Os extremos da longevidade

Por que as pessoas, ou pelo menos, a maior parte delas, pensam nas fases da vida em termos de vantagens e desvantagens? Parece condição obrigatória relacionar a infância e a juventude à recuerdos agradáveis e a fase adulta a desafios e conquistas. Tudo bem padronizado, respeitando as normas e regras impostas por um “social” que nos atinge e afeta em cada pedaço de nós mesmos.

Luciana H. Mussi *

 

A matéria do jornalista Nelson Motta “Idoso profissional” (publicada no Estadão), remete à força dessas representações sociais produzidas na vida cotidiana. E o que seria isso? Para o psicólogo Serge Moscovici, “As representações sociais são entidades quase tangíveis; circulam, se cruzam e se cristalizam continuamente através da fala, do gesto, do encontro no universo cotidiano. A maioria das relações sociais efetuadas, objetos produzidos e consumidos, comunicações trocadas estão impregnadas delas” (2012: 39).

Para entendermos o impacto desse fenômeno, basta ler a primeira frase do texto de Motta: “Quando completei 60 anos e passei a desfrutar dos privilégios reservados aos idosos em filas de aeroportos e bancos, me consolei pensando que a velhice poderia ter algumas vantagens. Mas não é bem assim. Uma fila com três idosos num balcão de aeroporto pode levar mais tempo do que uma de 12 não idosos ao lado, porque os velhinhos demoram muito, adoram conversar com as atendentes. No banco, é pior ainda, com senhas esquecidas e extratos extraviados”.

Ele continua, agora denunciando as mazelas do volume de anos acumulados: “É claro que envelhecer não é agradável, mas já foi muito pior, nem faz tanto tempo assim, quando a expectativa de vida era de 50 anos e não havia antibióticos. O chato é que, quanto maior a experiência, o aprendizado com os erros, as vivências e informações acumuladas, menor o tempo para usá-las”.

Sorrateiramente, o jornalista associa velhice/aprendizado com lamentos por um tempo que diminui dia a dia e finalmente a chegada inevitável do derradeiro e temido fim.

Como a linguagem, essa que usamos e abusamos, é poderosa! De fato, a palavra registra, marca e se faz presente no constante movimento das representações sociais compreendidas como um processo dinâmico, no qual indivíduo e sociedade se mesclam, numa relação simbiótica e social.

Convivemos com o bom e o ruim, ou seja, enfrentamos os extremos do progresso científico e da prosperidade econômica, culminando no aumento da expectativa de vida. Motta diz: “Viver mais é uma ótima notícia, mas, se for para viver mal, sem saúde, segurança e conforto, é péssima. Como pagar aposentadorias dignas a milhões de trabalhadores, sem quebrar a Previdência? Como abrigar e cuidar dessas multidões de novos velhos pobres? Os indiferentes de hoje são os idosos de amanhã, se chegarem lá”.

Sejam afirmações, perguntas ou hipóteses, assim as relações e os conceitos são construídos. Chamamos mais uma vez Moscovici, que explica: “A ciência era antes baseada no senso comum e fazia o senso comum menos comum; mas agora senso comum é a ciência tornada comum” (2010: 60).

Sim, hoje se produz ciência na indignação, nos protestos, nas denúncias (reais ou não) que circulam pela internet afora. Poderíamos dar inúmeros exemplos, mas destacamos uma “consequência” de algo, um projeto que, antes, se imaginava satisfatório para a população carente e que hoje já tem seu uso para fins um tanto duvidosos, como Motta aponta: “Brasil tem bolsa para todo mundo, até as famílias dos presos recebem a bolsa-bandido, de R$ 860 mensais, certamente mais do que grande parte dos idosos brasileiros, que trabalharam a vida inteira, sobreviveram a planos econômicos desastrosos, roubalheiras incomensuráveis e incompetência dos seus governantes. Muitos presidiários vivem bem melhor do que idosos pobres, presos em casa e em asilos”.

O caminho que um texto toma é mesmo interessante, parece ter vida própria. Motta começa com seus julgamentos pessoais sobre o envelhecer, passa pela política e as costumeiras palavras de revolta e termina na sabedoria dos velhos – muito mal aproveitada pela sociedade em geral – quando traz o oriente para finalizar seu pensamento: “Civilizações mais antigas, e por isso mais sábias e experientes, como a China e o Japão, valorizam, respeitam e preservam seus velhos justamente por sua experiência e sabedoria. Eles são valiosos, o Estado investiu muito dinheiro neles, em sua educação, saúde e formação profissional, e o pior dos desperdícios é esquecer que eles existem”.

Não só o Estado, mas todos nós investimos numa vida, nas vidas que se relacionam e irão se relacionar por muitos anos. Como, então, sobreviver nessa teia complexa e repleta de surpresas?

Respostas, inquietações

Estamos diante de uma realidade, um dado: somos sete bilhões de habitantes na Terra e em cinco anos haverá mais sexagenários que crianças, uma situação sem precedentes na história da humanidade. Os alarmes dispararam e a população se pergunta se o planeta está preparado para resistir a esta situação.

Julio Pérez, pesquisador e cientista demógrafo do Conselho Superior de Pesquisas Científicas (CSIC) da Espanha responde: “O planeta não está preparado, somos nós que temos que prepará-lo para as circunstâncias para enfrentar o futuro. E os meios são muitos, nunca houve tantos como agora”.

Mas como faremos isso? Qual o impacto financeiro desse envelhecimento acelerado? As repostas giram em torno da educação e da ciência.

Governos, corporações e indivíduos em todo o mundo estão sentindo a pressão financeira do envelhecimento da população. É o que aponta o novo relatório “Enfrentar o desafio do envelhecimento global – Questões de financiamento e soluções de seguros”, da instituição Geneva Association.

