O homem que viu o infinito

Para Rāmānujan, uma equação não tinha significado, a não ser que expressasse um pensamento de Deus. Bem, apesar de tudo em mim indicar o contrário, talvez ele esteja certo. Pois esta não é exatamente a justificativa para a matemática pura? Somos meros exploradores do infinito em busca da perfeição absoluta” (Palavras do Professor G. H. Hardy).

 
Letras, fórmulas, complexas equações matemáticas com todos os seus Pi’s, Log’s, divisões, multiplicações, subtrações, adições e fé – são estas as primeiras imagens que povoam a tela em “O homem que viu o infinito”, obra baseada em fatos reais dirigida e roteirizada por Matthew Brown.

E esse homem, o indiano Srinivāsa Aiyangār Rāmānujan (1887-1920), sem formação acadêmica, mas abençoado por profunda esperança, invencível originalidade  e uma sagrada genialidade de espírito, reservada a bem poucos, realizou, a duras penas, significativas contribuições nas áreas da análise matemática, teoria dos números, séries infinitas, frações continuadas, e uma imensidão de descobertas.

“A matemática, vista corretamente, possui não apenas verdade, mas também suprema beleza […]”. A frase abre as cortinas da história pertencente a um dos mais influentes matemáticos, filósofos e lógicos que viveram no século XX, Bertrand Russell (Reino Unido, 1872-1970).

Já dizia o provérbio que “os números não mentem jamais”, apenas os homens, corrompidos pelas emoções povoadas pelas incertezas do viver. Já a ciência exata, tem um quê de pureza, de razão e, quem sabe até, solidão da ausência de um Deus que não se prova por fatos concretos. Bem, mas esse não é o caso de Rāmānujan, um homem de fé que encontra na dança dos números frios, encanto, cor, crença e conhecimento.

O filme, ambientado no início do século XX, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, conta a curta, mas produtiva vida de Rāmānujan (Dev Patel), um jovem morador de uma cidade pobre da Índia que possui um talento nato para a matemática. Incentivado a publicar seus artigos na Inglaterra, ele envia cartas ao professor G. H. Hardy (Jeremy Irons) – Universidade de Trinity, Cambridge – contando suas descobertas e inquietações “exatas”.

Intrigado e, ao mesmo tempo curioso, o Professor Hardy decide aceitar o aluno, tornando-se, a princípio, apenas seu mentor, e depois um amigo, um admirador do brilhantismo e sensibilidade do jovem.

“Tive que me reestruturar, como nunca tinha feito antes, na tentativa de ajudá-los a formular uma estimativa razoável da figura mais romântica na história recente da Matemática. Rāmānujan era um indiano. Suponho que sempre haja dificuldade para que um inglês e um indiano se entendam adequadamente. Devo mais a ele do que a qualquer outro no mundo e minha parceria com ele foi o único incidente romântico da minha vida” (lembranças do austero Professor).

1914 – Madras, Índia

Importante explicarmos que na época, o Reino Unido colonizava a Índia. Assim, a presença de um indiano nas salas de aula britânicas já representava um tremendo choque cultural. Como um jovem pobre, sem formação alguma, ousa colocar em cheque inúmeros conceitos acadêmicos? “Você não é graduado. Não pode ser aceito”, era só o que Rāmānujan ouvia nas suas constantes tentativas de expor seus trabalhos. Os britânicos o viam como um “lunático”.

O filme arrisca tratar das questões raciais e da incômoda relação colonialista entre britânicos e hindus, representados nas figuras da elite acadêmica e de Rāmānujan, mas prefere permanecer na luta e superação do inimaginável.

Para o Mestre Hardy: “Ele foi, de certa forma, minha descoberta. Eu não o inventei. Assim como outros grandes homens, ele inventou a si mesmo. O mais difícil para mim, então, não é tê-lo conhecido pouco, mas tê-lo conhecido e sentido bem demais”. Uma genilidade e inspiração que vinham das palavras de Deus, do sagrado que sussurrava a Matemática em seus ouvidos.

Entre as teorias e a pobreza que não o permitia viver com sua jovem esposa, um dia Rāmānujan ouve da amada: “Disseram que ama números mais do que as pessoas”. Ele, gentilmente responde: “Algumas, mas não você. Será que podemos começar de novo? Eu sou Rāmānujan”.

Curiosa, ela se aproxima do “livro das descobertas” com suas complexas equações. Ele explica: “É como uma pintura, penso eu. Imagine que tem cores que não pode ver. Para mim isso é tudo. Talvez outras pessoas possam ver e compreender também. E para eles, isso será importante”.

