O caminho para casa

Poucos diretores conseguiram desenhar um retrato de amor tão sensível como o chinês Zhang Yimou. Contando a história do amor inabalável de uma jovem mulher por seu professor, ele nos presenteia com essa bela história contada pelo filho. Reza a tradição: Devemos carregar os mortos sobre as montanhas, cruzando o rio, passando pela encruzilhada e no cortejo lembrar àquele que se foi: “Guarde, esse é o seu caminho para casa, esse é o seu caminho para mim”. Escrito para aquele que nunca cansou e nem desistiu de amar! 

 

Eu sempre digo que não somos nós que escolhemos os livros e os filmes. São “eles” que nos capturam com seus desejos alucinados de serem devorados, cada qual a sua maneira. E tudo isso se dá de forma mais intensa, quando o que está dentro de nós é a beleza, a emoção e as palavras que pululam por amor (eterna fonte de inspiração).

Assim, trilhando filmes que pudessem expressar a explosão vulcânica que se escondia dentro de mim, cheguei no delicado amor de Di ( Zhao Yuelin ), uma mocinha de 18 anos da aldeia de Sanhetun e seu professor Luo ( Zheng Hao ) vindo direto da cidade grande. Esse é “O caminho para casa”, filme do diretor Zhang Yimou que ganhou o prêmio máximo no Festival de Veneza de 1999. Um retrato sensível do amor inabalável de uma jovem mulher.

A história começa em preto e branco. Mais tarde saberemos que a falta de colorido apenas reflete a tristeza no coração da jovem Di: seu professor se foi.

A história do casal será contada pelo filho Luo Yusheng (Sun Honglei ) que retorna à sua cidade natal, Sahetun, na província rural de Hebei, para assistir ao funeral de seu pai: “Meu pai morreu de repente. Só fiquei sabendo ontem a noite. O prefeito ligou para me avisar. Eu não conseguia acreditar. Saí de lá para trabalhar na cidade grande. Ando tão ocupado que há anos não faço uma visita. Meu pai era professor da aldeia. Trabalhou lá toda a vida. Eu sou filho único, a única pessoa na aldeia que fez faculdade.”

40 anos se passaram, a jovem Di está velha e agora, sozinha. Seu marido e professor da aldeia tinha um sonho, reconstruir a escola, destruída pelo tempo, pela falta de recursos. Aquele que tem como ofício “ensinar” nunca esquece sua missão porque tem a generosidade na alma, partilha não só o conhecimento, mas todo afeto que semeia na troca com os alunos, seus fiéis admiradores.

O prefeito da cidade conta a Luo, o filho, o esforço que seu pai fez para realizar seu maior objetivo: “Por muitos anos, seu pai quis reconstruir a escola, mas sempre havia um empecilho. Ele voltou a tocar no assunto recentemente e a aldeia concordou. Nós temos o material, mas o dinheiro não basta. Seu pai estava determinado a levantar o dinheiro necessário. Ele começou a viajar para arranjar dinheiro emprestado. Percorreu a província toda. Ele ia para onde houvesse uma chance. Na última viagem, quando voltava para casa, ele enfrentou uma tempestade, uma forte nevasca. Ficou preso na tempestade e adoeceu. Estava doente demais para viajar. Ele voltou em péssimo estado, então o levamos para o hospital. Os exames revelaram que ele sofria do coração. Conhecemos seu pai há anos. Quem poderia imaginar isso? Os médicos tentaram salvá-lo, mas nada adiantou. Ele lutou, mas não resistiu”.

Abalado, o filho pergunta: “Onde ele está agora?”

Prefeito: “No necrotério do hospital. Por isso quisemos que voltasse. A aldeia quer providenciar um carro para trazer seu pai para cá. Trazê-lo aqui para enterrá-lo. Era o que planejávamos.

Mas há um problema: a sua mãe não quer usar um carro. Ela quer que seu pai seja carregado até aqui. Ela quer que o caixão seja trazido por pessoas a pé para que seu pai não esqueça o caminho de casa. É uma antiga tradição, uma superstição. E ela quer andar conosco. Ele era o professor da aldeia. Todos o respeitam, mas nossos jovens foram todos para a cidade grande trabalhar. Só sobraram velhos e crianças”.