O material analisa as implicações da mudança demográfica mundial para os governos, empregadores e financiadores individuais de aposentadoria. O relatório sugere que as soluções de seguros sejam parte fundamental da resposta global para ajudar as pessoas a conseguir uma aposentadoria segura.

Nikolaus von Bomhard, presidente da Geneva Association e presidente do Conselho de Administração da Munich Re explica: “O envelhecimento global tem implicações significativas para o financiamento da aposentadoria por governos e empregadores. O mercado de seguros, através de sua expertise em subscrição e gestão de riscos de longevidade, oferece soluções abrangentes para lidar com esses riscos e uma contribuição significativa para a segurança de velhice”.

John Strangfeld, chairman e CEO da Prudential Financial e vice-presidente da Geneva Association complementa: “Hoje, mais do que nunca, as pessoas em todo o mundo precisam de ajuda para conseguir uma aposentadoria segura. Enfrentar o impacto do rápido envelhecimento da população mundial requer uma solução global, baseada em ampla resposta dos setores público e privado. A indústria de seguros, com sua gestão de risco e experiência de investimento, é particularmente adequada para desempenhar um papel fundamental no atendimento à mudança nas necessidades de envelhecimento da população”.

Possibilidades – governos

Os governos enfrentam uma série de opções politicamente aceitáveis para financiar as responsabilidades de aposentadoria, incluindo: a) o aumento da idade de aposentadoria pelo Estado, b) a redução dos benefícios de pensão e c) o aumento das contribuições de pensões e impostos.

Fornecendo um quadro institucional mais propício para a participação do setor privado, tais como: imposto de renda de aposentadoria favorecidos e poupança para veículos.

Os governos podem aliviar um pouco a pressão sobre o sistema estatal e assegurar que os indivíduos podem esperar um futuro mais certo. Opções em aberto: a) elaboração de legislação, b) oferta de incentivos para trabalho em tempo parcial para além da idade oficial de aposentadoria – o chamado “quarto pilar”, c) aumentando a participação da força de trabalho, d) incentivando maiores taxas de fertilidade e e) facilitando a imigração.

Entre as possibilidades – empregadores e indivíduos – destacam-se: a) os indivíduos devem ser mais pró-ativos em face da crescente vulnerabilidade de seu planejamento de renda para a velhice, b) soluções de seguros fornecem uma série de oportunidades como anuidades fixas ou variáveis e seguros de aposentadoria de renda, e c ) os indivíduos devem considerar também a oportunidade de trabalhar por mais tempo, reduzindo a carga por conta própria e fundos de aposentadoria estatais.

Patrick M. Liedtke, secretário-geral e diretor da Geneva Association, diz: “Não há bala de prata para resolver nossos problemas de seguridade na velhice. É preciso que os governos comprometam-se a promover uma ampla reforma, que a indústria privada repense as políticas de empregos, que as seguradoras projetem novos e melhores produtos e que os funcionários enfrentem proativamente sua situação futura”.

Ele acrescenta: “Tendo a experiência necessária na gestão de longevidade e no risco de investimento, juntamente com um quadro regulamentar que exige a manutenção de reservas de capital adequadas para atender às obrigações de longo prazo, as companhias de seguros têm um papel importante a desempenhar como parte da solução para estes desafios – isso não é sempre reconhecido”.

Enquanto isso…

Num Brasil em pleno ano de eleições, vemos mais uma matéria sobre políticos, no caso, o candidato do PRB à Prefeitura de São Paulo, Celso Russomanno, participando de mais um, entre tantos comícios. Como conta a matéria, com um atraso de 1h30 para a festa, Russomanno tentou se redimir fazendo a alegria das senhoras, ditas fãs de seu quadro “Patrulha do Consumidor”, transmitido pela Rede Record.

Cercado pelas centenas de idosos presentes na quadra, o ex-deputado foi arrastado para pequenas rodas de dança, ao som de forrós e músicas de Elvis Presley. Ele também dançou a música Dança Kuduro, tema da novela Avenida Brasil, da Rede Globo.

Com promessas de prestigiar os idosos em seu governo, Russomanno prometeu transformar escolas em locais para bailes da terceira idade aos finais de semana. “A terceira idade vai ser prestigiada no governo todo. Vamos transformar todas as escolas, aos finais de semana, em bailes para a terceira idade. Hoje falta espaço para as coisas acontecerem”, comentou, em crítica à administração atual.

Uma pergunta que não quer calar: será que a necessidade é, realmente, de mais locais para bailes e afins? Por que será que muitos políticos, executivos, profissionais, entre outros, ainda pensam que o que os idosos precisam é de bbb, isto é, baile, bolo e bingo????

Num cenário mundial longevo, tão delicado e difícil, talvez todos (especialmente os políticos em campanha) devêssemos nos ater a questões mais profundas e pertinentes ao envelhecimento e velhices de hoje e do amanhã.

Referências

EFE (2012). População mundial mais velha gera novos desafios para humanidade. Disponível Aqui. Acesso em 21/05/2012.

ESTADAO (2012). Russomanno se diz feliz com apoio de aliados de Alckmin. Disponível Aqui. Acesso em 28/07/2012.

MOSCOVICI, S. (2010). Representações Sociais: investigações em psicologia social. Rio de Janeiro/Petrópolis: Vozes.

MOTTA, N. (2012). Idoso profissional. Disponível Aqui. Acesso em 27/07/2012.

NIERO, J. (2012). Sociedade global já sente a pressão financeira do envelhecimento da população. Disponível Aqui. Acesso em 16/06/2012.

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