Mas a jovem, inquieta e ao mesmo tempo curiosa, confessa: “Eu quero entender mais do que cores que eu não posso ver”. Então, Rāmānujan pega um punhado de areia, e lá está a explicação: “Imagine se olhássemos tão de perto que pudéssemos ver cada grão, cada partícula. Você veria que há padrões em tudo. A cor na luz. Os reflexos na água. Na matemática, esses padrões se revelam da maneira mais incrível. É muito bonito”.

O belo é revelado na arte do saber, mesmo que indecifrável e complexo para aqueles mais comuns. É a entrada que guarda os mistérios dos enigmas, tão claros e transparentes para homens como Rāmānujan: números que falam e dão a dimensão exata do infinito.

Universidade de Trinity, Cambridge, Inglaterra

Uma carta, endereçada ao Professor Hardy, chega, de longe: “Um escriturário Hindu diz que pode dar significado para os valores negativos da função gama. Imagina!”, pensa o acadêmico, “um escriturário ignorante de Madras que contesta afirmações que fiz em uma série de tratados!” Ele até pensa que a carta seja, talvez, brincadeira de um colega, seu querido amigo, Littlewood, mas não. Perturbado, ainda incrédulo, ele confere, checa cada fórmula, cada equação, cada descoberta.

– Littlewood: Integrais, série infinitas, Deus sabe o que mais. Perdão, sempre esqueço que você não acredita em Ser Supremo. Se este rapaz está falando a verdade, talvez tenha que reconsiderar.

– Hardy: Elas me deixam desarmado. Nunca vi algo assim antes.

Desta maneira, Rāmānujan é aceito na ilustre Universidade. Na despedida da cultura, das raízes, do amor: “Não se esqueça de mim”, implora a jovem esposa apaixonada. Ele responde, emocionado: “Jamais esquecerei, eu prometo”.

E agora 6000 milhas o separam da vida passada, mas, como ele mesmo diz “Conheço números maiores”.

Já na Universidade, diante de Rāmānujan, a grandeza: um gigante do saber, algo impensável, até então. Percebendo o encantamento e, apreensão do jovem, Littlewood, que o recebe neste primeiro instante, capta o sentimento, e diz: “O grande conhecimento muitas vezes vem da mais humilde das origens”.

Enfrentando grande resistência, Professor Hardy alerta os colegas acadêmicos: “A mudança, senhores, é uma coisa fantástica. Aceitem-na”. Depois de uma recepção fria, distante, bem ao estilo do cético e pouco afetuoso Mestre, os trabalhos começam, mesmo com todas as estranhezas culturais; rezas e preces de um lado e inúmeros obstáculos à frente.

Ansioso, Rāmānujan quer publicar suas teorias imediatamente, mas tem de enfrentar todo rigor da Universidade, principalmente para um indiano: “Primeiro precisamos de provas do seu trabalho. Precisamos de uma língua comum. Haverá muito tempo para publicação”, avisa Hardy.

– Rāmānujan: Tenho muito a compartilhar com você. Como disse na carta, aquela era apenas uma amostra das minhas descobertas.Vocês verão que encontrei até uma função que representa exatamente a quantidade de números primos menores que X na forma de uma série infinita.

Hardy e Littlewood, perplexos, não acreditam no que veem, entretanto, como tudo se torna dificil para o jovem! Desde batatas cozidas na banha (ele é vegetariano) até a descrença do britânico mentor que, inicialmente, apenas se interessa pela produtividade acâdemica do aluno. Tudo isso sem contar com o preconceitos que espreitam pelos quatro cantos da academia, “Escurinho, deixe-me lhe dizer uma coisa: não faça essas gracinhas na minha aula. Você não pertence a esse lugar. Agora saia!”

Na sala dos grande gênios – Newton “Qui genus humanum ingenio superavit”, e outros –  Rāmānujan percebe na pele e no coração a dor de não se sentir pertencente. E com seu Mestre, notando o olhar crítico e questionador, ele responde, acariciando e explicando sobre a pulseira: “Minha trança sagrada. Ela ajuda a espantar espíritos malignos”.

– Professor Hardy: Como sabia daquele teorema?

– Rāmānujan: Só me ocorreu. Não entendo porque perdemos nosso tempo calculando todas essas provas. Eu tenho todas essas fórmulas.

