Mulher e envelhecimento

Artigo reúne dados relacionados ao envelhecimento e à questão de gênero com o propósito de aprofundar conhecimentos sobre a feminização do envelhecimento e identificar alguns gargalos e tendências sobre o tema.

Por Lucila Egydio(*)

 

O gênero e a classe social estruturam as expectativas e conformam a ação social em todas as idades, e a construção social de gênero engloba todos os aspectos do envelhecimento em cada contexto socioeconômico, cultural e institucional. Ao envelhecer, paradigmas da vida pregressa em relação a identidade de gênero são amplificados ou simplesmente reproduzidos. Ou seja, o papel da mulher tende a se manter ou ser piorado na velhice. A longevidade exige o desenvolvimento de um novo paradigma, que inclua um novo contrato social entre mulheres e homens.

Segundo Pedereño (2000), não é o mesmo envelhecer para homem e mulher, pois sexo e idade são os dois determinantes básicos e universais dos papéis e a posições que ocupam na sociedade. Até recentemente, esses dois dados simples definiam alguns dos fatores mais importantes dos indivíduos, como a sua situação familiar, o seu grau de autonomia econômica ou capacidades físicas (DÍAZ, 2000).

A identidade de gênero tem sua formação a partir das diversas expectativas sociais e também da construção econômica, política, social e histórica dos papéis masculino e feminino. Essa construção faz parte tanto das atribuições de significados ao existir humano, bem como influenciam o modo como os seres humanos elaboram suas escolhas e as experimentam (CAMPOS, 2014). No passado havia um acordo tácito de que o papel feminino restringia-se à reprodução biológica e à dedicação à família, enquanto o papel exclusivamente produtivo e externo na família era papel masculino.

O papel social das mulheres foi mudando, ao longo da história e conforme a organização dos grupamentos humanos. A Idade Média teve como marca a imposição do patriarcado e o controle moral das igrejas cristãs sobre a sociedade, e a parceria entre homens e mulheres consolidou-se como uma relação de desigualdade e opressão (CAMPOS, 2014). Mas, essa relação não é exclusividade dessa época histórica, mas firmou-se, desde então, que às mulheres caberiam os cuidados domésticos, contribuindo para que as diferenças de relação de gênero fossem enraizadas na sociedade de forma geral.

Somente em função das dificuldades econômicas, da miséria e da carência de mão de obra masculina, gerada pelas guerras mundiais, é que as mulheres foram chamadas ao mercado de trabalho e uma vida fora do lar. Mesmo assim, ocupavam os piores postos de trabalho e recebiam salários menores e foram sujeitas a situações de opressão. Há que se considerar, no entanto, que esta situação causou uma ruptura significativa no paradigma que diferencia o mundo do trabalho do mundo doméstico e confronta homens e mulheres assumindo os mesmos papéis (CAMPOS, 2014).

O fator geracional também ganha relevância nessa análise, dado que toda geração é delimitada pela sucessão de conjunturas históricas em que vive, ou seja, a perspectiva de gênero e a trajetória de vida de homens e mulheres como construção social e cultural vêm determinando diferentes representações e atitudes em relação à condição de velho (a) (MOTTA, 1999). Pedreño (2000) pondera que a geração de mulheres mais velhas desenvolveu um curso de vida muito marcado pela tradição, sujeitadas ao pai e ao marido. Para elas, o ambiente doméstico e para eles, o de ser o sustento econômico e trabalhar fora de casa, o que teve como consequência uma série de restrições sociais cuja pior consequência é a subvalorização social, seja na juventude, na idade madura ou na velhice.

Na modernidade ocidental, ser velha é, sobretudo, ter perdido a importante condição social de reprodutora e as desigualdades persistem na idade avançada por vários motivos: tradições culturais, interesses e estilos de vida diferentes ou diferenças biológicas, além da influência das normas sociais adquiridas nos anos de formação das atitudes adotadas durante o curso da vida.

Recentemente, algumas pesquisas têm apontado que, a despeito das desigualdades, muitas mulheres, independente da classe social, consideram esta etapa de sua vida, como idosas, o momento mais livre que já tiveram. O movimento feminista começa a incorporar outras facetas no comportamento e autoimagem de mulheres que começam a chegar à velhice. Mesmo que as desigualdades de gênero persistam, há uma perspectiva mínima de maior enfrentamento, e que a formação mais afeita às conquistas do feminismo traga novos elementos à velhice também. As conquistas das mulheres vão, aos poucos, sendo incorporadas às novas formas de envelhecer. Parece haver perspectivas de mais diversidade ainda na velhice. E isso é muito positivo.

Pode-se prever que as próximas velhas senhoras sejam mais livres e tenham uma força coletiva maior.

Referências

CAMPOS, A.C.V. Envelhecimento, Gênero e Qualidade de Vida. Tese (Doutorado em Odontologia – área de concentração em Saúde Coletiva) – Programa de Pós- Graduação em Odontologia da Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2014.

DÍAZ, J. P. La feminización de la vejez. – Revista Catalana de Sociologia. – Centre d’Estudis Demogràfics, 2000.

MOTTA, A. B. As dimensões de gênero e classe social na análise do envelhecimento. Cadernos Pagu (13): pp.191-221. 1999.

PEDREÑO, M. H. Desigualdades según género en la vejez. Edita: Secretaría Sectorial de la Mujer y de la Juventud. Maquetación y Diseño: Pedro Manzano. Imprenta Regional. Fotocomposición: CompoRapid, S.L. 2000.

Leia o artigo na íntegra na Revista Portal de Divulgação Nº 54, Ano VIII – Out/Nov/Dez 2017, clicando aqui.

(*) Lucila Egydio é bióloga, especialista em ecoturismo e consultora em sustentabilidade e desenvolvimento. E-mail: lucilaegydio@gmail.com

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