O inferno entre ficção e realidade

Podemos fazer uma leitura muito atual sobre um ‘inferno’ que não pode ser destruído ou controlado, como no filme, ou seja, o estado do mundo atual. Vivemos Infernos – violência, guerras, doenças, fome, degradação humana e do meio ambiente, derivados da ambição humana por poder. A tecnologia vista em sua ambiguidade – bem/mal – sendo utilizada para destruir e não salvar. Com o debate as pessoas descobriram possibilidade de ‘leitura’ que deram novo sentido ao filme assistido.

O programa Itaú Viver Mais Cinema apresentou no último dia 25/10 o filme O Inferno, baseado na obra de Dan Brown – autor também, entre outros, do livro de sucesso mundial O código Da Vinci adaptado para o cinema em 2006 – tendo ambos, como protagonista, o famoso ator americano Tom Hanks.

O filme O Inferno, categorizado como policial/suspense o que o torna, aos olhos da crítica, um entretenimento ‘menor’, tem como panorama três cidades importantes na história ocidental e berço de grandes obras de arte: Florença, Veneza e Constantinopla, com pano de fundo histórico, repleto de referências não exploradas. Assim ele foi apresentado na mídia e recebido pela maior parte dos expectadores presentes ao encontro.

O filme tem início na cidade de Florença, Itália, onde Robert Langdon (Tom Hanks), famoso estudioso de simbologia, desperta em um hospital totalmente confuso, com um ferimento na cabeça, não se lembrando do que aconteceu nas últimas 24 horas.

Ele recebe atendimento da médica Sienna Brooks (Felicity Jones), que afirma que o conheceu em uma palestra, quando ainda era criança, por se interessar pelos estudos do professor, o que o impressiona. Atacado novamente no hospital, por uma policial, foge com a ajuda da Dra. Sienna que o esconde em seu apartamento e cuida dele, arranjando-lhe inclusive roupas limpas que, segundo ela, pertenciam ao namorado.

Recuperado, Langdon encontra no bolso do paletó que usava quando foi ferido um frasco lacrado, e descobre que ele pode ser aberto apenas com sua impressão digital. A partir desta ‘descoberta’ ele inicia uma busca frenética pelo desvendamento da simbologia que pode esclarecer o ‘mistério’ da sua perseguição e que se apoia na clássica obra de Dante Alighieri “A Divina Comédia”, obra sobre a qual é também estudioso.

Ao final da sessão foi realizado um debate, mediado por mim, no qual as reações foram controversas: “Parece filme do Indiana Jones”; “Não achei nada”; “Meio confuso”, entre outros comentários. Dois deles se diferenciaram dos demais: “O filme diz muito sobre a realidade que vivemos – a degradação do planeta”; “Resumiria o filme em três palavras: poder, ganância, violência”.

A partir destas diferentes percepções iniciamos o debate chamando atenção que o título do filme pode ser considerado como metáfora para abordar o tema principal – a devastação da população terrena pela propagação de um vírus mortal, criado por um cientista messiânico que acreditava que o mundo precisaria de um reequilíbrio populacional, e cujos sobreviventes construiriam um ‘mundo’ novo mais estável e menos violento. Afirma que seria a remissão pela dor!

Toma-se como referência a peste Negra, como ficou conhecida a pandemia da peste bubônica, que assolou a Europa durante o século XIV (de 1348 até início do sec. XVIII), e dizimou cerca de 75 milhões de pessoas (mais ou menos metade da população europeia).

Além da ação vertiginosa, característica dos filmes americanos do gênero, existe uma base cultural mais profunda e que foi, aos poucos, sendo desvelada no debate. A principal fonte literária de referência utilizada é a obra A Divina Comédia, do poeta Dante Alighieri (Florença 1265 – Ravena 1321), dividida em três partes: Inferno, Purgatório e Paraíso composto, cada uma, de 33 cantos (ligada a simbologia do nº 3 de forte influência religiosa ligada à Santíssima Trindade).

A obra tem uma proposta filosófica e didática, ou seja, o ensino simbólico do significado espiritual da vida humana, e foi escrita de 1304/08 Inferno; 1313/14 Purgatório; e o Paraíso até 1321, ano da morte do autor. O poema apresenta a cosmovisão medieval que dividia o Universo em círculos concêntricos, e foi escrito em dialeto toscano, e não em latim como costume à época, sendo considerado como matriz da língua italiana moderna.

