Nossa Senhora Aparecida, rogai por nós, velhos do Brasil

Eu e meus pais acendemos diversas velas. Nossa Senhora Aparecida conceda-me a graça de ser velha, dizia eu. De viver e enrugar. De amar só por amar.

 

Fazia tempo que desejava conhecer o Santuário de Aparecida e quando a oportunidade de passar o dia lá junto aos meus pais surgiu, não pensei duas vezes. Este seria o momento ideal de visitar o maior templo católico do Brasil e o segundo maior do mundo, ficando atrás apenas da Basílica de São Pedro no Vaticano. Apesar de não me considerar uma pessoa religiosa, confesso que sou uma pessoa de fé. Sou capaz de encontrar um Deus grande, forte, bom e poderoso e que é capaz de ajudar a enfrentar as desavenças da vida. Tenho lá as minhas crenças. Acredito em muitas coisas e duvido de outras tantas.

Recentemente, entrar em contato com o pensamento do filósofo Michel Foucault serviu como uma grande provocação, aliás, creio ser esta a intenção de todos os filósofos que através de suas reflexões profundas, nos tiram do mundinho confortável que construímos para nos proteger. Aprender a pensar nos coloca em processo de evolução constante, mas não é fácil. Pensar é modificador e isso pode ser perigoso para os governantes que preferem um povo incapaz de questionar fatos e a própria existência.

Em sua reflexão, Foucault analisa uma modernidade que investiu no controle, no poder e em todas as formas de dominação, transformando a verdade em um conjunto de regras impostas aos dominados pelos dominadores. A religião, nada mais seria do que uma maneira de controlar a sociedade.

Lembro que cada aula sobre Foucault provocava uma avalanche de perturbações que foram modificando meu pensamento e até minha maneira de existir.

Sabemos que é o homem quem faz a religião e é aí que morre o perigo, já que ele é capaz de usar o sagrado a seu favor.

O fato é que ao visitar Aparecida, assim como nas aulas de Foucault, algo aconteceu. A energia da fé daquele lugar reverberou de uma maneira indescritível.
Comecei a prestar atenção nas sensações que ocorriam e olhava para tudo com olhos atentos que buscavam compreensão para aquilo que sentia.

Os velhos ali presentes demonstravam em cada ruga a marca da fé que parecia ser uma condição de vida na velhice. Lágrimas escorriam por rostos enrugados enquanto mãos idosas agarravam-se aos terços. A importância de viver a velhice com fé era ali retratada e já comprovada em diversos estudos científicos.

Nossa Senhora Aparecida é a padroeira do Brasil e é a padroeira dos velhos que imploram por dignidade na velhice.

A imagem, em destaque no Santuário, foi encontrada por três pescadores nas águas do Rio Paraíba do Sul em 1717 quando, após diversas tentativas, em vão, de pescar com a rede, uma imagem da santa sem a cabeça foi fisgada.

Mais uma vez a rede foi jogada e as águas do Rio Paraíba entregaram, por fim, a cabeça que completava a imagem.

Após o ocorrido, a pescaria passou a ser farta e a Nossa Senhora, aparecida nas águas do Rio Paraíba, foi colocada na casa de um dos pescadores. O povo da aldeia começou então a “visitar” a santa para poder orar e devotá-la. Foi desta maneira que a crença por Nossa Senhora Aparecida começa a ganhar força e a cada milagre atribuído a ela mais e mais devotos apareciam. De lá para cá Nossa Senhora foi ganhando “casas” novas para poder acolher o número de fiéis que não parava de crescer. Em 1888 a Princesa Isabel, em sinal de agradecimento a uma graça alcançada, presenteia a imagem com uma coroa de ouro e brilhantes e um manto azul ricamente adornado. Uma história que é cheia de poesia e fé, assim como a velhice. Em 1980 o Papa João Paulo II consagra a Basílica de Aparecida como o Templo da Nossa Senhora, capaz de abrigar até 45000 fiéis. Velhos, jovens, crianças e adultos. Pessoas de todas as idades e tipos frequentam o Santuário e em comum possuem a devoção e o amor pela padroeira.