Carregar os mortos é uma antiga tradição na região. Sobre as montanhas, cruzando o rio, passando pela encruzilhada. E no cortejo todos gritam: “Dizemos que aquele é o caminho de casa.”

É a segurança que temos, aquele que amamos sempre voltará porque conhece com intimidade cada pedra, cada atalho, cada armadilha do caminho. Todos os empecilhos são superados quando se trilhou um percurso muitas vezes. É como a tabuada, deve-se decorá-la, é o que dizíamos antigamente: saber de cor e não importa a ordem em que ela é recitada.

Agora o que resta para Di é tecer o véu que levará seu professor e estar ao lado dele, junto com seus alunos e moradores da aldeia: “Eu sei que o cortejo fúnebre não será fácil, mas seu pai morou aqui por 40 anos. Ele educou muitas gerações de crianças. A cidade deve retribuir de alguma forma”.

Movido pela determinação da velha Di, o filho nos conta a história de amor vivida por sua mãe com o recém-chegado professor. Uma foto dos pais ainda jovens, o leva ao passado, as lembranças, um dia contadas pelo próprio casal.

“Essa foto foi feita no ano em que meus pais se casaram. Meu pai não era de Sanhetun. Ele veio para lecionar. A história da corte de meus pais é bem conhecida na aldeia. Praticamente todos aqui já a ouviram”.

Voltando no tempo, com a chegada dos bons anos, da primeira visita do amor inocente de uma mocinha de 18 anos, tudo fica, surpreendentemente, ternamente, colorido: o campo se reveste de mais verde, as folhagens inquietas ficam mais rebeldes e o sol se aquece com a chegada do jovem professor. Como resistir a tamanha beleza? Era como se o mundo todo estivesse guardado naquele homem que chegava, poderoso, forte, detentor de todo conhecimento desse mundo e do outro. Ah, com uma simples troca de olhares, ele já era tudo para Di.

“Minha mãe tinha acabado de fazer 18 anos, meu pai tinha 20. Ela me contou que meu pai chegou numa carroça.”

É, os príncipes encantados chegam, normalmente, num cavalo branco. Mas o amor de Di, o amor de fazer calar todo ruído do universo, chega simplesmente numa carroça, sem recursos, sem sofisticação, apenas ele. E precisa mais?

Até os animais de Sanhetun abrem caminho para a chegada do professor, do amor difícil e hesitante da mocinha. Todos aguardam, ansiosos. Ela sorri, o coração já deu seu sorrateiro aviso.

Alguém diz: “Esse é o nosso novo professor, seu nome é Luo Changyu.”

A menina não desgruda os olhos do jovem professor cercado pelos homens da aldeia, cada detalhe é notado e guardado por ela. E num lance, seus olhares se encontram. E a menina de 18 anos corre, suas tranças parecem dançar como se celebrassem a chegada do amor. Seu casaco vermelho já grita de paixão, o caminho para casa se abriu.

Já em casa, a mãe de Di sente a excitação da filha pela chegada do professor. “Mamãe diz que quando meu avô morreu, ela chorou até ficar cega”, lembra o filho.

“A escola ainda não tinha sido construída quando meu pai chegou. O prefeito convocou todos os homens para ajudar na construção. É um costume da nossa aldeia pendurar uma bandeira vermelha nas novas construções. Ela é pendurada na viga do teto para dar sorte. Deve ser tecida pela jovem mais bonita da aldeia. Essa tarefa, naturalmente, ficou para minha mãe.”

“Na época, a aldeia tinha dois poços. O mais velho era chamado de poço da frente. O novo era o de trás. O poço novo ficava mais perto da aldeia e era mais usado. Depois que papai chegou, mamãe começou a ir até o poço velho, assim tinha de passar pela escola.”

E enquanto ela enchia seu balde de água, esperava por um sinal, o menor que fosse…ela o seguia com olhos curiosos, atentos. Que loucuras fazemos quando estamos apaixonadas! Todos os pequenos e ingênuos delitos são cometidos. Tudo para vê-lo e conseguir de volta um olhar, apenas um olhar.

“A aldeia tinha outro costume: durante uma nova construção, cada família preparava um prato para o almoço dos trabalhadores. Todos contribuíam. Mamãe preparava os melhores pratos que conhecia esperando que papai comesse o que ela cozinhava. Na época quando algo era construído, as mulheres não podiam participar. Segundo uma superstição elas davam azar. Durante a construção da escola, as mulheres só podiam ficar olhando de longe.”

