Os preparativos da “Grande Viagem”

“O que a gente faz enquanto ‘Ela’ não vem?” Então, vivemos, simples assim! A nossa realidade é expressa por uma inevitável consciência de finitude com um tempo trabalhando sempre implacável e, diante disto, esqueça, não é possível pedir mais tempo, ninguém segue o “caminho” antes da hora.

 

A morte não é nada para nós, pois, quando existimos, não existe a morte, e quando existe a morte, não existimos mais. (Epicuro)

“Morte”, curta-metragem de Roberto Torero (2002), conta a história de um casal, interpretado pelos atores Paulo José e Laura Cardoso, que se prepara para a “grande viagem”. Eles planejam os mínimos detalhes que antecedem o “momento”: a escolha da lápide no cemitério, as flores, os caixões, a música do velório, a divisão e organização dos bens e até o ensaio de como seus amigos vão se comportar no momento de uma suposta dor da perda.

O curta está dividido em fragmentos, que relacionam tempo e espaço. Não temos, exatamente,

noção de quanto tempo passou entre início e fim, pois as cenas se concentram mais no seu próprio tema, que são os preparativos para o velório: a cada cena, um preparativo. Porém o mais difícil para o casal parece ser a espera de a própria morte chegar.

Receberemos algo como uma espécie de aviso prévio? Trinta dias antes será o disparo do derradeiro alerta? Sinto dizer que não, todos os momentos da vida, em todas as fases – infância, adolescência, maturidade, envelhecimento – podem representar, quem sabe, os últimos.

No diálogo final, a angústia da espera e a difícil constatação da finitude:

– Ela: Será que vai demorar muito?

– Ele: Não sei.

– Ela: Você está com medo? [Eles se olham, apreensivos.]

– Ele: Um pouco.

– Ela: Essa espera é que dá agonia.

– Ele: Tem que ter paciência, um dia “ela” chega.

– Ela: O que a gente faz enquanto ela não vem?

– Ele: Esse é o problema.

“O que a gente faz enquanto ‘Ela’ não vem?”

Então, vivemos, simples assim! A nossa realidade é expressa por uma inevitável consciência de finitude com um tempo trabalhando sempre implacável e, diante disto, esqueça, não é possível pedir mais tempo, ninguém segue o “caminho” antes da hora.

Como afirma Goldfarb (1998, p. 62): “A idade cronológica segue seu curso, sem piedade, real e absoluta lutando a cada instante com o tempo vivido que avança independente dos desejos e objetivos alcançados no decorrer do caminho”.

Estamos preparados para discutir, refletir sobre a morte, a perda, ou a “despedida definitiva” da vida com crianças, jovens, adultos, idosos?

Esse é um exercício de um tipo de pensar diferente, de romper barreiras e abrir possibilidades, admitindo a dificuldade e o desafio da coexistência contraditória entre vida e morte. Transformar o pensamento é uma exigência para compreendermos o mundo na sua complexidade.

“A humanidade da humanidade” decorre da abertura ao mundo, como expõe Morin (2005, p. 40): “O espírito humano se abre ao mundo. A abertura ao mundo revela-se pela curiosidade, pelo questionamento, pela exploração, pela investigação, pela paixão de conhecer. Manifesta-se pela estética, pela emoção, pela sensibilidade, pelo encantamento diante do nascer […]”.

Referências

GOLDFARB, D.G. Corpo, tempo e envelhecimento. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1998.

MORIN, E. O Método 5: a humanidade da humanidade. 3ª edição. Porto Alegre: Sulina, 2005.

Para assistirhttps://www.youtube.com/watch?v=zLAhyAS7eus

 

 

 

Luciana Helena Mussi

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

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