O Professor da Vida, por Akira Kurosawa

“Viver” apresenta a visão da compaixão, mostrando a beleza da vida de um homem a partir do diagnóstico de que está para morrer. Kanji Watanabe, um idoso burocrata com câncer no estômago, é forçado a buscar o significado de sua existência nos seus dias finais. Narrado em duas partes, o filme mostra os questionamentos de Watanabe no presente, através de uma série de retrospectivas de sua vida. Recebeu o Lobo de Ouro no Festival de Cinema de Bucareste, em 1953. Recebeu o Prêmio Especial do Senado de Berlim no Festival de Berlim em 1954.

 

O esperado não se cumpre, e ao inesperado um Deus abre o caminho”, do poeta grego Eurípides.

15 de outubro, Dia do Professor – Como todos os anos, desejo que minha homenagem carregue a mais perfeita emoção; profunda em sentido e significado. E, para auxiliar-me neste apaixonante percurso, escolhi um dos mais belos e sensíveis filmes de Akira Kurosawa “Viver” (Ikiru).

Assisti “Viver” no final do anos 70, em uma mostra de cinema internacional – lá estava eu, uma jovem confusa com essas difíceis coisas do “existir”. Devo dizer que depois de Kurosawa, tudo ficou bem mais nebuloso, mas, assim como o protagonista, despertei para o valor dos dias bem vividos, dias de esperança, dias de generosidade, dias que fizessem a diferença no outro e para o outro. E se me perguntassem se hoje “tudo” clareou, eu diria que a idade carrega com os anos a dura constatação da verdade, uma realidade que vem ocasionalmente debaixo de chuvas, algumas trovoadas e irresistíveis raios de sol.

Em branco e preto, direto de 1952, o cineasta tem a palavra:

“Às vezes penso na minha morte”, escreveu Kurosawa: Penso em deixar de ser… e é desses pensamentos que ‘Viver’ surgiu”.

Para alguns, a existência basta, mas a arte do simples existir é uma das mais difíceis de aprender. Quando se vive, deve-se viver inteiramente – é essa a lição aprendida por Kanji Watanabe, o funcionário público cuja vida e cuja morte dão significado ao filme – aquele que apelidei “O Professor da Vida”.

Kurosawa é radical, escolhe um protagonista as avessas que nem herói é, nem nada é ou apenas o quase nada é. O que ainda poderia piorar? Bem, Watanabe não só sabe que vai morrer como sabe quando vai morrer. “Se você estivesse como ele, com apenas um ano e meio de vida, o que faria?, pergunta o médico ao residente, logo após o derradeiro diagnóstico.

Tentando responder à pergunta, Watanabe se entrega às armadilhas e às desilusões às quais está sujeito um homem em crise. Inicialmente, resta-lhe apenas o medo. Ele chora, encolhido debaixo do cobertor, escondido, quem sabe, dele mesmo. Depois busca o acolhimento do filho – a pessoa mais próxima desde a morte de sua esposa –, mas, não encontrando nele nenhum conforto, começa, pela primeira vez na vida, a duvidar; e duvidar significa sentir, começar a viver. Duvida da repartição, dos vinte e cinco anos de serviço fiel e, o mais difícil – duvida de tudo que já viveu.

Infelizmente, Watanabe foi despertado pela consciência de sua morte (como observou o narrador “ele é como um cadáver e, na verdade, está morto há vinte e cinco anos”), é a aproximação da morte que o faz perceber pela primeira vez que a liberdade é sua, a vida é sua, sempre foi sua, e que não pode evitá-la. Está sozinho e livre. Todos os seus hábitos, aquelas comodidades regulares que tornavam a vida suportável, as oito horas vazias passadas dentro de um escritório na cidade, e que pareciam dar sentido à vida, acabam por terra.

Virando a mesa, nosso triste Watanabe, decide viver para si mesmo, gastar seus últimos meses em prazeres. Ele retira o dinheiro do banco e bolas para tudo; a vida passa a ser apenas diversão. No caminho das delícias, conhece um escritor e finalmente lhe conta da doença.

– Escritor: Então você não deveria estar bebendo desse jeito… é como cometer suicídio.

– Watanabe: Ah, não. Não é assim tão fácil. Pensei que seria uma morte rápida, mas é difícil morrer. E eu não posso morrer agora. Não sei pelo que vivi todos esses anos.

– Escritor: Vejo que a adversidade tem suas virtudes e que o homem acha a verdade no infortúnio… o câncer fez você experimentar a vida. Que tolos são os homens. É sempre exatamente quando está prestes a deixá-la que o homem descobre como pode ser bela a vida.

