O que você tem feito a favor da velhice?

Em uma conversa intimista Ciro Marcondes Filho e Mônica Vendramini, mediados por Beltrina Côrte, falam sobre os processos criativos que envolveram a escrita de um artigo mobilizador de um pensar inquieto sobre o envelhecer e um ensaio fotográfico de um homem nonagenário.

 

Neste último dia 25 de maio o Centro de Pesquisa e Formação do SESC SP promoveu uma atividade denominada Revista Viva, criada para trazer ao vivo, de forma pulsante, aquilo que está impresso na revista tradicional do Sesc, chamada “mais 60 – estudos sobre envelhecimento”. Para o debate, foram convidados  Ciro Marcondes Filho, professor titular da ECA –USP, a fotógrafa Mônica Vendramini e a jornalista Beltrina Côrte, docente da PUC SP, como mediadora. O tema Saber, aos poucos, se tornar “Sem idade” já era uma provocação para o público disposto a pensar sobre a velhice.

Segundo Beltrina, a proposta do encontro é trazer um assunto, nada confortável, para uma conversa intimista a respeito dos processos criativos que envolveram Mônica, durante um ensaio fotográfico feito por ela e por Ciro durante a escrita de um artigo mobilizador de um pensar inquieto.

A importância dos afetos ganhou ênfase na fala da mediadora que os coloca como algo prioritário de um viver significativo.

Ao passar a fala para a fotógrafa, Mônica nos conta sobre o desafio causado pelo tema sugerido. Ao se deparar com a ideia ou talvez com o desejo de uma velhice ativa e potente, pensou no pintor, artista-gráfico e poeta luso-brasileiro, Fernando Lemos, que hoje, aos 91 anos, é o retrato de uma velhice inspiradora. As fotos, pensadas por ela, mereceriam uma aproximação com a realidade mostrada. Para tal, a fotógrafa apoderou-se da luz e do ambiente natural como garantia de uma representação fiel daquela velhice como uma possibilidade de vida. O ensaio feito foi mostrado através de imagens que souberam captar muito mais do que o instante. Marcas do tempo traduzidas em rugas e veias salientes afirmaram para nós, espectadores, a potência de uma vida construída em meio a alicerces artísticos de um viver interessante.  A vida pulsa também na velhice e portanto não deve ser reduzida ou submetida ao poder do tempo, senhor todo soberano que tenta a todo custo exaurir a poesia do viver.

Fernando Lemos é maior e é capaz de inverter a força que nos submete a um findar da existência. Mônica Vendramini soube nos mostrar isso. O ensaio pode ser conferido na edição da revista “mais 60”, volume 27, número 65 (set 2016). A velhice é uma etapa da vida e precisa ser encarada como tal. Enquanto nossos olhares carregados de preconceitos estiverem misturados na retina, passaremos a vida tentando envelhecer sem nos dar a chance de sermos velhos. Viver ficou pesado.

Após a apresentação da Mônica, chegou o momento da inquietude proposta por Ciro que nos fez pensar nas novas maneiras de viver relações apresentadas pela realidade atual. Através da tecnologia, que muito nos favorece, relacionamentos reais são impossibilitados de perpetuarem. Em um mundo onde a valorização do olhar para si é cultuada, enxergar o outro se torna um ato, quando não inexistente, camuflado e distorcido por lentes de celulares e tablets.

Aprendemos a ver e a conhecer o outro através dos posts, selfs e números de curtidas. Um perigo para as construções de afetos que são ameaçadas pelos clichês comumente construídos devido a total falta de relacionamento humano.

Segundo Ciro, em um mundo com tanta comunicação vivemos a incomunicabilidade dos tempos.

Nesta condição, a velhice, mais do que nunca sofre de uma força centrífuga da sociedade que, segundo o professor, coloca os velhos à margem da vida. Uma lógica injusta e desumana.

O incômodo foi gerado e entregue ao público para debate.

Assistia a tudo e uma inquietação pulsava, transformando-se em desejo de resposta. Qualquer que fosse.

A sensação de ver velhices sento centrifugadas não saiu da minha cabeça. Onde estão os jovens dispostos a mudar o mundo? Poderiam fazer o favor de se conectarem ao mundo real? Poderiam olhar os velhos e tentar ver a si no outro? Temos políticas públicas suficientes para favorecer os diversos tipos de velhices marginalizadas? Fala-se de projetos intergeracionais com a seriedade e a importância que deveriam ser pensados e concretizados?

Ao indagar minhas inquietações percebo que não sou compreendida. Calo-me.

Não sou contra a tecnologia, muito pelo contrário. Uso e abuso delas e recomendo seu uso e seu abuso aos velhos.

Não. Não estou disposta a promover reuniões para unir jovens com velhos. Sei que não teríamos quorum. Falo em projetos, pensados com propósitos a serem alcançados.

A centrífuga é potente e todos nós naquele auditório éramos centrifugados.

Estudo Gerontologia para aprender sobre as velhices e quem sabe fazer parte de um movimento que consiga gritar: Seja Velho! Velho com alma Velha! Velho de cara e de mente velha! Seja Velho!

Ser velho é uma condição e não um palavrão

A mudança é grande. Não se muda a cultura com facilidade, mas sabemos que somos nós que damos os significados, portanto cabe a cada um fazer sua parte e assumir que envelhecemos desde que nascemos. Ser velho é uma condição e não um palavrão.

Minha parte é feita com a consciência de que ela é ínfima. Questionamentos continuam a nos impulsionar para novas construções e que possam engrandecer nosso pensar para o tema. Se cada um buscar em si o velho existente, proposta feita pela mediadora ao final do encontro, talvez ele possa nos ajudar a compreender a velhice e quem sabe assim, a dar novos significados e olhares a ela.

O velho que nos habita pode nos ajudar. Basta dar uma chance a ele.

Eu já parei de pintar o cabelo. E você? O que tem feito?

Cristiane T. Pomeranz

Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. E-mail: crispomeranz@gmail.com

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