O velho e o novo

Velhice não é doença. Velhice não é solidão. Velhice não é sofrimento! Velhice é, sim, aquilo que quisermos desde que saibamos viver com tudo o que nos for apresentado com ela! Atitudes cubistas!  A Velhice poderá, por fim, ser reinventada, desde que possamos olhar essa fase da vida por outros ângulos. Que esta geração que está mudando o mundo possa, finalmente, mudar a cara da velhice!

 

O domingo era de sol e a praia logo ao lado era convidativa para um nada fazer. Mesmo com o céu azul, um grande número de pessoas optou pela sala fechada e artificialmente gelada, apenas para ouvir a palestra do publicitário Walter Longo. Sua fala é conhecida pelos profissionais de marketing e empresários que fazem do encontro com o presidente do grupo Abril, um interessante convite para refletir sobre a comunicação e o mercado.

Em sua palestra, o mundo atual foi apresentado por ele de maneira provocativa. A geração millennial era descrita com ênfase nas diferenças das gerações anteriores. Também chamados de geração do Milênio ou da Internet, são aqueles que nasceram com a tecnologia avançada, e que são conectados, multitarefas, viciados em mídias sociais e empreendedores. Esses jovens querem mudar o mundo e acredito que capacidade não falta a essa turma que nasceu entre 1980 e meados dos anos 90.

Eu, enquanto esfregava as mãos nos braços numa tentativa de aquecer o corpo gelado e quase mórbido tamanho frio vindo do aparelho que insistia em simular o Polo Norte, pensava na velhice como o evento mais atual da modernidade. Aposto nesta geração para mudar os paradigmas que distorcem a condição de ser velho.

Os millennials prezam a liberdade. Viram seus pais sacrificarem a vida pessoal para obter reconhecimento profissional e questionam essa conduta. Aliás, esta geração tudo questiona e é isso que os tornam famintos por novas maneiras de pensar. Suíte no Ritz e joias da Chanel não interessam a eles, como diz certa canção (Je veux). Sejam bem-vindos a essa nova realidade!

Abram-se para o novo, dizia o palestrante a um público que torce o nariz para essa garotada que exige novas regras no trabalho, nos relacionamentos e despreza hierarquia. Também chamados de geração Y, esses jovens reivindicam o direito de ser livre, de consumir menos e dizer não para tudo que pareça ser sacrifício.

Vivemos em um mundo cheio de tentativas de robotizar vidas e padronizar o mundo. A geração millennials não tolera padrão e eu questiono: Será que saberão, finalmente, perceber que a sociedade, medicalizada, padroniza a própria velhice? Justamente a fase da vida mais cheia de diversidade, como pode ser a velhice tão unificada? Walter Longo expunha as tentativas feitas pelas redes sociais, através dos algoritmos criados para padronizar nossos gostos e até nossos desejos. Os mesmos conteúdos nos são apresentados, impedindo de expandir nossa maneira de existir e de pensar. Perigoso viver em um mundo bolha com pessoas iguais e com os mesmos interesses. A velhice, neste universo, faz parte de um colapso que nos é entregue ao fim do percurso e, por favor, não ouse duvidar disso! Precisamos fazer parte do mundo que cultiva a juventude e a beleza do corpo jovem! Todo resto é resto.

Abram-se para o velho, pensava eu! Parem de rotular a velhice! Não deixem os conceitos massificados nos impedir de viver algo tão moderno!

Como fica nosso olhar para o divergente nesta situação?

Estamos acostumados a receber as informações mastigadas e apenas se conseguirmos ser curiosos poderemos escapar desta cruel tentativa de padronizar gostos e interesses.

E, nós, navegantes deste info mar, aprendemos a dançar a música que nos tocam e não a música que escolhemos. Cuidado!

Se não lutarmos pelo novo não poderemos saber que ali na França existe uma garota chamada Zaz que canta lindamente com um timbre de voz delicioso de ouvir.

Se não pensarmos na velhice como uma maneira outra de viver a vida, não poderemos entender que talvez esse seja o momento de sermos quem sempre desejamos ser.

Oras! Sejamos curiosos! Sejamos criativos! A fuga deste padrão de vida prontinho que nos apresentam, é a solução!

Uma vida eternamente jovem seria entediante, já que os padrões de beleza não poderia jamais evoluir para um saber que finalmente dá um senso à existência durante a velhice.

Atenta a fala do Walter Longo, pensava apenas no meu desejo de que uma curiosidade coletiva pudesse despertar o olhar para os longevos em uma sociedade que foi lobotomizada para aceitar apenas os padrões de juventude como beleza.

Na arte, curiosos revolucionaram padrões estéticos e fizeram história. E nós? Qual mudança faremos a favor das velhices?

Picasso nos mostrou com o Cubismo (1907-1914) a estranha beleza de ver uma mesma figura por diversas faces. A representação do mundo não obedecia mais a realidade e a estética ganhava outra maneira de representar o belo.

O cubismo rompe com o passado e cria uma nova forma de pensar a arte.

Portanto, nem tudo está perdido! A Velhice poderá, por fim, ser reinventada, desde que possamos olhar essa fase da vida por outros ângulos. Curiosamente, durante a abertura da III Virada da Maturidade, evento que acontece em São Paulo e que protagoniza o idoso, a fonoaudióloga e gerontóloga Sandra Gomes da coordenadoria do Idoso da prefeitura de São Paulo referiu-se poeticamente a palavra “Virada” com essa urgência de perceber a velhice sob novos ângulos. Em sua fala pudemos perceber a sensibilidade que o tema exige para que barreiras possam ser rompidas. Velhice não é doença. Velhice não é solidão. Velhice não é sofrimento! Velhice é sim, aquilo que quisermos desde que saibamos viver com tudo o que nos for apresentado com ela! Atitudes cubistas! Talvez esta seja a solução.

Logo, melhor dizendo, a velhice será aquilo que ao longo da vida, construirmos. Millennials! Sejam os velhos da verdadeira velhice! Levem para a idade avançada toda mudança que vocês se dispuseram viver.

Sejamos curiosos! O suficiente para ao longo do caminho explorar o que é certo como nossa futura condição.

Portanto, sejamos velhos desde agora! Velhos atuais! Sejamos os velhos contemporâneos que fazem da vida um eterno experimento. Fujam da velhice padronizada e continuem gritando pela liberdade de ser velho! Entre rugas e algumas dores, um dia por vez! Visto, sempre, por um novo ângulo. Que esta geração que está mudando o mundo possa, finalmente, mudar a cara da velhice!

Ao final da palestra, por fim, o sol pode voltar a me aquecer.

Já em casa, ao olhar para meus filhos, todos millennials, questionei a velhice que eles construíam para si.

Uma pontada de esperança invadiu meu coração e ouvindo Zaz pude cantar que apenas o amor, a alegria e o bom humor me interessam, afinal, o que faria com uma limusine? Joias da Chanel? Rumo ao envelhecer seguimos em frente com o olhar virado para a realidade, Talvez assim possamos aprender a tomar posse da própria vida. No mais, todo resto é resto.

Imagem de destaque: Yulia Brodskaya

Cristiane T. Pomeranz

Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. E-mail: crispomeranz@gmail.com

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