O Silêncio do Criador – I

Por definição, como ressaltou Ann Druyan, um Criador imortal é um Deus cruel, porque Ele, por jamais ter que enfrentar o medo da morte, cria inúmeras criaturas que precisam enfrentá-lo. Por que Ele faria isso? Se Ele é onisciente, poderia ser mais bonzinho e criar imortais, a salvo do perigo da morte. 

 

Somos velhos porque o tempo é implacável, nos transforma, mas não no sentido de sermos vítimas de um concreto passar dos anos maldito. Envelhecer é da vida, é parte e não fim. Como diz Concone (2007, p. 21) em ‘Medo de envelhecer ou de parecer?’: “A morte aterroriza-nos e a passagem dos anos aproxima-nos dela. Parafraseando Marx, estamos habituados a pensar (ou teorizar) sobre a ‘morte em si’, dificilmente sobre a morte ‘para si’. Negar o idoso de carne e osso seria negar a finitude”.

Não há como escapar do fim – esse, de fato, é um case sem solução – entretanto, penso que o conhecimento das coisas pode, justamente, estar no enigma, no silêncio provocativo de Deus. Provocativo porque obriga o homem a olhar para dentro de si e buscar respostas, que não estão fora, mas bem guardadas num processo de vida que inclui constantes transformações.

Caminhamos na direção da morte, centímetros de uma régua dos anos que diminuem a cada dia e nisto, ironicamente, reside um sopro, um desejo alucinante de vida. Como eternos pecadores, não compreendemos, ansiamos por respostas prontas, conhecimento do que não nos é permitido saber – o enigma que se esconde na alma.

E se nesta alma reside Deus, quem pode saber? Qual a certeza? Quando bato, levemente em sua “porta”, ninguém atende. Seria Ele um grande inacessível?

Grün e Müller (2010, p. 18), citando Jung, afirmam que a alma é uma instância curadora que opera em nós silenciosamente, é “força movente, força vital”. Ela assume a direção de nossa vida quando falha o nosso eu consciente. Ela constitui uma referência para nosso mundo religioso.

Ainda, segundo os autores, Jung em sua compreensão da alma, recorre sempre a representações mitológicas e religiosas. No capítulo “Introdução à problemática da psicologia religiosa da alquimia”, ele lembra: “Assim como o olho corresponde ao sol, a alma corresponde a Deus. E, pelo fato de nossa consciência não ser capaz de aprender a alma, é ridículo falar acerca da mesma em tom condescendente ou depreciativo. O próprio cristão que tem fé não conhece os caminhos secretos de Deus e deve permitir que este decida se quer agir sobre ele a partir de fora, ou, interiormente, através da alma” (2010, p. 20).

Há muitas maneiras de lidar com o fato de que todas as vidas, incluindo a nossa e daqueles que amamos, têm um fim. O fim da vida humana que chamamos de morte pode ser interpretado pela ideia de outra vida no reino de Hades, Deus do mundo inferior e dos mortos, pela mitologia grega ou segundo a mitologia nórdica, no Valhalla, local onde os guerreiros vikings eram recebidos após terem morrido, com honra, em batalha. Nós, seres humanos, enfrentamos nossa própria finitude, tocados pelos conceitos de Inferno ou Paraíso que vieram dos antigos, conceitos estes que viajaram através dos tempos e formam, atualmente, nossa ideia de fim.

Outra possibilidade seria assumir a crença inabalável em nossa própria imortalidade, “os outros podem morrer, eu não”. A questão é: somos impotentes diante da mortalidade e morremos em qualquer fase da nossa breve – se sorte ou azar, você decide – ou longa vida.

Pessini (2009) alerta que a morte sempre nos visita, mansamente, espreita pela vida, desde cedo, talvez desde sempre. Ela se apresenta através das perdas de nossos entes queridos, e porque não dizer de todas as transformações sofridas, mortes subjetivas de partes de todos nós, “perdas” que nos obrigam a refletir sobre o conceito de finitude.

Monteiro (2006, p. 43, 44) explica que “somos fadados a escolher sempre” e diante disto reside o derradeiro confronto com nossa finitude. E acrescenta: “Somos seres de passagem. A consciência da finitude e da morte são realidades estruturais presentes no processo de individuação ou da constituição de si mesmo. A alma, paradoxalmente, parece ter entre suas metas a morte e a continuidade da vida. Portanto, para a alma, a morte está presente como fiel escudeira”.

O cineasta sueco Ingmar Bergman mostra que, mesmo na iminência do fim, dolorosamente próximo, ainda existe espaço para a celebração da vida. Em ‘O Sétimo Selo’, na última refeição que antecede o “encontro fatal”, uma cena lembra Cristo e seus apóstolos: no lugar do pão, os morangos; no lugar do vinho, o leite; na vida de Cristo, um traidor; entre os personagens, a Morte.

Como bem disse Bergman, nada é mesquinho em ‘O Sétimo Selo’. O protagonista – o bravo cavaleiro que retorna das Cruzadas – Antonius Block, que bem poderia ser eu ou você, chora a dor da despedida e confessa para os amigos saltimbancos e seu fiel escudeiro:

A fé é uma aflição dolorosa. É como amar alguém que está no escuro e não sai quando chama. Não me esquecerei deste momento: o silêncio, a tigela de morangos e o leite. Seus rostos na luz do entardecer. O bebê dormindo na carroça e a canção. Tentarei lembrar o que dissemos e guardar esta lembrança entre minhas mãos com cuidado, como se fosse uma tigela cheia de leite. Isto será um símbolo para mim e uma grande ajuda”.

Acho que sou uma criatura repetitiva. Sempre, quando meu amor se despede, eu penso: “puxa, ainda tenho tanto por dizer, as palavras não se esgotam, um mundo de coisas que parecem atropelar até a minha alma”.

Finalizo este texto e tenho a mesma sensação de alguma coisa inacabada. Assim, ainda refletindo sobre o silêncio ou até ausência do Criador, guiada pelo astrofísico Carl Sagan (1934-1996) e seu livro ‘Variedades da experiência científica – uma visão pessoal da busca por Deus’ (um presente do afeto), este texto se torna o primeiro capítulo de alguns que virão: Meus diálogos sobre Deus na brecha do tempo com Carl Sagan.

Referências

Concone, M.H.V.B. (2007). Medo de envelhecer ou de parecer? Revista Kairós, São Paulo, 10(2), dez. 2007.

Grün, A. & Müller, M. (2010). A Alma: seu segredo e sua força. Rio de Janeiro: Vozes.

Monteiro, D.M.R. (2006). O enigma dos enigmas: conjunção nascimento e morte. In: Monteiro, D.M.R. (Orgs.). Espiritualidade e Finitude. São Paulo: Paulus.

Pessini, L. (2009). Vida e morte: uma questão de dignidade. In: Santos, F.S. & Incontri, D. (Orgs.). A Arte de morrer. Bragança Paulista, SP: Comenius.

Sagan, C. (2008). Variedades da experiência científica: uma visão pessoal da busca por Deus. São Paulo: Companhia das Letras.

Luciana Helena Mussi

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

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