– Professor Hardy: Não é que discorde, é que não tenho certeza de como chegou lá ou se suas afirmações estão corretas. Há sutilezas que…

– Rāmānujan: Mas estão corretas, senhor. Tenho novas ideias mais importantes.

– Professor Hardy: Intuição não é o bastante. Precisa de embasamento. Por que acha que querem que fracassemos?

– Rāmānujan: Porque eu sou um indiano.

– Professor Hardy: Sim, esse é um dos motivos. Mas também pelo que representamos. Euler e Jacobi. Quem são eles? Euler foi o matemático mais produtivo do século 18, sendo que a maioria de seu trabalho foi feita depois de estar cego. Jacobi, assim como você, foi tirado da obscuridade e impressionou quase tanto quanto Euler. Bem, acredito que esteja na classe deles. O que eles têm em comum, o que vi em você, é um amor pela forma. Por que faz isso?

– Rāmānujan: Porque eu tenho que fazer. Eu vejo.

– Professor Hardy: Como Euler. Forma pela forma. Uma arte por si própria. E como toda arte, revela a verdade. É a única verdade de conheço. É minha igreja. E assim como Mozart podia ouvir toda uma sinfonia em sua mente, você dança com os números até o infinito. Mas essa dança, essa arte, não nos aproxima de certas facções que nos veem como ilusionistas. Se desafiarmos áreas da Matemática que já são tão bem trilhadas, não podemos nos dar ao luxo de estarmos errados. […] Assim como Newton representa o aspecto físico do nosso trabalho, seus cadernos representam o abstrato. Levou muito lempo para provarem Newton. Por isso temos que ter a prova disso. E, se fizermos isso, acredito que um dia, esses cadernos encontrarão um lugar aqui [Biblioteca de Wren, Cambridge]. Agora entende o que está em jogo?

E, entre uma equação e uma prova subsequente, palavras de saudades de sua esposa: “Passo os dias sentindo sua falta, esperando pela carta que me dirá para ir até você através do oceano. Você é tudo para mim”. Mas as obrigatórias provas de sua teoria não esperam. Pelo menos nisso, o amor é diferente, é generoso: ele espera, sempre.

Nas duras conversas com Hardy, Rāmānujan desabafa, ao ouvir do professor “eu sou o que chamam de ateu”: “Não. O senhor acredita em Deus. Apenas acha que ele não gosta do Senhor”. Mesmo ainda exigindo provas das descobertas do discípulo, lá está a tão desejada publicação na prestigiada Sociedade Matemática de Londres: “Números altamente compostos”.

Começa a Guerra

Carta de Littlewood a Hardy: “Meu querido Harold. Por favor, perdoe essa transgressão pessoal. Eu vim para essa maldita guerra, e não sei se voltarei um dia. Felizmente, ao contrário de você, tenho Deus para me confortar. Tenho dois argumentos para fazer: o primeiro é o trabalho de Rāmānujan com números primos, ainda que brilhante por si, está errado. O outro ponto é menos direto. O que vemos em Rāmānujan não é nada menos que um milagre. O homem ultrapassa todo brilhantismo que conheci até hoje. Esqueça Jacobi, podemos compará-lo a Newton. Creio que para Rāmānujan, cada número inteiro positivo, seja um dos seus melhores amigos. E, por isso, você tem uma responsabilidade: tem que cuidar dele e garantir que seu trabalho frutifique. Entende, Hardy? Você também tem uma guerra para lutar.

Ao ser informado por Hardy que seu teorema está errado (ele ainda exige provas), Rāmānujan reage violentamente: “Intuição? Fala dessa palavra como se fosse nada. É tudo que isso é para você? Tudo que sou? Você nunca me viu, nem mesmo me conheceu. Você é um homem sem fé! Não vejo fotos de ninguém aqui! Nem mesmo sua família. Quem é você, Sr. Hardy? Sabe do que tive que desistir para estar aqui? Eu não tenho nada. Ao menos vê os ferimentos em meu rosto? Eu tenho uma esposa, Sr. Hardy!”

Desesperado, Rāmānujan, consegue as provas de seu trabalho. Mas, a doença dá seus primeiros sinais, e pior, em tempos de guerra. Hardy ignora o real estado de saúde do jovem: “Revisei seu trabalho sobre ‘Partições’. Parece que está a beira de uma descoberta. Agora que aceitou um rigor apropriado, acho que deve conhecer o Major MacMahon, ele é o chefe de Combinatória na faculdade e um de seus opositores mais eloquentes. Ele diz que ‘Partições’ não podem ser feitas, especialmente por alguém como você”.