E mesmo assim são raras as pessoas que percebem isso. Algumas morrem sem jamais ter sabido o que é viver. Você é um grande homem porque está lutando… até agora você foi escravo da vida, mas daqui em diante passará a ser seu senhor. E a obrigação de um homem é desfrutar a vida. É antinatural não fazê-lo. O homem precisa ter uma avidez pela vida. Ensinam-nos que isso é imoral, mas não é. A ânsia de viver é uma virtude.

E, de madrugada, num bar… uma conhecida canção:

A vida é tão curta,

Se apaixone querida donzela,

Enquanto seus lábios ainda são rubros,

Pois não haverá amanhã.

A vida é tão curta,

Apaixone-se querida donzela,

Enquanto seus cabelos ainda são negros,

E antes que seu coração perca o frescor,

Pois o dia de hoje não volta mais.

O tempo passa e Watanabe percebe que todos os prazeres do mundo não conseguiram preencher o vazio de seus dias ou dar o significado desejado à sua existência, então, num certo encontro com uma antiga funcionária da repartição, ele pergunta:

Watanabe: Como poderei ser como você?

Moça: Só o que faço é trabalhar e comer. Só isso. Faço brinquedos como este (ela coloca um coelho mecanizado sobre a mesa – ela agora trabalha numa fábrica de brinquedos). E é só isso que faço, mas sinto-me como se fosse amiga de todas as crianças do Japão. Sr. Watanabe, por que o senhor não faz algo assim?

Watanabe: O que eu poderia fazer no escritório?

Moça: Então demita-se e arrume outra coisa.

Watanabe: É tarde demais… Não, não é tarde demais. Não é impossível… Eu posso fazer alguma coisa se realmente quiser.

Nas coisas simples da vida, muitas vezes, se encontra o caminho e justamente esta despretenciosa conversa marcou o momento da decisão de Watanabe. Claro está que, aqui e agora, o narrador anuncia que Watanabe está morto.

Ao ficar cego, ele enfim enxerga; ao morrer, descobre aquilo que todos sabemos, mas esquecemos por sermos incapazes de viver com o conhecimento de que estamos nus, sozinhos e vivos. Por não poder mais voltar ao conforto alienante de antes, ele enfim descobre o que é viver. Tendo adquirido esse conhecimento, ele morre. Mas ele adquiriu mais do que isso – e é na segunda metade do filme que descobrimos o herói Kanji Watanabe.

O sentido da vida

Depois de celebrar o último aniversário – um irônico “parabéns a você”, festa surpresa dos colegas da repartição – vemos Watanabe fazendo algo inusitado. Ao vasculhar sua escrivaninha, ele encontra uma petição há muito esquecida, que pede para que um terreno baldio seja transformado em parque infantil.

Contra tudo e contra todos – nem mesmo a gangue local e o prefeito conseguem intimidá-lo – ele luta, sem esperanças, mas ainda assim acreditando, dedicando toda sua vida, toda energia ao parque e à finalização das obras.

– Alguém pergunta: Você não fica com raiva por ser insultado assim?

– Watanabe: Não, não posso ficar com raiva de ninguém. Não tenho tempo para ficar com raiva.

Estou certa que esta última frase me fez pensar em Watanabe como “O Professor da Vida”, o homem que cumpriu sua própria jornada, a travessia do herói.

Durante o velório, aos poucos foi ficando claro que Watanabe encontrou sua justificativa através da ação. O parque foi apenas um pretexto para sua ação. Não faz a menor diferença se agora o Departamento de Parques ou o prefeito reivindique a autoria do parque acabado. Mesmo a voz acanhada de um dos companheiros de trabalho que se levanta em defesa do falecido não chega a ter significado real.

O sentido é que Watanabe se descobriu através do “fazer”. Talvez sem sequer aprender a profunda verdade que estava pondo em ação, ele agia como se acreditasse que a ação em si fosse o importante; que um homem não é seus pensamentos, não é seus desejos, nem suas intenções, mas simplesmente aquilo que faz. Watanabe descobriu uma maneira de se responsabilizar pelos outros, encontrou um modo de justificar a sua morte e, mais importante que esta, a sua vida. Ele descobriu o que é “viver”.

[…] e a ‘vida’ não tem sentido quando tudo já foi dito e feito; ao mesmo tempo a vida de um homem pode ganhar significação quando ele se põe a executar uma tarefa que para ele tem sentido. O que o resto do mundo pensa sobre a vida daquele homem é totalmente irrelevante, até ridículo. O sentido de sua vida é aquilo que ele se compromete a tornar o significado de sua vida. Não há nada além disso”. (Richard Brown citado em Donald Richie, 1984, p. 95)

Dedicado ao mais digno e generoso dos professores, meu amor.

Referências

Richie, Donald. Os filmes de Kurosawa. São Paulo: Editora Brasiliense, 1984.

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=_mLrLHDdXHI

Luciana Helena Mussi

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

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