Michelina Pasquini, 83 anos, muito trabalho e pouco remédio

Nasci no dia 15 de setembro de 1925, Itália, na cidade de Lucca. Meu pai chamava-se Enrico Vannucci e minha mãe, Maria Vannucci. Depois que eu nasci, meu pai veio para o Brasil e eu fiquei com minha mãe na Itália, diz Michelina Pasquini.

Marisa Feriancic

Em 1934, com aproximadamente dois anos, eu vim com minha mãe para o Brasil encontrar meu pai. Minha avó paterna teve 6 filhos. Meu pai foi o único filho que nasceu na Itália. Os outros filhos nasceram no Brasil.

Quando viemos para o Brasil, minha mãe trabalhava, tínhamos uma casa, estava tudo bem até que meu pai adoeceu. Ele tinha um problema cardíaco e naquela época as pessoas que tinham problemas do coração eram proibidas de exercer algumas atividades físicas, não podiam fazer quase nada porque fazia mal. Agora as coisas estão diferentes.

No Brasil minha mãe teve mais um filho, meu irmão Enrico.

Com a doença do meu pai, minha mãe quis voltar para a Itália. Ela tinha receio que meu pai falecesse no Brasil e ela ficaria sozinha com dois filhos pequenos. Meu pai não queria voltar para a Itália. Ele amava muito o Brasil e também tinha medo de não conseguir emprego na Itália e depois não ter dinheiro para voltar ao Brasil se fosse necessário.

Em 1934, fomos para a Itália. Em dezembro do mesmo ano meu pai faleceu.

E aí começou a luta, minha mãe viúva, com apenas 33 anos, e dois filhos para criar. Eu com 9 anos e meu irmão com 5. Minha mãe não encontrava trabalho. Comecei a trabalhar para ajudar minha mãe. Uma amiga dela tinha uma criança pequena e pediu que eu tomasse conta da criança. Eu cuidava do menino e fazia a faxina da casa. Essa senhora era muito exigente. Eu limpava o chão de joelhos, na época, fazia muito frio, quase congelava minhas mãos. Quando eu chegava em casa dizia à minha mãe que não agüentava mais trabalhar lá. Eu era muito pequena, mas a situação era difícil para todos. Minha mãe dizia que assim que arrumasse trabalho, me tiraria desse emprego.

Quando mamãe conseguiu emprego em Lucca, fiquei em casa tomando conta do meu irmão. Ele era muito mimado. Eu que costurava e cuidava das roupas dele. Atualmente, ele está passeando na Itália. Um dia, ele saiu para brincar e chegou em casa só de cuecas. Eu fiquei alarmada e ele me disse: você sempre acha ruim que eu me suje, aqui está minha roupa. – Tome, ela está limpinha. Foi muito engraçado, meu irmão sempre deu muito trabalho.

Meu irmão Enrico

Quando meu irmão Enrico tinha 6 anos, engoliu o apito de uma corneta de brinquedo. Ele abriu o brinquedo, ao meio, levou o apito à boca e acabou engolindo as lâminas.

Ele tossia sem parar, mas nós não sabíamos o que era. O médico achava que a tosse era pneumonia. As lâminas grudaram na garganta. Quando pediram um raios-X, perceberam que tinham um corpo estranho, mas não conseguiam perceber o que era. Perguntaram para minha mãe se ele tinha engolido alguma coisa, ela disse que certa vez ele comentou ter engolido um apito, mas achou que ele já tinha sido eliminado. O médico pediu para comprar uma corneta, para comparar e ver se tinha alguma semelhança com o objeto. Percebeu que era igual. Levaram Enrico para o hospital e ele ficou amarrado com a cabeça para baixo durante dois dias. Tossiu tanto que consegui eliminar uma lâmina, mas a tosse persistiu e provocou várias hemorragias. Ele ficou internado no hospital durante 2 anos.

