O fim do começo…

O livro de Maria Célia Abreu “Velhice: uma nova paisagem”,  logo no primeiro capítulo, nos explica porque é preciso “começar este livro falando em sentimentos e valores em relação ao velho”, isto é, falando dos afetos (do que nos afeta, bem ou mal, nos toca, nos atinge, nos oferta sentidos).

Mario Sergio Cortella (*)

 

Muitas vezes a juventude é repreendida por acreditar que o mundo começa com ela. Mas a velhice acredita ainda mais frequentemente que o mundo termina com ela. O que é pior?” (Friedrich Hebbel, Diários)

Quando criança, bem longe do começo da preocupação com a minha própria velhice, sempre ficava perturbado pelo refrão do nosso Hino à Bandeira, por nós na escola cantado em mal uníssono todas as sextas-feiras antes do início das aulas. Afinal, a letra de autoria do nosso especial Olavo Bilac trazia pelo menos duas ambiguidades semânticas que poderiam, como toda verdadeira ambiguidade (tal qual o termo velhice!), terem dupla interpretação…

Lembra ainda? “Recebe o afeto que se encerra / em nosso peito juvenil”. Ficava eu agoniado com a possibilidade de o poeta usar o verbo encerrar como concluir ou finalizar, em vez de ser compreendido como recolher ou guardar; também achava meio estranho que o hino mencionasse somente o peito “juvenil”, no lugar de também incluir pessoas que não fossem somente da mocidade.

Claro que depois, ao estudar melhor, aprendi que a intenção de Bilac era um afeto que estava contido no peito de uma jovem república (o hino é de 1906), o que não me acalmou tanto assim, até ler, com gosto e alegria, este livro da Maria Célia!

Quando ela, logo no primeiro capítulo, nos explica porque é preciso “começar este livro falando em sentimentos e valores em relação ao velho” isto é, falando dos afetos (do que nos afeta, bem ou mal, nos toca, nos atinge, nos oferta sentidos), fiquei mais sereno.

Quando ela, a partir daí, vai escavando conosco as múltiplas camadas que precisam ser lapidadas e reformuladas sobre os muitos afetos que não se encerram (nossas perdas e lutos, nossas depressões e tristezas, nossos corpos e sensações, nossas sexualidades e erotismos, nossas memórias e histórias), vão ficando mais nítidas as paisagens que Maria Célia, com usual perícia, sugere que possamos procurar.

Quando ela, durante todo o livro, faz sugestões, sem nos impor receitas e admoestações (dar um pito, dizemos os mais antigos), é a mesma (e renovada) Maria Célia que conheço faz mais de quarenta anos, por termos partilhado docências e projetos acadêmicos nos quais ela, desde aquela época, sabia estimular a reflexão e instigar a ação, de modo manso e firme, sem nos deixar com um mau incômodo.

Mau incômodo? Ora, existe bom incômodo? Claro; é aquele que encontramos neste livro, ao nos desacomodar, nos tirar um pouco do aposento, nos “desaposentar”, fazer sair de possíveis enclausuramentos em busca de nova paisagem!

É por isso que o ensinamento central deste livro serve bastante para quem pela Vida não quer “encerrar o afeto” e, menos ainda, desprezar o afeto que por nós a Vida tem.

O melhor, após lê-lo, é retomar a sabedoria contida na frase que mais admiro de Winston Churchill, um homem que morreu com 90 anos (Nobel de Literatura em 1953, quando ele beirava os 80), incansável no afeto pela Vida.

Ao referir-se aos primeiros sucessos britânicos contra os inimigos que os fustigavam de forma inclemente na Segunda Grande Guerra, esforço de resistência por ele conduzido como Primeiro Ministro (com a idade de 70 anos!) advertiu e estimulou: “Isso não é o fim. Isso não é nem o começo do fim. Mas talvez seja o fim do começo”.

Querer, com longa idade e com esperança ativa, vislumbrar uma nova paisagem, já é o fim do começo…

(*)Mario Sergio Cortella escreveu o Prefácio de ABREU, Maria Célia de. Velhice: uma nova paisagem. São Paulo: Ágora, 2017.

 

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