Não há nenhuma instituição pública em Cuiabá

A interdição recente de dois abrigos para idosos trouxe à tona mais um problema crônico em Cuiabá. Sede da Copa do Mundo de 2014, a capital mato-grossense, onde está sendo investida verba faraônica para a construção de estádio, não tem hoje um lar público que oferece atendimento digno as pessoas da chamada terceira idade.

Joanice de Deus * do Diário de Cuiabá

 

“A atenção ao idoso é dever da família, mas do Estado também. O poder público precisa criar uma rede de política social à pessoa idosa. Em 2025, seremos o 6º país mais envelhecido do mundo e é necessário que se articule projetos e ações com todas as secretarias como Saúde, Educação, Transporte, Habitação e a Assistência Social”, reivindicou a presidente do Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa (Comdipi), Iva Ferreira Gonçalves, lembrando que a proteção ao idoso tem assento constitucional.

De acordo com dados do Comdipi, atualmente a capital conta com cinco casas, incluindo as embargadas, onde vivem ao menos 200 pessoas acima dos 60 anos. Das cinco instituições, quatro são particulares e uma filantrópica. “Não há nenhuma instituição pública em Cuiabá. Nós estamos lutando para a construção de uma casa lar ou para o aluguel de algum imóvel que garanta o mínimo de dignidade”, reforçou o pedido.

Além de problemas estruturais e de acessibilidade, Iva Ferreira diz que, no geral, os lares para idosos existentes na capital não oferecem condições digna de vida e de recursos humanos preparados e capacitados para assistência durante o dia e, especialmente, à noite. “Não vemos nos asilos projetos sociais e programas de saúde”, afirmou.

Conforme Iva Ferreira, um ou outro asilo oferece uma estrutura um pouco melhor, mas ainda assim, todos têm ausência dos mais diversos profissionais como o de gerontologia e psicologia, sendo que os preços cobrados pelas instituições privadas variam de R$ 1.200 a até R$ 3 mil. Os idosos ainda colaboram com parte de suas aposentadorias para a manutenção das casas.

“Toda nossa aposentadoria está aqui nesta porcaria”, reclamou na última quinta-feira a dona M.A.S., 73 anos, abrigada no Recanto dos Idosos, fechado no mesmo dia pela Vigilância Sanitária e pelo Comdipi. No lugar há 24 idosos.

A outra instituição interditada, no fim de janeiro passado, foi a Bem Me Quer, que fica no Jardim Califórnia. Nos dois casos, foi dado o prazo de 15 dias para a transferência dos abrigados para as suas respectivas famílias ou, no caso daqueles que não têm, para um local apropriado.

Por meio da assessoria de imprensa, o secretário de Assistência Municipal de Assistência Social e Desenvolvimento Humano (SMASDH), José Rodrigues Rocha Júnior, informou que profissionais do órgão municipal acompanham a transferência dos idosos para garantir que eles sejam abrigados em locais que ofereçam estrutura e condições salubres, mas que a obriga de realocá-los é da própria instituição.

Até a última sexta-feira (08/02), nenhum idoso dos abrigos interditados havia sido transferido, conforme a SMASDH. Disse também que a administração não pode assegurar a construção de um lar municipal para idosos no momento.

Gratidão

Muitos têm dificuldade ou alegam faltam de condições para dar a atenção necessária aos pais idosos. A recepcionista Francisca de Assis Pinheiro, 40 anos, sabe disso. Mas nem por isso deixou de cuidar bem dos pais Simão Pinheiro, de 86 anos, e Laurentina, que faleceu ano retrasado aos 78 anos. “É uma forma de retribuir o que ele fez por mim. A responsabilidade não é de asilos e nem dos vizinhos. É da família”, acredita.

Francisca Pinheiro reconhece que não é fácil. Por vezes, deixou de sair ou ir a festas para cuidar dos pais. Porém, ela não reclama. “É um cuidado 24 horas. Não é para que se sintam inúteis, mas cuidados. Por diversas vezes faltei ao trabalho para levar minha mãe para fazer hemodiálise. Meu pai tem Mal de Parkinson e não pode sair sozinho, precisa estar sempre acompanhado. Ele é muito arteiro”, disse.

Seu Simão reconhece o carinho da filha. “Gosto de morar com ela. É a que cuida de mim. Os outros só me visitam de vez em quando”, comentou.

Pai de sete filhos, seu Simão diz que sente falta da presença mais constante da sua prole, mas que a solidão aumentou após o falecimento de sua esposa. “Sinto falta dela”, afirmou.

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