Normose

Jean-Yves Leloup, Pierre Weil e Roberto Crema denominam de normose a patologia da atualidade, que é viver de forma normal, ou por escolhas ou por um conjunto de comportamentos, atitudes e hábitos dotados de consenso social e patogênicos em diversos graus de gravidade. Ou seja, vivemos no trivial, na maioria das vezes. Aprendemos isso com nossos pais e repassamos aos sucessores, uma forma de viver, ou de não viver. Ninguém está livre, até que tenha consciência da “prisão” que se encontra.

 

Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre.” (Carlos Drumond de Andrade, in Receita de Ano Novo)

Sempre que leio este texto ou recebo votos de Ano Novo, me pergunto como fazer um ano novo, realmente novo. Por vezes, o costume é fazer uma carta de intenções, com metas a serem realizadas.

Mas, se olharmos de pertinho, sabemos que novas atitudes não precisam aguardar o ano novo. Ela surge quando temos qualquer descontentamento de vida, qualquer incômodo, qualquer sintoma físico, psicológico, social. Podemos passar uma vida inteira meio que anestesiados, seguindo o fluxo do cotidiano, acreditando que em time que está ganhando não se mexe, que para quê buscar a dor do novo, para quê sair da zona de conforto? Às vezes nos adaptamos a esse desconforto, pesamos e medimos as situações e optamos por deixar passar a angústia e se conformar com o que a vida traz. Quanto mais caminhamos na estrada da vida fazendo essas concessões, mais entristecidos, temerosos, e distantes de nossa essência ficamos. Observamos uma dorzinha no fundo da alma de ver que conhecemos e obtivemos tudo que nos foi possível, mas não nos conhecemos nem obtivemos nossa própria liberdade de essência.

A dificuldade vem por estarmos presos aos padrões normais de vida. Nascer, ir para escola, passar por todo processo de desenvolvimento cognitivo, sendo um no meio de muitos, ter a turma de amigos na adolescência, o primeiro amor, a vida profissional, tudo seguindo script perfeito.  É normal. E na vida nos deparamos com situações normais – Casas desabando em períodos de chuva é normal, corre-corre de fim de ano, é normal, engarrafamento, presentes, contas….tudo é normal. Essa ideia de que está tudo bem, tudo certo, conforme, dentro do normal, são ideias que nos anestesiam, que não nos permite fazer escolhas livres, porque estamos baseados em estados normais, ou normóticos.

Jean-Yves Leloup, Pierre Weil e Roberto Crema denominam de normose a patologia da atualidade, que é viver de forma normal, ou por escolhas ou por um conjunto de comportamentos, atitudes e hábitos dotados de consenso social e patogênicos em diversos graus de gravidade. Ou seja, vivemos no trivial, na maioria das vezes. Aprendemos isso com nossos pais e repassamos aos sucessores, uma forma de viver, ou de não viver. Ninguém está livre, até que tenha consciência da “prisão” que se encontra.

As condições normais de vida embotam nossa criatividade, limitam nossa expansão como pessoa, nos faz achar que envelhecer é estar perto do fim. Que final de ano é fim de fase, que o luto, a perda, a dor são negativos e por isso a esperança se renova no Réveillon, em um nascimento, numa mudança de casa ou trabalho. Mas quem tem que renovar, somos nós. Olhar para nosso umbigo e entender porque aquela sensação de perda, de cansaço, de apatia, e até a necessidade de fazer, de agradar, de presentear é uma escolha livre ou é uma informação da nossa própria alma pedindo para uma evolução, para uma quebra de paradigma, uma transcendência para uma vida plena.

É-nos muito difícil reconhecer a necessidade de mudança para atingir uma vida plena. Que nossos desejos de ano novo sejam de transcendência, de evolução,  nos preparem para um envelhecer harmonioso, realizado, satisfeito consigo mesmo. A vida é dinâmica, quer de nós saúde e coragem para vivê-la, entendendo qual o propósito de estarmos vivos, de estarmos aqui, de qual é nossa missão.

Urge fazer um ano novo realmente novo, quebrando os padrões de culturais de impaciência (advindo da crença da competição, da lei do mais forte, da máxima do que é bom para mim é bom para o outro), de estresse por mais trabalho por mais dinheiro (onde vibra a crença da escassez), do tempo que voa, sejamos rápidos (para quê, se temos uma eternidade para viver)?

Roberto Crema sempre sugere, lindamente, que para sair da normose, precisamos fazer florescer nossa própria plenitude, nossa capacidade de fazer por vocação e não por obrigação. É hora de construir um futuro em que nos vemos plenos. Como? “É dentro de si que o ano novo cochila e espera”, Desperte! Plenamente…

 

Ana Cristina Curi

Ana Cristina Curi

Psicóloga formada pela PUC-MG. Especialista em terapia sistêmica e psicologia transpessoal. Membro do Colégio Internacional de Terapeutas. E-mail: anacristinacuri@yahoo.com.br

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