Como Di era uma exímia cozinheira de quitutes deliciosos, o momento do preparo era sempre de grande emoção. Será que o professor identificaria, entre tantos pratos, o que ela cozinhou? Na verdade, eles nem ao menos sabiam o que cada mulher havia cozinhado. Eram vasilhas cheias que chegavam e, às mulheres, só restava recolher, ao final, as vasilhas vazias.

Dia após dia, a comida era levada e, ansiosa, ela esperava que ele conseguisse identificar o que havia sido feito por suas mãos. Um exercício de amor e dedicação em que o único desejo é o retorno de um olhar, uma palavra. Ouvi, certa vez, de um monge budista que aquele que ama, já se sente feliz por ter o amor dentro de si e saber da felicidade que isso traz ao outro, apenas isso.

Na escola, no ensinar de cada dia, o professor recita: “Na vida…repitam comigo, é preciso ter metas. É preciso aprender a escrever. É preciso aprender aritmética. Escrever fielmente num diário. Conhecer o presente e o passado. Respeitar os mais velhos”.

“Quando eu era criança, mamãe me contou que papai tinha uma voz linda. Ela nunca aprendeu a escrever, nunca quis frequentar a escola, mas não resistiu ao som da voz do papai. Desde aquele dia, ela sempre passava pela escola. Para a maioria, a escola deixou de ser novidade com o tempo, mas não para minha mãe. Por 40 anos ela passava lá só para escutar e aquilo se tornou parte de sua vida.”

“Todo dia depois da aula papai acompanhava alguns alunos até suas casas. Sabendo disso, minha mãe o esperava no caminho”.

De longe ela o espreita com as crianças, persegue seu caminhar, excitada com a perspectiva dele notar sua presença. Di o segue com os olhos, cada passo, cada movimento, cada palavra. Até que, claro, com tantos olhares insistentes o professor finalmente a vê. Ela fará muitas vezes o mesmo percurso na esperança de encontrar seu professor.

Chega o dia em que Di o recebe para almoçar em sua casa. Com um sorriso e uma certa timidez: “Papai me contou que na primeira vez em que visitou minha mãe, ela ficou esperando na porta apoiada no batente, parecia uma figura num quadro, uma imagem que ele jamais esquecera”.

Finalizado o almoço, Di, mais uma vez, curiosa, pergunta ao professor: “Lembra dessa vasilha?”

A mãe explica: “Quando a escola estava em construção, Di preparou suas melhores receitas. Sempre as levava nessa vasilha esperando que o senhor comesse”.

Ele, gentil, tenta remendar: “Agora, me lembro”.

Mas ela não se contenta com a resposta: “Então, o que preparei?”

Silêncio.

A mãe brinca: Parece que Di se esforçou em vão.

Mas quem ama, nunca desiste. Como ela quer vê-lo novamente, pede que ele volte para comer bolinhos de cogumelo.

E ela espera, até que ele chega com a triste notícia: “Eu vim me despedir. Vou voltar para a cidade”. O professor diz que retorna à Sanhetun até o dia 27. Mas, parecem palavras para consolar Di.

Como cada minuto com seu professor é tudo que ela mais quer, ela pede que, antes que ele parta, passe lá para comer os bolinhos. Após a delicada insistência da menina, ele diz que sim. E como despedida, tira do bolso uma presilha de cabelo e a presenteia: “para usar com o casaco vermelho”, ele diz com um sorriso maroto.

Di espera, mas ele não vem. Desesperada, ela corre para alcançá-lo no caminho, sem esquecer de levar os bolinhos cuidadosamente organizados na vasilha. Freneticamente, ela corre, mas não o alcança. No caminho, perde sua presilha, ela cai e quebra sua preciosa vasilha.

Chorando muito, Di recolhe o que sobrou, restos de si mesma. Mas como suportar a dor da distância? Sem saber se, um dia, ele voltará…mas os apaixonados tem, sempre, esperança. E ela espera.

“Minha mãe refazia aquele caminho todo dia procurando (uma parte dele) sem parar. Ela precisava achar a presilha que meu pai lhe dera. Certo dia ela encontra o presente, um sinal que valeu e sempre valerá o sentimento.”

Mudam as estações.