Minha mãe trabalhava e eu ia todos os dias ao hospital cuidar dele. Cada vez que ele tinha hemorragia, a freira colocava um lençol que ficava todo ensopado de sangue. Um dia o médico falou para minha mãe: a senhora tem que ficar preparada, um dia ele não aguenta mais perder tanto sangue. Decidiram colocar um tubo até onde estava a outra lâmina para ver se saía, mas não adiantou.

Ele tomava vitamina para recuperar a perda de sangue, não podia abusar, mas ele não parava quieto. Fugia para um terreno do hospital onde tinha uns bodes que eram usados para pesquisa, ele corria e brincava o tempo todo. Circulava por todos os cantos, parecia que era dono do hospital. Tinha muitas crianças internadas, por causa da diabete. Naquele tempo era necessário internar. Cuidei muito dele enquanto minha mãe trabalhava, até hoje ele me chama de mãe, apesar de ser só 5 anos a nossa diferença de idade.

A Irmã que trabalhava no hospital dava a chave do almoxarifado para o Enrico e pedia para ele pegar algodão, oxigenada e outras coisas pequenas. Ele gostava de ajudar.

Um dia minha mãe entrou no hospital e viu uma roda de crianças. Levou um susto, achou que meu irmão tinha morrido. Falou para ele que as moças tingiam o cabelo com água oxigenada, ele foi ao almoxarifado, pegou a oxigenada e passou no cabelo. Minha mãe não o reconheceu. Ele estava completamente loiro.

Já fazia 2 anos que ele estava internado e a tosse continuava. Em Pizza tinha um hospital que era muito bom, mas era caro. Minha mãe tinha pouco dinheiro, mas mesmo assim, acabou levando Enrico para uma consulta. O médico examinou meu irmão e disse: minha senhora, pode ficar sossegada que seu filho tem uma saúde de ferro. Não tem mais nada. O organismo já destruiu a lâmina. Vá para casa e vida normal.

Ivano: o primeiro e único amor
Fiquei morando na Itália com minha mãe e meu irmão. Lá, cada aldeia tem um nome. Minha aldeia se chamava Santa Maria A Colle. Meus avós tinham uma casa nessa região. Quando eles morreram, os filhos venderam a casa e dividiram o dinheiro. Minha mãe pagou as dívidas e fomos morar em Navi, numa casa alugada. Essa casa era da Dona Bruna, que mais tarde acabou sendo minha sogra. Na verdade, era uma casa grande com duas moradias. Nós morávamos em uma casa e a Dona Bruna em outra.

Dona Bruna tinha 3 filhos, Ivano, meu marido, era o filho do meio. Com 18 anos, Ivano foi servir o exército longe da nossa cidade. Quando tinha folga, aparecia em casa para visitar os pais.

Fazia um 6 meses que estávamos morando na casa de dona Bruna quando ele apareceu para uma visita à mãe. Nesse dia, dona Bruna me apresentou Ivano.

Ele foi embora novamente para o exército e me escreveu uma carta, dizendo que tinha ficado encantado com minha pessoa e outras coisas mais. Pena que eu não tenho mais essa carta. Eu também gostei dele. Quando ele voltou para visitar os pais, começamos a namorar. Era um namoro a distância, só por carta.

Foi meu primeiro e único namorado. Um dia, o comandante dele avisou que quem era casado tinha direito de morar perto da família. Resolvemos nos casar porque tinha um campo de aviação perto de casa e assim ele poderia ficar perto da família.

No dia 28 de setembro de 1942, eu e Ivano casamos na Igreja de Navi, às nove horas da manhã. Nossa felicidade durou pouco tempo. Após 5 meses, começou a guerra.

A guerra
Ivano ficou na guerra durante 6 anos. Nos primeiros 2 anos a gente se comunicava através de cartas. Quando começaram os bombardeiros ficamos incomunicáveis. Quebraram as pontes, as ferrovias, tudo; só restava ruínas. Ficamos sem notícias.

