O ‘presentear’ na prática clínica com idosos

O presente na clínica do envelhecimento cria em um primeiro momento um vínculo de aceitação e afeto para posteriormente, ser acolhedor. Muitos idosos buscam na clínica aquilo que desencontraram no seu percurso de vida: atenção, respeito, consideração, aceitação. Rejeitar um presente desse paciente em específico é colocá-lo em uma posição vulnerável, plantando sentimentos desnecessários e que futuramente trará maior sofrimento para esta pessoa.

 

Um costume antigo e que atravessa muitos povos e culturas é o de presentear. Presenteia-se em diversas datas, no aniversário, dia das mães, dos pais, dia dos namorados, natal, entre outras datas comemorativas. Não existe uma data certa quando a questão é presentear alguém, basta ter vontade  e querer agradar.

Na história não há um consenso sobre onde e como surgiu esse gesto. Alguns dizem que o gesto de presentear surgiu com a revolução agrícola cerca de 8000 a.C. quando os grupos comunitários trocavam entre si a sua produção excedente. Essa troca garantia a subsistência e sobrevivência de todos. Era um costume que beneficiava tanto a quem dava quanto a quem recebia.

Já no antigo Egito, o hábito de dar presentes tinha como objetivo principal afastar os espíritos maus. Assim como no cristianismo, Jesus ao nascer foi presenteado por três reis.

Nos dias atuais, o presentear está muito ligado à época do natal e que infelizmente acaba tendo uma conotação mais capitalista do que cristã, tudo isso por conta da imagem do Papai Noel, que traz a lenda de um bom velhinho que presenteava crianças no dia do seu aniversário e que, a partir do século 19, ganhou roupa, trenó e até casa do polo norte.

Iniciamos nosso artigo contextualizando o presentear na história para, então, adentrá-lo dentro do nosso contexto clínico.

“Sim, eu já recebi presentes e aceitei todos. Eu não sabia ao certo como agir, aceitar ou não era uma enorme questão a ser pensada, mas, foi por causa de um erro que decidi começar a aceitá-los. Já ganhei desde chocolates a perfumes, panos de prato com crochê, toalhas bordadas, chinelinhos de tecido, cartinhas com poemas e etc. É neste momento que eu estabeleço um vínculo muito importante com meu paciente e que traçará o rumo de toda nossa vivência”.

Quem nunca observou na fila do banco um idoso tirar do bolso uma bala ou um bombom e entregar à atendente? Ou então, aquela idosa fofa que bordou uma toalhinha de mão para dar de presente para a enfermeira do postinho?

O presentear nunca é em vão e traz consigo muitos significados ocultos que vão desde um simples agradar, agradecer entre outras demonstrações de afeto e, até mesmo ser um pedido de aceitação e de respeito.

Na clínica psicológica, o presentear deve ser trabalhado em terapia. Algumas vertentes da psicologia pontuarão que o psicólogo não deve aceitar presentes, pois acarretaria em uma informalidade entre profissional e paciente que fugiria às normas éticas de atendimento. Um presente dentro deste contexto poderia estabelecer um novo relacionamento ou enfraquecer o que já existe, pode transformá-lo ou até mesmo extingui-lo.

 

 

Um presente demonstra a extensão do gosto ou do interesse de outra pessoa. Quando presenteamos alguém colocamos um pouco de nós junto no embrulho, que às vezes de tão bonito parece ser o próprio presente ou, de tão singelo, demonstra que a intenção é o que vale de fato.

Mas, a pergunta é: Qual o interesse do idoso em presentear? Por que não aceitar?

O idoso quando presenteia alguém, ocultamente está pedindo para que a outra pessoa o aceite, o trate bem, lhe dê atenção. Não aceitar um presente dentro da clínica do envelhecimento é rejeitar esse ser humano que vem em busca de acolhimento. Logo, não aceitar o presente significa não acolher.

O presente na clínica do envelhecimento cria em um primeiro momento um vínculo de aceitação e afeto para posteriormente, ser acolhedor. Muitos idosos buscam na clínica aquilo que desencontraram no seu percurso de vida: atenção, respeito, consideração, aceitação. Rejeitar um presente desse paciente em específico é colocá-lo em uma posição vulnerável, plantando sentimentos desnecessários e que futuramente trará maior sofrimento para esta pessoa.

E não há nada pior do que causar mais uma possibilidade de sofrimento para aquela pessoa que já nos procura com um fardo tão pesado para administrar. Dar conta dessa angústia e sofrimento durante o acolhimento é o primeiro papel do psicólogo. Logo, quando o vínculo afetivo está estabelecido, podemos dar continuidade à terapia de acordo com a demanda que o paciente trouxer.

O melhor presente que podemos dar a alguém é o nosso tempo, atenção, nosso amor e nosso interesse.

Não esqueça. Ao acolher este ser humano estamos recebendo-o com consideração, atenção e respeito.

 

Simone de Cássia Freitas Manzaro

Simone de Cássia Freitas Manzaro

Psicóloga, realiza atendimento psicológico de adultos e idosos. Voluntária na Associação Brasileira de Alzheimer-ABRAz. Experiência em estimulação cognitiva para pacientes com demências; atua com estimulação cognitiva preventiva e consultoria gerontológica, orientando familiares e cuidadores, criando estratégias e atividades para lidar com o paciente no dia a dia, supervisionando treinamento prático. E-mail: simonemanzaro@gmail.com

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