A mãe sabendo da tristeza da filha pede para que um “especialista em reparos” conserte a vasilha: “O homem que usava essa vasilha foi embora e levou o coração da minha filha com ele”.

O tempo passa e ela tece, enquanto espera.

Num certo dia, ela ouve a voz: 2×5 é 10; 2×6 é 12; 2×7 é 14; 2×8 é 16. É a tabuada. O som chega cada vez mais forte, vibra intensamente, é a voz do amor que reverbera pelos quatro cantos do coração e ela corre até a escola. Chegando lá ela, apenas, encontra o vazio, o silêncio: a escola está fechada. O professor não voltou.

Chega o inverno e Di decide deixar a escola arrumada para a chegada do professor: “Meu pai disse a minha mãe que enquanto dava aula sempre podia olhar para cima e ver a bandeira vermelha e então se lembrava de mamãe vestindo seu casaco vermelho. Mamãe ficou sentada na sala durante horas, naquele dia. A porta estava aberta e o prefeito a viu ali. Ele entendeu o que aquilo significava. Assim que soube, a notícia se espalhou pela aldeia rapidamente.

Casamentos eram combinados, na época, paixões eram algo raro. No dia em que meu pai prometera retornar, dia 27 de 1958, mamãe ficou à espera dele desde o alvorecer. Ela se lembrou da promessa de que ele voltaria no dia 27.”

Mais uma vez, ele não voltou. Ardendo de febre, fraca, Di reúne seus bolinhos e diz que vai para a cidade procurá-lo. No caminho, neva muito, Di não resiste e desmaia: “Mamãe não conseguiu chegar à cidade. Desmaiou no caminho. Alguém a viu e avisou o prefeito.”

“A primavera chegou. Ela derrete a neve. Os camponeses plantam. O boi ara a terra. Os gansos selvagens regressam. Os sapos começam a pular”. Di acorda após dormir dois dias seguidos. A mãe anuncia: “O professor voltou”.

“Nosso espírito revive. Carrega nossos desejos cheios de esperança. O mundo fica cheio de vida de novo”. Todos gritam: “Sr. Luo! Di veio ver o senhor! Di está aqui!”

“Naquela noite meu pai teve que partir de novo. Ele soubera do estado de minha mãe e saíra da cidade sem permissão. Por essa desobediência, meus pais ficaram separados mais dois anos. Alguém me contou que no dia em que meu pai finalmente voltou, mamãe vestia o casaco vermelho, o favorito de papai e ficou esperando por ele no caminho. Desde aquele dia, meu pai nunca mais deixou minha mãe”.

“Esta é a história do meu pai e da minha mãe. Esta estrada faz parte da história de amor dos dois, o caminho que vai da cidade até a nossa aldeia. Talvez por causa da esperança que representava quando ela esperava a volta de meu pai, ela quer percorrê-la ao lado dele uma última vez.”

E tudo volta a ficar preto e branco…é a realidade, a constatação da ausência do Professor Luo, 40 anos depois.

Di (velha) e o filho estão à frente do cortejo de volta para casa. Cumprindo a tradição, os homens gritam: “Professor, estamos voltando para a aldeia!”

“Naquele dia mais de 100 pessoas apareceram para o cortejo. O prefeito disse que eram alunos de meu pai. Todos que souberam da sua morte apareceram. Muitos vieram de outras cidades, alguns vieram de carro da cidade grande.”

Sob forte nevasca, os alunos, o filho e Di levam o professor de volta para casa.

“A pedido de minha mãe, meu pai foi enterrado perto do velho poço. Minha mãe diz que desta colina meu pai pode ver a escola. Ela quer ser enterrada ao lado dele, quando a hora chegar.”

Agora, finalmente, o professor já está em casa e pode descansar.

Di: “Poucos professores tem uma voz como a de seu pai. Depois de 40 anos ainda amo aquela voz. Ainda consigo ouvi-lo”.

A imagem da velha e da jovem Di se unem, ouvem a voz do professor e, mais uma vez, correm para a escola na esperança que o amor ainda esteja lá.

E ele está, a alma nunca morre: “É preciso aprender a escrever fielmente num diário. Conhecer o presente e o passado. Primavera, verão, outono, inverno, as 4 estações. Leste, oeste, norte, sul. Em tudo há um propósito.”

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=baklfkiYJ2Y

Luciana Helena Mussi

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

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