Os 3 filhos da minha sogra eram soldados. Um filho foi para Itália, outro para a fronteira, e outro prisioneiro da Alemanha.

Um dia perto da nossa cidade teve uma festa e nós fomos todos até lá. Quando voltamos, estava frio, ficamos sentados próximo da lareira. Chegou um vizinho e chamou meu sogro e disse: Venha aqui fora que eu preciso conversar com você a sós. Ficamos apreensivos, pensando que tinha acontecido alguma coisa. Ele disse ao meu sogro: o Ivano chegou, está lá na minha casa e está tudo bem. Vá até lá e converse com ele. Meu sogro saiu e continuamos apreensivos. Quando ele voltou perguntei o que tinha acontecido e ele disse: aconteceu uma coisa, mas é muito bonita: Vá lá fora que o Ivano chegou.

Neste momento, desliguei o gravador. Dona Michelina deu um suspiro e seus olhos lacrimejaram. Após uma pausa para ela se recuperar da emoção, continuamos nossa conversa:

Quando terminou a guerra, ele voltou. Ficou muito tempo lá.

A maternidade
Quando acabou a guerra, a situação ficou muito difícil. Não havia trabalho para ninguém. Durante o verão, ainda era possível encontrar algum serviço nos campos, não tinha máquinas, trabalhava-se na terra. Quando chegava o inverno não tinha nada para fazer e nada para comprar; não tínhamos dinheiro. No período de guerra passamos muita fome, não tinha geladeira. Agora eles estocam para o inverno todo.

Um amigo nosso que era empreiteiro de obras resolveu vir para o Brasil e meu marido resolveu vir também.

Engravidei e em 1946 nasceu meu filho Vinício. No final de 1946, quando meu filho tinha 10 meses, Ivano veio para o Brasil. Precisava trabalhar. Arrumou um dinheiro emprestado, comprou uma bicicleta na Itália e trouxe para cá. Naquela época não tinha bicicleta aqui no Brasil. Depois, vendeu a bicicleta, mandou o dinheiro para a Itália e com esse dinheiro paguei a bicicleta e ainda sobrou um pouco de dinheiro para mim.

Começou a trabalhar, mas não conhecia ninguém, não sabia falar o português, foi difícil. Ficou aqui durante dois anos, sozinho. Foi muito sofrido para todos.

Tínhamos uns tios aqui no Brasil que ajudavam, mas também não tinham muitas condições financeiras.

Ivano arrumou emprego em uma fábrica “Lenzi di Lucca” que estava construindo o viaduto Santa Efigênia. Ele tinha uns amigos que trabalhavam lá e moravam em uma pensão. Ele também foi para essa pensão. Quando escrevia para mim, dizia: Michelina, não sobra dinheiro para nada. Não dá para guardar, não sobra nenhum tostão.

O oficio dele era eletricista, mas não conseguia trabalho. Um dia ele me mandou uma carta dizendo que eu deveria pedir dinheiro emprestado e ir para o Brasil. Chegando aqui, juntos, poderíamos pagar as dividas. E dizia que eu teria que me acostumar. Que eu não teria uma casa boa como na Itália.

Em 1948, resolvi vir para o Brasil, eu e meu filho. Choramos muito na despedida. Quando minha mãe, meu sogro e minha sogra nos acompanharam ao porto de Gênova, tocava a música: “Partirá a nave partirá, mas não se sabe quando volta”.

Neste momento Dona Michelina canta um trecho dessa música, em italiano. É muito bonita.

Viajei com meu filho durante 23 dias. Meu filho pequeno estava bem, mas não podia descuidar dele um minuto. Ele queria brincar o tempo todo, jogar papel no mar, correr de um lado para outro, e eu tinha medo.