Nele o próprio Dante ‘perdido’ e “ao meio da jornada [35 anos], tendo perdido o caminho verdadeiro, achei-me embrenhado em selva escura” (alusão poética a um período de desregramento), encontra Virgílio, seu grande mestre – poeta romano (70 a 19 AC) – que escreveu a Eneida – poema épico que relata a saga de Enéas e a fundação de Roma.

Convidado por Virgílio (que representa a Razão) Dante (o Homem) parte na jornada espiritual ‘em busca de si’ visitando o Inferno e o Purgatório. No paraíso é guiado por Beatriz (amor idealizado) que representa a Fé.

No filme a chave do enigma proposto para localizar o vírus, que pode devastar a humanidade, é a expressão ‘Cerca-Trova’ – procure e ache – que está em um detalhe da pintura ‘A Batalha de Anghiari’ obra de Vassari (1565) e que se encontra no Palazzo Vecchio (Florença). Nela é retratada a luta entre Siena x Florença, dois estados independentes, vencida pela última, e em uma bandeira portada pelos sinienses estão escritas as palavra Cerca-Trova (Procura e Acha). Salientamos que Unificação italiana se deu apenas no século XIX.

Podemos fazer uma leitura muito atual sobre um ‘inferno’ que não pode ser destruído ou controlado, como no filme, ou seja, o estado do mundo atual. Vivemos Infernos – violência, guerras, doenças, fome, degradação humana e do meio ambiente, derivados da ambição humana por poder. A tecnologia vista em sua ambiguidade – bem/mal – sendo utilizada para destruir e não salvar.

Outra leitura possível do Cerca-Trova tem origem na História da Arte. A primeira encomenda para a pintura da Batalha foi feita a Leonardo da Vinci em 1503, mas foi abandonada pouco depois, pois a técnica inovadora utilizada não trouxe bons resultados e, posteriormente, foi realizada uma reforma no salão e ela ficou esquecida. Quando Vassari, admirador de Da Vinci e tendo conhecimento da obra iniciada anteriormente, assume a encomenda ele encontra vestígios da obra e, para protegê-la, constrói uma espécie de ‘câmara de ar’ entre os vestígios e a nova obra deixando a pista do Cerca-Trova – procure Leonardo e o encontrará. Outra explicação é uma possível mensagem política ligada a encomenda feita pelo nobre florentino Cosimo I – Siena buscava a liberdade e encontrou a morte.

Essas breves referências históricas, pano de fundo do filme, trouxeram novas reflexões por parte dos participantes, ampliando o debate, e alguns comentários finais, expostos ao grupo ou a mediadora pessoalmente: que não tinham gostado, ou que era apenas mais um filme de ação, mas que com o debate tinham descoberto outras possibilidade de ‘leitura’ que deram novo sentido ao filme assistido.

Interessante ressaltar aqui o papel do mediador, em uma atividade de cine debate, pois ele deve ter como objetivo a abertura de espaço para livre expressão, sem deixar resvalar para polêmicas mais agressivas, que podem intimidar e desmotivar outros participantes. Além disto, estar atento para articular as diferentes opiniões e/ou considerações e, trazer informações complementares que enriqueçam a atividade. Neste evento tivemos a oportunidade de realizar estes passos e verificar o potencial reflexivo destas ações promovidas pelo Itaú Viver Mais, nas afirmações como ‘Assisti um filme e depois vi outro’; Não tinha gostado, mas depois do debate, gostei! ”.

Vera Brandão

Vera Brandão

Pedagoga (USP); Mestre e Doutora em Ciências Sociais (PUCSP); com Pós.doc em Gerontologia Social pela PUCSP. Pesquisadora CNPq (PUCSP); responsável pela editoria da Revista Portal de Divulgação desde 2004. Associada fundadora do Olhe (Observatório da Longevidade Humana e Envelhecimento). Coordenadora da Coluna Memórias do Portal e escreve sobre educação continuada; memória social; saúde e espiritualidade; intergeracionalidade. Email: veratordinobrandao@hotmail.com

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