No calor das memórias em Aquarius

Como a história é nossa e sempre depende da linguagem para virar verdade (ou não), esse é mais um dos tantos segredos que guardamos nas “cômodas” das nossas “casas”. Então, abrindo a gaveta do filme Aquarius, encontramos os confrontos, a resistência contra os medos que invadem os instantes e a homenagem aos afetos que nos fazem seguir, pelo menos por mais um dia (ou, com sorte, dias).

Escrito por  Luciana Helena Mussi (*)

 

Gosto de pensar em Aquarius (Diretor: Kleber Mendonça Filho) como um filme que trata da tênue linha das memórias que une uma lembrança à outra, passado e presente, num vaivém de emoções bombardeadas minuto a minuto, na surpreendente e inexplicável invenção de Deus… chamada vida.

Assim a magia do cinema se faz presente com a grande tela se abrindo ao som do saudoso cantor e compositor Taiguara (Montevidéu, 1945-São Paulo, 1996): “Hoje / Trago em meu corpo as marcas do meu tempo / Meu desespero a vida num momento / A fossa, a fome, a flor, o fim do mundo […]”.

Na primeira estrofe do poeta – considerado um dos símbolos da resistência à censura durante a ditadura militar brasileira com 68 canções censuradas – já podemos prever “tudo” que nos espera; resultado dos registros deixados pela vida vivida, um lance, um instante nas tatuagens coloridas e em preto e branco, cravadas na pele, delicadamente guardadas no calor da alma.

E, para nós, a história de Clara (Sônia Braga) – jornalista e crítica de música, viúva, última moradora do Aquarius, edifício antigo na valorizada orla da praia da Boa Viagem, Recife (PE)– começa na festa de aniversário da Tia Lucia, em 1980.

Já na primeira cena, enquanto as crianças leem a singela mensagem, homenagem à ativista, à senhora de cabelos brancos que, timidamente, a tudo ouvia, somos surpreendidos por aquele olhar perdido da mulher, fixado num certo móvel da sala, uma espécie de cômoda que esconde em suas gavetas as lembranças mais calientes, eróticas da Tia Lucia.

Sim, agora é a vez do túnel do tempo, o protagonista nos recuerdos que, naquele momento, já eram passado. E o brinde final… “esse” é dedicado ao amor concretamente falecido, mas vivo, não só no sexo ainda pulsante da Tia Lucia, mas também no espírito que é eterno.

Ah… se os móveis e, porque não dizer, um certo olhar distraído falasse pelos entremeios das nuvenzinhas que repousam sobre as nossas cabeças…o que seria, hein?

Como a história é nossa e sempre depende da linguagem para virar verdade (ou não), esse é mais um dos tantos segredos que guardamos nas “cômodas” das nossas “casas”. Então, abrindo a gaveta de Aquarius, encontramos os confrontos, a resistência contra os medos que invadem os instantes e a homenagem aos afetos que nos fazem seguir, pelo menos por mais um dia (ou, com sorte, dias).

“Hoje / Trago no olhar imagens distorcidas / Cores, viagens, mãos desconhecidas / Trazem a lua, a rua às minhas mãos […]”. Clara, de forma implacável, luta pela preservação da memória construída no amor pelos seus, na gentileza, na igualdade dos diferentes, na solidão da música dançada e cantada apenas por ela, na devassidão do sexo urgente, molhado, sem identidade, pago.

O filme não se faz pela nostalgia de uma mulher que, teimosamente, insiste e bate o pé que de lá não sai. Não, ele é muito mais quando nega, enfrenta e não se rende ao business da especulação imobiliária representada pelo jovem engenheiro Diego (Humberto Carrão) que quer demolir o Aquarius para construir mais um dos tantos luxuosos empreendimentos que “infestam” (como cupins) as grandes capitais.

A memória de Clara não está à venda, o amor que sentimos pelas lembranças jamais, e em tempo algum, é precificado. E não me venham falar de apego que, assim como o velhinho de Up! Altas Aventuras, pego minha casa, uma meia dúzia de balões, as comidinhas que gosto de fazer – minhas lembranças – e lá vou eu, rumo aos céus!!!

Aquarius é um filme provocativo, talvez, não sei, pela presença de Sonia Braga. Muitos, sem nem ao menos conhecerem a história, lançaram críticas infundadas. Quem sabe esses sejam os politicamente corretos com seus discursos rasteiros e pobres (fora ao Estado Islâmico!).

Ver Sônia Braga, logo nos primeiros minutos do filme, vestida com uma saída de praia branca, carregando no olhar as lembranças da minha juventude, dos meus 18 anos, já valeu pelos ditos e não ditos da história.

Gosto de pensar que a memória nos protege e acolhe na dança do tempo e, ainda, traz os erros e acertos dos dias vividos e registrados nas rugas, no curvar do corpo, na lenta ou súbita transformação dos cabelos; de pretos a prateados.

“Mas hoje / As minhas mãos enfraquecidas e vazias / Procuram nuas pelas luas, pelas ruas / Na solidão das noites frias por você […]”.

E com você e por você, nem que seja na árida imensidão da solidão… a chegada, a volta, o retorno, compensam a partida na redescoberta de mim mesma.

“Ah, sorte / Eu não queria a juventude assim perdida / Eu não queria andar morrendo pela vida / Eu não queria amar assim / Como eu te amei”.

 

(*)Luciana Helena Mussi – Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: lucianahelena@terra.com.br. Currículo Lattes Aqui

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