Quando estávamos na Itália, eu sempre mostrava a foto do pai para meu filho e dizia: este é o papai, para ele não esquecer do Ivano. Quando chegamos no porto de Santos, eu falei: este é papai. Ele disse: eu não quero ir com esse homem. Ele não reconhecia o pai. Demorou um pouco para se acostumar.

Logo que chegamos, fomos para casa e quando olhei o barracão, comecei a chorar. Eu disse a ele: você falou que era uma casa simples, mas não é uma casa, é um barracão. E era um barracão mesmo. Enquanto ele estava construindo o barracão, ficamos sem telhado algum tempo. Meu filho dormia em cima do baú. Tínhamos uma cama e mais nada. Nem guarda roupa, nada. O fogão ficava fora de casa, quando chovia eu tinha que cozinhar com guarda chuva. Era tudo descoberto.

Depois de algum tempo, meu irmão saiu da Itália, veio para o Brasil e foi morar conosco. Moramos todos juntos no barracão. Colocamos uma caminha na cozinha, fizemos uma estante de madeira para colocar os pratos e as panelas e improvisamos uma mesinha de tábua de forro para comer. Tínhamos que tomar cuidado com as tábuas soltas, senão a sopa voava para o alto. Uma noite nós escutamos um barulho, e não conseguíamos descobrir o que era. Quando fomos ver, meu irmão estava com o guarda-chuva aberto na cama. Chovia em todos os cantos.

Muito trabalho
Meu tio tinha um terreno no Pari, e ele cedeu para nós. Não tínhamos como pagar aluguel. Eu trouxe a minha máquina de costura da Itália, num baú e comecei a procurar serviço de costura. Sempre costurei. Eu que fiz meu vestido de noiva.

Um dia encontrei um anúncio no jornal que precisavam de uma costureira na Ladeira Porto Geral. Foi minha sorte. Era uma loja de pessoas de Toscano, de Lucca, vendiam roupas de homem e precisavam de uma calceira. As calças de homem eram cheias de botão e costuras mais complicadas que os modelos atuais.

Ele perguntou se eu sabia fazer calça de homem eu disse que sabia, então ele pediu para eu fazer uma calça de amostra. Sentei na máquina, fiz e ele falou que estava bom. Todos os dias eu ia buscar as peças de pano e fazia 12 calças de homens por dia. Costurava no meu barracão e entregava na loja. Levantava às 4 horas para fazer marmita para meu irmão e para meu marido. Entregava aquele pacotão de roupas todos os dias na loja. As crianças ficavam comigo, enquanto olhava as crianças, eu costurava.

Depois descobri na Rua Oriente uma loja que precisava de uma costureira de saia. Fazia 50 saias por dia. Eram saias godê guarda-chuva, davam bastante trabalho. Todo dia eu ia à Rua Oriente entregar as saias. Fiquei lá uns 4 ou 5 anos.

Dormia tarde, às vezes ia dormir meia noite. Comecei a costurar para fora, mas era ruim porque perdia muito tempo com as freguesas. Elas traziam a costura e ficavam conversando. Eu precisava ganhar dinheiro.

Tive um empório de secos e molhados. Tinha arroz, feijão e outros alimentos. Ficamos 3 anos e não ganhamos nenhum tostão. As pessoas pediam fiado na caderneta. Vinha uma e pedia: meu marido está desempregado; a outra dizia: meu filho está sem leite, e assim foi. Não ganhávamos nada. Quando chegava a cobrança, não tínhamos dinheiro para pagar. Meu marido me ajudava, porque às 4 horas da manhã chegava o pão e o leite e nós tínhamos que estar com o armazém aberto. Se não tivesse alguém para receber eles deixavam fora.

Tínhamos comprado um carro, um Chevolet 51, e ele me disse: vou pôr o carro na praça e a gente vende a mercearia. Ficamos 3 anos para vender. Fiquei sozinha no armazém e ele trabalhando na praça. Quando conseguimos vender, ele abriu uma firma de eletricidade, força e luz.