Romeiros cavalgam distâncias enormes e peregrinos andam debaixo de um sol escaldante com seus cajados e muitas bolhas nos pés. A fé em nossa Senhora conduz seus passos e pensamentos.

Na velhice o momento é propício para se viver a fé. É a fase da vida em que, finalmente, podemos parar de ser egoístas para exercer o altruísmo. A sabedoria comprova que sozinho não somos nada.

O Santuário é gigante! Em tamanho e em crença. A arquitetura em formato de cruz é de Benedito Calixto Neto e está localizado no município de Aparecida no estado de São Paulo. Famílias se enroscam em abraços emocionados enquanto lágrimas são derramadas. A Arte está em toda parte e não é à toa: A Arte é divina.

Na Capela do Santíssimo, localizada à direita do altar central, a beleza dos mosaicos italianos presenteados pelo papa João Paulo II em sua primeira visita ao Brasil em 1980, encantam os fiéis. Os painéis do artista brasileiro Adélio Sarro representam a cena do Lava pés e o caminho de Emaús. A Arte nos eleva ao Sagrado e isso é evidente dentro da Basílica.

A sala dos milagres carrega em seu enorme teto inúmeras fotografias de pessoas que oram, imploram desejos, agradecem graças alcançadas e entregam toda glória da vida a Nossa Senhora Aparecida. Indescritível a sensação de estar ali. Desejos podem ser registrados em um pedaço de papel e depositados numa espécie de urna. Escritos com a fé que encontramos em nossas mais profundas vontades, a certeza de ter a graça alcançada pulsa nos corações.

Desejar uma velhice rodeada de afeto e fé para mover barreiras impostas pelo tempo. Almejar que esta fase seja repleta de desejos e sonhos são aspirações de todos nós que envelhecemos dia após dia.

Na sala das velas, a luz das chamas invade nosso espírito e “ilumina a mina escura” como já dizia a canção.

Eu e meus pais acendemos diversas velas. Nossa Senhora Aparecida conceda-me a graça de ser velha, dizia eu. De viver e enrugar. De amar só por amar.

Meu pai de 80 anos ofereceu a luz para os que já partiram, afinal tantos foram os ancestrais que contribuíram para que ele se tornasse o velho que hoje é. Minha mãe rezava e iluminava com suas velas toda família que ela amorosamente constituiu.

Olhava para eles e agradecia por tê-los ao meu lado e pelos valores de vida que pude aprender.

Tudo que fazia parecia ser pouco perto do que estava sentindo. Não creio que tenha sido capaz de demonstrar a Nossa Senhora todo aquele sentimento. Talvez não saiba rezar o suficiente.

Saio de lá renovada e com uma certeza gritante: Quero ser uma velha de fé! De muita fé! Da fé que move montanhas e ampara as velhices.

No ônibus, de volta para casa, penso em Foucault e no meu amor por seu pensamento. Penso no poder pastoral que conduz o rebanho. Penso no governo, na religião e no controle sobre o povo.

Cansada, fecho os olhos e permaneço com um poder ainda maior. Inquestionável.

Olho para meus pais ao meu lado. Com eles tenho aprendido a envelhecer. Penso no Foucault e peço desculpas.

Como eu não sei rezar, só queria mostrar meu olhar, meu olhar, meu olhar…

Exausta, cantarolando adormeço.

OBS.: No site do Santuário de Aparecida é possível acompanhar em tempo real o que acontece por lá e ter suas velas virtuais acesas com seus desejos expressos.

Fotos: Cristiane T. Pomeranz

 

 

 

Cristiane T. Pomeranz

Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. E-mail: crispomeranz@gmail.com

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