Desafiado, Rāmānujan, acompanhado por Hardy, segue para o confronto intelectual da Matemática: “Eu realmente consigo”. Fato é: ele e seu mentor conseguem provar. O Mestre, orgulhoso, diz: “Major MacMahon, deixe-me apresentá-lo ao Sr. Rāmānujan”.

Agora, a doença já é uma realidade e, Hardy, inconformado, diz: “Desculpe por não ter sido um bom amigo no sentido tradicional. Eu sei que precisava de um, mas não sou muito bom nisso, eu nunca fui. A vida para mim é, sempre foi a Matemática”. Rāmānujan responde: “Você queria saber de onde eu tirava minhas ideias. Minha Deusa Namagiri. Ela fala comigo. Coloca as fórmulas na minha língua quando vou dormir, às vezes quando estou rezando. Acredita em mim? Se for meu amigo saberá que estou falando a verdade”.

– Hardy: Mas não acredito em Deus. Não acredito em nada que não possa provar.

– Rāmānujan: Não vê? Uma equação não tem significado para mim a não ser que expresse um pensamento de Deus.

– Hardy: Quando estava na escola, lembro de um dos meus capelães que disse “Você sabe que Deus existe porque Ele é como uma pipa, e você pode sentir ao puxar a linha e saber que Ele está lá”. Eu disse: “E se não houver vento e a pipa não voar?”. Não, não posso crer em Deus. Não creio na sabedoria antiga do oriente, mas acredito em você.

E com a proteção da Deusa e sua prodigiosa genialidade, Rāmānujan consegue as provas no trabalho sobre ‘Partições’. Ele, enfim, entra para a Sociedade Real, com todo empenho e luta do Professor Hardy para convencer seus irredutíveis e convencionais colegas.

No solene discurso, Hardy diz: “Para ele uma equação não tinha significado, a não ser que expressasse um pensamento de Deus. Bem, apesar de tudo em mim indicar o contrário, talvez ele esteja certo. Pois esta não é exatamente a justificativa para a matemática pura? Somos meros exploradores do infinito em busca da perfeição absoluta. Nós não inventamos essas fórmulas, elas já existem e, adormecidas, esperam que mentes mais brilhantes como a de Rāmānujan, as encontrem e as comprovem. Portanto, no fim, eu fui forçado a considerar: quem somos nós para questionar Rāmānujan? E, ainda mais, Deus?”

Na cama de um hospital, Rāmānujan, abre o telegrama de seu Mentor, e comovido, diz. “Agora sou Membro da Sociedade Real”.

Agora, como Membro da Sociedade Real, Rāmānujan, o indiano de Madras, é recebido com o forte, intenso e ritimado toque à mesa de todos seus ilustres integrantes; o som desejado e merecido da vitória. “Eu, Srinivāsa Aiyangār Rāmānujan, membro eleito da Sociedade da Faculdade de Trinity”.

No adeus a Hardy, o amigo Rāmānujan expressa sua insegurança quanto a ter sua esposa novamente. O Professor, agora mais próximo, responde: “Estou fora do meu departamento nesses assuntos, mas direi isto – Não há provas nem leis subjacentes que possam determinar o resultado dos problemas do coração”. É o exercício constante da incerteza, sedutora para alguns, angustiante para outros.

Um ano depois…

Hardy recebe, finalmente, uma carta da índia. Com a pulseira sagrada guardada entre as palavras e as lembranças do amigo Rāmānujan, ele constata o falecimento do amigo.

“É dificil colocar em palavras o que eu devo a Rāmānujan. Sua originalidade me influenciou desde que o conheci e sua morte é um dos piores golpes que já sofri. Mas agora digo a mim mesmo quando estou deprimido e me encontro forçado a ouvir pessoas entediantes e…Fiz algo que você nunca teria feito, eu colaborei tanto com Littlewood como com Rāmānujan em condições de igualdade”.

Em 1976, um “caderno perdido” foi descoberto com novas fórmulas inovadoras do último ano de vida de Rāmānujan. Sua importância foi comparada à descoberta da 10ª Sinfonia de Beethoven. Um século depois essas fórmulas têm sido utilizadas para compreender o comportamento de buracos negros. Srinivāsa Aiyangār Rāmānujan morreu aos 32 anos.

Texto dedicado ao mais exato dos amores.

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=BrC0hjuYNGo

Luciana Helena Mussi

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

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