A gente trabalhava dia e noite. Eu tinha máquina de fazer malhas de lã. Quando sobrava um dinheirinho a gente comprava um pouco de tijolos e guardava. No outro mês comprava um pouco de cimento, areia e assim fomos comprando o material de construção para fazer nossa casa. Demoramos 3 anos para fazer o sobrado. Meu marido e meu irmão que construíram nossa casa. Ele fazia instalação em maternidades, trabalhava com a bicicleta. Nas laterais da bicicleta tinha duas caixinhas onde ele guardava as ferramentas de trabalho. Ivano ia de bicicleta desde o Pari até a maternidade do Brás.

Eu fazia malhas para uma loja. Era na Rua José Paulino. Eles forneciam a lã e pediam o tipo de blusa, por exemplo: 10 blusas tamanho 40; 20 blusas tamanho 44 etc. Trabalhava de acordo com os pedidos. Eu arrumei uma moça para me ajudar. Trabalhei bastante tempo para essa loja. Foi muito trabalho.

Depois de 25 anos que eu estava no Brasil eu chamei minha mãe para vir da Itália morar conosco. Fiquei 25 anos sem vê-la. Nesse tempo meus sogros já tinham falecido. Minha mãe estava sozinha. Ela já estava aposentada na fábrica de cigarros. Minha mãe me ajudava a fazer tudo, até cozinhava. Ela tinha uma saúde boa.

Nessa época, a casa estava praticamente pronta, faltando umas coisinhas, meus filhos nos deram de presente uma viagem á Itália. Fui eu e o meu marido.

Mamãe morreu de velhice
Minha mãe morreu dia 28 de fevereiro de 1995, com 95 anos. Nunca tinha tomado um remédio. Mamãe ficou acamada quase um ano antes de morrer, estava velhinha e precisava de mim. Sempre tivemos uma convivência muito boa. Quando ela morreu tive depressão. Nos últimos meses ela ficou acamada, precisava de mim e eu cuidei dela até sua morte. Dava comida na boca, dava banho, trocava, etc.

Depois que mamãe morreu eu me vi perdida. Não tinha mais o que fazer. Minha filha já estava casada, não tinha mais roupa para lavar, nem minha mãe para cuidar. De repente me vi sem o que fazer. Encontrei uma amiga e ela me disse que fazia um trabalho na igreja Nossa senhora da Assunção. Eles davam lãs, tecidos e a gente fazia roupinhas e tricô, e eles doavam para uma creche. Eu fazia muito tricô, uma blusa de adulto por semana. Tinha com quem conversar, passava uma tarde gostosa. Uma vez uma amiga falou que na APAE eles estavam dando um curso para quem quisesse ser voluntária. E nós fomos fazer. Gostei e agora já faz 10 anos que estou no voluntariado. Sempre na área de Educação Artística.

Tem alguma receita para envelhecer melhor?
Trabalho, muito trabalho. E não tomar remédio. O remédio para a cabeça estraga o estômago e assim vai. Eu tenho a saúde boa. Não tenho empregada nem faxineira. Eu nem quero, eu que faço tudo. Enquanto puder eu faço. O Ivano me ajuda bastante. A casa é grande. Gosto de reunir a família aqui em casa e eu mesma faço a comida. Não quero que tragam nada. A família é grande; juntamos umas 20 pessoas. Gosto de fazer as comemorações na minha casa, tem espaço para os netos, os bisnetos. Faço lasanha, macarrão em casa.Tenho o maior prazer em fazer as coisas e receber minha família.

Não quero que tragam nada, me dá mais trabalho. Um chega com uma torta e quer um prato daquele jeito para colocar a torta, o outro quer uma travessa para colocar o sorvete, e eu me atrapalho toda.

