O envelhecimento com suas diferentes velhices

Tenho 62 anos, sou aposentada e viúva com um filho casado que mora nos EUA com dois netos. Tenho vontade de passar um tempo com eles. Mas tenho minha mãe com 88 anos com problemas de invalidez e quadro de demência. Minha vida é solitária e triste, com muitos deveres nesse cuidar!!!

 

O fenômeno do envelhecimento é complexo e multifacetado, abrangendo dimensões biológicas, psicológicas, sociais, demográficas, jurídicas, políticas, éticas e filosóficas em torno do prolongamento da vida humana, no âmbito do indivíduo e da sociedade (Giacomin, 2012).

O progressivo envelhecimento mundial nos traz diferenças significativas entre o jovem idoso ou terceira idade (60/65-80 anos) com o muito idoso ou quarta idade (acima de 80 anos).

Na realidade brasileira, segundo dados do IBGE (2014), a expectativa de aumento da população idosa de 2010 a 2050 será de mudanças significativas, sendo que o número de idosos com 60 anos triplicará num total de 47,5 milhões e de mais de 80 anos quadruplicará, nos surpreendendo com 3 milhões em 2010 para 13 milhões em 2050.

Podemos dizer que o jovem idoso apresenta uma maior competência física e mental, altos níveis de bem-estar emocional e pessoal e apresenta estratégias efetivas para administrar ganhos e perdas na velhice. Entretanto, o muito idoso apresenta perdas em potencial cognitivo e na capacidade de apreender, considerável prevalência de demência (50% nonagenários), altos níveis de fragilidade, disfuncionalidade e morbimortalidade (Baltes & Smith, 2006).

Assim sendo, observamos que os jovens idosos no Brasil estão vivenciando esse momento de vida como cuidadores de seus parentes muito idosos ao invés de desenvolverem novos projetos de vida. É o caso dessa senhora que querendo viajar para ver filho e netos se sente “presa” ao cuidado de sua mãe muito idosa.

Na minha vivência prática de atendimento em consultório tenho recebido muitas pessoas na faixa de jovem idoso que gostariam de aproveitar esse momento existencial e realizarem novos desafios, concretizando assim alguns de seus sonhos.

Mas, devido ao cuidado de seus pais muito idosos, principalmente, as famílias brasileiras estão sendo surpreendidas com essas novas exigências nos cuidados de seus familiares muito idosos, além de questões de ordem financeira e instrumental desse cuidado.

É por isso que desenvolvo um trabalho de apoio psicológico ao cuidador familiar no sentido de prevenção ao estresse e estratégias de enfrentamento para encarar esse novo cuidado aos muito idosos.

Vamos cuidar das diferentes velhices!!!!

Referências

BALTES P. B.; SMITH J. (2006) Novas Fronteiras para o futuro do envelhecimento: a velhice bem-sucedida do idoso jovem aos dilemas da Quarta Idade. A Terceira Idade; 7 (36):7-31.

GIACOMIN, K. C. Envelhecimento Populacional e os Desafios para as Políticas Públicas. Capitulo 1 In Políticas Públicas para um país que envelhece Org. BERZINS, M. V. BORGES, M. C. 2012.

INSTITUTO BRASILEIRO de GEOGRAFIA e ESTATÍSTICA (IBGE) Censo demográfico 2014 (acesso 22 de outubro 2015). Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/população/per.

Eliana Novaes Procopio de Araujo

Eliana Novaes Procopio de Araujo

Psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP, especialista em Gerontologia pela SBGG e doutoranda em Ciências da Saúde na Faculdade de Saúde Pública da USP. E-mail: eliananovaespa@hotmail.com

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