Pela humanização da velhice: Grafite

A necessidade é de humanizar a velhice, pois só desta maneira poderemos entregar aos velhos algo que vai além dos frascos de comprimidos. Imperdoável olhar para a longevidade apenas pela ótica médica. A velhice vai além.

 

“Caso tenha algum desconforto, prescreverei uma receita que irá te ajudar a acalmar as dores.”

Sim! Nossos desejos seriam atendidos enfim!

Todos os olhares estavam voltados a ele: Jovem médico que soube ser atencioso o suficiente para que, ali no pronto socorro, pudéssemos por fim, respirar aliviados. A esperança voltava enfim a gritar.

-Sim! Estamos em suas mãos! A ti entrego minhas dores!

Doutores especialistas que enxergam o detalhe do detalhe do detalhe. Quanta sabedoria! E nós, fragilizados, devotamos todo esse saber médico superior! Acima de tudo e de todos. Queremos ouvi-los e com urgência! Não aguentamos mais sofrer.

Uma senhora no boxe ao lado gemia alto enquanto meu marido urrava de dor das cólicas renais. Consola-me, Castro Alves! Consola-me!

 

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade
Tanto horror perante os céus?

Com as dores de oitenta e poucos anos, pela porta entre aberta eu bisbilhotava o que acontecia com aquela velhice. E ali estava ela, entregue ao poder médico capaz de postergar o fim, camuflar dores e renovar esperanças.

Ó mar, por que não apagas
De teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

Uma vida sem dor e uma velhice medicada parece ser tudo o que desejamos.

Velhos não querem sofrer e muito menos morrer. Querem a vida rotulada em frascos de comprimidos que garantem o fim do desconforto. Querem o viver encontrado na farmácia do bairro.

Olhando tudo a minha volta, questionava a velhice possível de ser vivida fora dos vidros de remédios.

Penso na urgência de humanizar a velhice. Nos hospitais, passou a ser de bom tom a palavra humanização. O mesmo deveria acontecer aos velhos que vivem a completa medicalização desta fase da vida. Faz-se hora de mudar olhares e quebrar paradigmas. A velhice é muito mais do que aquilo que o saber médico consegue definir.

Nos hospitais, a humanização hospitalar restringe-se, muitas vezes, a atitudes tímidas demais para surtirem efeitos em seus pacientes. Mas um movimento passou a ser feito e isso já é um começo, mesmo que pequeno.

A necessidade é de humanizar a velhice. Necessidade imediata, pois só desta maneira poderemos entregar aos velhos algo que vai além dos frascos de comprimidos. Imperdoável olhar para a longevidade apenas pela ótica médica. A velhice vai além.

A Arte é uma reposta àquilo que entendemos como dignidade para os velhos que sonham em aprender as maneiras de lidar com os desconfortos do longeviver.

E se é para ser Arte que seja Arte Moderna! Atual! Afinal nada é mais contemporâneo do que ser velho.

Recentemente, ao pensar em propostas impactantes para os idosos do Polo Cultural, Centro de Convivência para os idosos da Prefeitura de São Paulo, durante a Virada da Maturidade, arrisquei a sugestão de uma oficina de grafite que ia ao encontro dos desejos dos antigos frequentadores.

A prefeitura, que muito deseja revitalizar o Polo, apoiou a proposta e disponibilizou todo o material.

As artistas Carla Ruiz e Mônica Ancapi que assinam seus trabalhos como Carlota e Santa Mônica entraram com o talento e generosidade, oferecendo aos idosos do Polo Cultural a oportunidade de entrar em contato com uma Arte urbana que tem ganhado, a cada dia, as paredes internas como extensão.

As artistas, profissionais competentes ao ensinar esse tipo de expressão aos interessados parceiros do lugar, coloriram a várias mãos, a parede principal do local.

Com máscaras que os protegiam do cheiro e do spray, a alegria passou a ser material principal para a execução da tarefa.

As cores e as formas pareciam modificar não apenas a parede. Os sorrisos estampados nos rostos enrugados assinavam a ação.

A velhice, naquele instante, pode ser humanizada e as dores e desconfortos de vidas diversas puderam ser amenizados. Comprimidos foram substituídos por latas de spray, pincéis e tintas látex. Técnicas diversas foram apresentadas pelas artistas extremamente capacitadas para a atividade. O afeto, se percebia, era a matéria-prima das grafiteiras. O Olhar do detalhe, do detalhe e do detalhe foi dirigido a cada idoso como um todo. A Arte emociona ao dar a cada velho a chance de deixar sua marca em um local comunitário.

Ao inseri-los na Arte do Grafite o recado fica dado: O tempo do velho é o agora! O Tempo do velho é o hoje!

A intenção de revitalizar a velhice foi feita ali no Polo.

Que a humanização possa continuar. Que as atividades do Polo possam constatar a importância de expandir os serviços públicos que possam favorecer todo tipo de velhice. São muitas velhices carentes de ações sociais e culturais. Um primeiro passo foi dado para a construção de um caminho mais humano e acolhedor. Seguimos em frente!

Ainda no pronto-socorro, as dores existenciais misturavam-se com as dores físicas. A desilusão era também medicada. Os remédios agiam e as dores acalmavam.

A velhice estava ali, em forma de soro, injetável e com a veia puncionada para curar cada pequena parte. A velha ao lado, aos poucos, voltava a apoderar-se da sua velhice encapsulada.

Consola-me Castro Alves! Consola-me! Consola-me com seu Navio Negreiro, poema em forma de oração que retrata a situação dos negros que espelha e reflete em cada velho. Oremos pelas Velhices! Oremos pelos velhos! Oremos para que atitudes sejam feitas para libertar os velhos dos frascos de comprimidos! No Polo Cultural, a tampa de cada frasco já foi aberta! Liberta-nos, Castro Alves! Liberta-nos! Que a Arte possa curar o todo, afinal a velhice é muito maior do que uma pequena parte.

São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus…
São os guerreiros ousados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão…

Serviço
Para conhecer o trabalho das artistas e agendar atividades de grafites para idosos acesse:
www.facebook.com/acarlota.art
http://instagram.com/a_carlota_art
acarlota.art@gmail.com
https://www.facebook.com/Santa-Monica-Monica-A-Ancapi-494720287241986/
http://instagram.com/monica.a.ancapi/
monica.a.ancapi@gmail.com
 
Para ouvir Navio Negreiro , emocionante poema de Castro Alves, na voz de Caetano Veloso e Bethânia, acesse: https://www.youtube.com/watch?v=9v1hZE8fbDM
 

Polo Cultural

O Polo Cultural da Terceira Idade José Lewgoy (Polo Cultural do Cambuci) foi criado em 2000. O espaço atende cerca de 450 pessoas a partir dos 50 anos e oferece oficinas gratuitas.
Rua Teixeira Mendes 262, Cambuci, São Paulo-SP. Fones 11- 3207-9687 e 3207-9713

Fotos: Cristiane T. Pomeranz

 

Cristiane T. Pomeranz

Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. E-mail: crispomeranz@gmail.com

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