Pedra no céu: concreta é a velhice

Que a velhice do arquiteto Paulo Mendes da Rocha, 88 anos, seja impactante através de seu trajeto de vida e que possa nos ajudar a traçar percepções de caminhos aparentes e concretos de um viver absoluto. Viver é um constante caminhar. Envelhecer é fato, assim como o olhar que dedicamos ao caminho. A maneira de caminhar, ali no futuro, fará toda diferença no viver a velhice. A Pedra no céu está suspensa e só nos resta sustentá-la fortalecendo o horizonte com sonhos e desejos de uma plena e absoluta existência.

 

Pedra no Céu é o nome da exposição de Arte e Arquitetura de Paulo Mendes da Rocha que estará em cartaz até 2 de julho no Museu Brasileiro da Escultura, o MuBE, na cidade de São Paulo. Com curadoria de Cauê Alves e Guilherme Wisnik, a exposição traça um paralelo entre a arte e a arquitetura de Paulo Mendes da Rocha, autor do projeto do MuBE. Aos 88 anos, Paulo Mendes da Rocha é um exemplo de velhice como resultado de uma construção de um caminhar interessante, envolto em Arte e Estética.

A Exposição fala de Arquitetura e de Arte e expõe além de trabalhos referentes ao arquiteto, obras de Arte que dialogam com a poética de Paulo Mendes da Rocha. O visitante é convidado a entrar no Museu através de um doce convite de Laura Vinci que o envolverá em uma névoa de vapor, através de sua obra. A sensação é de ver a marquise, marca registrada do museu, elevada ao céu. O vão de 60x12m parece flutuar e o concreto, então, passa a ser a Pedra no Céu que o arquiteto se referiu ao projetar o museu.

Mas aos olhos de nós, profissionais envolvidos com o envelhecimento, a obra de Laura Vinci assemelha-se às névoas de memórias e registros que marcam a existência dos velhos e velhas que vivem o tempo presente com a doce nostalgia de um passado que vaporiza a própria velhice.

E o que seria de Dona Helena se não fosse a névoa que a acompanha e lhe entrega como flor o passado construído entre as costuras e bordados dos vestidos feitos de sonhos e entregues às noivas no dia do casamento? Helena era costureira e traz para sua velhice, envolta na bruma do esquecimento, o garoar daquilo que a constitui.

A exposição vale a visita, mas de preferência traga consigo uma sensibilidade aguçada que o fará perceber muito mais do que a obra exposta.

A obra de Paulo Mendes da Rocha dialoga com o concretismo das formas de Almicar de Castro que, a meu ver, conversa profundamente com a velhice. Através do tempo que passa a galope numa vida com desejos de existência, Amilcar faz da ferrugem parte importante da sua estética e nos diz que disfarçar a ação da vida, nem sempre é garantia de beleza. A ferrugem, na sua obra é bela assim como as rugas que nos contam histórias e dores de um corpo que segue o trilhar da vida e faz do envelhecer uma parte do caminho.

Idosos que participam do programa Faça Memórias, cuja obra de Arte exposta serve de estímulo de cognição, puderam conversar sobre a sensação do corpo presente na velhice, através da obra de Amilcar de Castro. Uma dor aqui, outra ali, um corpo que sente o tempo, mas que não tira a qualidade de sorrir da senhora que semanalmente visita o museu para participar do projeto. Aos 89 anos ela se mantém socialmente ativa participando das atividades que acontecem no MuBE.

A visita continua pela exposição que traz Henri Moore, Franz Post, Amélia Toledo, Carmela Gross, Carlito Carvalhosa, Nuno Ramos, René Magritte com sua pedra no céu que serviu de inspiração ao arquiteto, entre outros. Passeando pelo espaço, pude vislumbrar caminhos de vida traçados pelas mãos de quem mostra na ousadia de pensamento a maior qualidade de um viver relevante e a curadoria soube nos mostrar isso.

As obras de Doris Salcedo também chamam a atenção para nós da Gerontologia que entendemos a velhice por meio de um saber múltiplo e heterogêneo. Velhices e velhices com suas diferenças e peculiaridades, mas em comum um guardar afetivo que sobrevive ao tempo e ao envelhecimento.

A artista nos mostra um móvel de madeira, talvez uma cômoda, que guarda o concreto como maior preciosidade. Desta forma ela dialoga com Paulo Mendes da Rocha que fez deste material a marca de sua estética. Penso nas relações afetuosas vividas como o bem mais importante para quem caminha pela velhice. Os nossos afetos são como o concreto para o arquiteto e devem ficar guardados no móvel mais importante da nossa memória. Aliás, alguém assim como eu que convive com o esquecimento de algumas velhices, poderá perceber o quão superior é o afeto à patologia.

Seguimos pela exposição. A velhice, de uma forma ou de outra, está ali retratada sutilmente, nas entrelinhas da modernidade do arquiteto.

Paulo Mendes da Rocha e sua Pedra no céu fazem da Arte e da Arquitetura uma razão incontestável para se visitar o MuBE. Aos 88 anos, que a velhice do arquiteto seja impactante através de seu trajeto de vida e que possa nos ajudar a traçar percepções de caminhos aparentes e concretos de um viver absoluto. Viver é um constante caminhar. Envelhecer é fato, assim como o olhar que dedicamos ao caminho. A maneira de caminhar, ali no futuro, fará toda diferença no viver a velhice. A Pedra no céu está suspensa e só nos resta sustentá-la fortalecendo o horizonte com sonhos e desejos de uma plena e absoluta existência.

Serviço

Pedra no Céu: Arte e Arquitetura de Paulo Mendes da Rocha

Horário: das 10h às 18h, de terça-feira a domingo.

Até 2 de julho / Entrada Franca

Av. Europa 218, entrada pela Rua Alemanha 221

Jardim Europa / SP-SP

www.mube.art.br

 

Fotos: Cristiane Pomeranz

Cristiane T. Pomeranz

Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. E-mail: crispomeranz@gmail.com

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