Levanto cedo, já deixo a mesa preparada e deixo a lasanha preparada no dia anterior. Meus netos gostam muito daquelas batatinhas assadas com carne. Eu ponho alecrim, alho, mas gosto de fazer na hora. Enquanto eles tomam o aperitivo eu asso as batatas. Assim eu fico sossegada, senão eu fico preocupada.

A saúde
Sempre tive a saúde boa.Trabalhei muito, lutei, tive muitas preocupações, mas ainda trabalho e estou muito bem. Faço tricô, crochê, costuro e ainda dá tempo de cuidar da casa e fazer meu trabalho voluntário uma vez por semana.Tenho meu carro e ainda dirijo apesar do trânsito ruim de São Paulo.

Gosto de tudo direitinho.

Envelhecimento
A alimentação é muito importante. É preciso saber comer. Assisto palestras sobre alimentação na Igreja de São Judas. Tem gente que não come verdura, não come frutas, só come carne. Nós não gostamos de muita carne. Só de vez em quando, quando os filhos e netos vêm almoçar aqui em casa. Frutas e legumes todos comemos todos os dias. Não falta fruta aqui em casa.

O exercício também é importante. Tem que se movimentar, fazer exercícios, caminhar. Eu caminhava, mas agora já não caminho tanto. Ontem fui lá no largo São Bento comprar sementes para o Ivano fazer a plantação. Fui de metrô, mas sinto que estou muito parada. Preciso começar a fazer exercícios novamente.

Enquanto dávamos uma pausa para o café, Sr Ivano sentou-se junto a nós e eu o convidei a participar da conversa. Observava o brilho dos olhos nos dois quando os olhares se cruzavam. Era prazeroso observar a cumplicidade do olhar e a admiração que um tem pelo outro. Perguntei a eles como manter o brilho nos olhos, a ternura entre o casal, a cumplicidade e essa paz de espírito.

O Sr Ivano diz: A gente não deve se impressionar com nada. As coisas acontecem porque têm que acontecer. Tem que se recuperar logo. Se numa família acontece algo desastroso, se ficar encucando, não sara nunca. Tem que superar tudo que se apresenta na vida. Como superar? Quando vou dormir, esqueço de tudo. Falo para Michela: me dá um beijo. Viro a cabeça, não passa um minuto já estou dormindo.

Dona Michelina diz que não dorme assim tão bem.

O médico me falou que tem pessoas que precisam poucas horas de sono outras precisam mais. Acho que preciso de menos sono.

Eu pergunto: nem com o beijo dele você dorme rápido? E ela me diz: Não, cada um tem seu ritmo.

Sr. Ivano compartilhando da nossa conversa complementa: A vida tem que ser como ela é. Não pode complicar mais. A companhia é muito importante. Eu já falei várias vezes para Michelina: O dia que um de nós for embora, tem que ir os dois. Imagina uma família que está 60 anos juntos; se um vai embora complica. O outro tem que ir também. Acho que é a melhor coisa, assim não fica só e não sofre.

Dona Michelina, a senhora é da mesma opinião? Pergunto: Não tenho mais vontade de voltar para Itália. Quando os parentes estavam lá era bom. Agora não tem mais graça. Na Itália cada um tem sua vida. Não é como aqui no Brasil que os vizinhos são amigos. A gente fica com mais experiência, para mim nada me abala. Sofri bastante. Acho que o que mais do que sofri não sofro mais, então não me assusto com nada.

Religião
A religião é importante sim. Nós fazemos a nossa reza, pedimos união e saúde para a família. Todos temos problemas na vida. Precisamos nos apegar em alguma coisa, senão fica difícil. Não importa a religião, são todas iguais. Deus é um só.

Uma mensagem
A velhice tem o lado bom e o ruim, mas eu só posso agradecer a Deus por tudo, principalmente pela família que eu tenho: marido, filhos, nora, genro, netos e bisnetos. São todos amados. É bom chegar até esta idade com saúde, trabalhando e cuidando da vida.

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