratégia tem me auxiliado muito já que é em meio à confusão do dia-a-dia que penso em algo que devo fazer. Para não esquecer, imediatamente mudo a aliança de mão.

Quinzenalmente participo de um grupo de estudos para discutir a velhice como nova paisagem. A psicóloga Maria Célia de Abreu, escritora do livro “Velhice: Uma Nova Paisagem” conduz a conversa e sempre nos traz uma proposta para reflexão. Esta semana, a lição de casa era anotar ao final de cada dia os pequenos prazeres que deliberadamente introduzimos na nossa rotina (p.162)

Uma proposta singela e profunda já que estamos acostumados a viver nossos dias no “modo automático” e assim engolimos as oportunidades de viver os pequenos deleites.

Desde nosso último encontro, estive mais atenta ao notar que os dias vividos com um olhar carinhoso à nossa própria rotina, nos tira do sufoco de correr de um lado para o outro sem suspirar profundamente. Aliás, tenho me dado oportunidades de suspiros deliciosos que enchem o meu peito de um ar revigorante. Constatei que é suspirando que renovamos nosso viver em uma esperançosa constatação de vida.

Penso em Monet que em minha opinião devia ser um suspirador. Só podia ser afinal alguém que constrói um jardim como o de sua casa em Giverny, repleto de flores e plantas diversas e lago com ponte japonesa, deve ser alguém pré-disposto a suspirar.

Em 1890, Monet resolve comprar a propriedade que antes era alugada por ele. Grande mestre do impressionismo francês morou e pintou nesta casa entre 1883 até sua morte em 1936. A jardinagem para ele era cultivada como um fazer tão prazeroso como a pintura. Nas telas, Monet coloria com o pincel as composições e fazia uso de uma liberdade artística invejável. No jardim ele pintava os espaços através do plantio de mudas e sementes que cresciam e ocupavam os lugares com a mesma liberdade de suas pinceladas. Monet era encantado por aquela natureza e retratou seu jardim em inúmeras telas nos mostrando não apenas seu talento, como todo estudo de luz feito por ele que gostava de retratar o mesmo lugar em diversos momentos do dia.

Penso que Monet não vivia a vida no automático, afinal somente quem olha a vida com atenção aos detalhes prazerosos ao olhar é capaz de pintar como ele pintou.

Meus olhos são felizes e se enchem de lágrimas ao pensar na beleza do lugar e da emoção que um dia pude sentir ao visitar Giverny e o famoso jardim de Monet. É possível sentir-se dentro de suas pinturas. Indescritível a sensação.

A casa e o jardim estão abertos à visitação entre abril e outubro e turistas do mundo todo invadem a propriedade para percorrer todos aqueles espaços retratados pelo artista.

Ao visitar seu atelier, sua cozinha e copa amarela, salas, quartos e todos os cômodos, é possível sentir uma energia cravada por Monet em cada canto da casa.

Esta semana me dei ao luxo de rever algumas fotos e postais do lugar, afinal a lição de casa era se presentear com novas sensações de pequenos prazeres. Ao recordar aquela viagem pude pensar nas velhices tão afoitas por recordações. O tempo, um dia vivido, pode ser um momento de prazer no futuro, mas é imprescindível que seja bem vivido no seu tempo presente.

Resolvi, nesta semana, me dar de presente novos pequenos prazeres como cantar alto no trânsito, alongar o corpo como minhas cachorras, dançar Bolero de Ravel sozinha na sala, rever alguém especial cuja saudades sufocava o coração, entre outras coisas. Esta semana estive mais atenta ao que já faço sem me dar conta do enorme prazer que me causa: Beijar os filhos antes de dormir, passar lavanda após o banho, dividir a vida com a melhor amiga, ler uma poesia e ser feliz sem motivo.

Preciso comprar um anel. E que seja bem bonito, pois, precisarei usá-lo até me tornar uma velha.

O tempo vai passar e ao olhar minha mão seca e enrugada vou ver o tal anel e saber que preciso me lembrar de algo. Algo tão importante que mereceu este anel para me ajudar a não esquecer: É preciso lembrar-se de viver todo dia um novo pequeno prazer.

Assim como Monet que cultivava suas mudas para crescerem livremente em formas e desenhos na natureza, precisamos semear ao longo dos anos, essa ideia de plantar novos encantos. Diariamente. Encanto por encanto intercalados por suspiros sempre que a vida exigir mais ar. Que assim seja sem pestanejar. Não podemos esquecer! Deixo a aliança me lembrar das coisas do dia-a-dia. Para a velhice almejada, que a lição de casa possa ser feita. Sem esquecer. Melhor comprar um anel.

 

Cristiane T. Pomeranz

Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. E-mail: crispomeranz@gmail.com

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