Metaphorai, tour pela (c)idade de São Paulo

Se histórias e metáforas são transportes coletivos que me levam à longevidade, são por meio deles que percorro a metrópole que me acolheu no final da década de 60. Todos os dias eles, assim como este relato, são percursos de afetos que começam quando ainda era menina. Este depoimento foi escrito inicialmente para a revista e – SESC  na temática Envelhecer em São Paulo, publicado em agosto de 2016.

 

Metaphorai é o nome dado aos transportes coletivos da Atenas contemporânea, diz Michel de Certeau, em The Practice of Everyday Life (1984), acrescentando que cada história é uma prática espacial e que toda história é uma metáfora. Se histórias e metáforas são transportes coletivos que me levam à longevidade, são por meio deles que percorro a metrópole que me acolheu no final da década de 60, quando São Paulo era considerada a Nova York tupiniquim. Todos os dias eles, assim como este relato – que é meu transporte coletivo sobre o longeviver na metrópole – atravessam e organizam os lugares, fazendo itinerários. São percursos de espaços que começam quando ainda era menina.

Descobri a metrópole na minha infância, ao migrar para o Brasil junto com minha mãe e mais cinco irmãos. Nascida em uma vila muito pequena (Ribeira Brava) na Ilha da Madeira, Portugal, onde todos os cursos, do primeiro ao quarto ano, funcionavam em uma única sala de aula, onde a vizinhança inteira se conhecia, e onde o único ônibus para a cidade, Funchal, levava cerca de três horas, quando hoje leva cerca de 20 minutos. Os trajetos, quase todos, eram feitos a pé, presos ao fôlego, à lentidão.

A primeira parada da minha metaphorai foi em Lisboa, cidade grande, de pedra, que me seduziu à primeira vista.

Foi ali que descobri um dos primeiros transportes coletivos urbanos, o elevador, peça central na formação de uma metrópole, mas também na consolidação da sociedade sedentária em que vivemos. Hoje, peça central de acessibilidade, obrigatória, para quem tem mobilidade reduzida. Nossa brincadeira, na época, era subir e descer. Era mágico. Subir e descer, estando parada. Ver da janela do hotel vários prédios (e ainda não eram espigões), ver um formigueiro de gente e ouvir buzinas de carros. Alguns elementos da metrópole me foram apresentados ali.

A aterrissagem no Brasil se deu no aeroporto internacional de Viracopos, em outubro de 1969. Dali até a Baixada Santista (SP), o trajeto foi longo demais e cheio de paisagens jamais vistas, grandes e longas estradas, avenidas, favelas, prédios, carros, concreto e muita gente. Da janela da minha metaphorai eu ia incorporando emoções, sentimentos, já que meu corpo, como referência de base, ia interpretando e construindo o sentido de minha subjetividade, parte essencial do meu longeviver. Para explicar melhor o que tento descrever, tomo emprestado O erro de Descartes (1996) de meu patrício António R. Damásio, para dizer que: a) o cérebro humano e o resto do corpo constituem um organismo indissociável; b) a interação não é nem exclusivamente do corpo nem do cérebro; c) as operações fisiológicas que denominamos por “mente” derivam desse conjunto estrutural e funcional e não apenas do cérebro.

Hoje sei que nessa travessia percebia que meu corpo, referência cultural básica de aferição, funcionava como um sistema de captação e de vozes. Sistemas que foram se transformando, assim como eu, a cidade e a metrópole. Da infância à juventude à vida adulta e à porta da maturidade. Hoje, recordo a mim mesma e aos outros a complexidade, fragilidade, finitude e singularidade que nos caracterizam.

Como estrangeira em sua própria (c)idade, debrucei-me sobre a comunicação para nela perceber a São Paulo histórica, a megalópolis, o espaço histórico/lembrança, o espaço velocidade/passagem, a cidade em permanente mudança, polimórfica, a cidade vivida, a (c)idade que a mídia me comunica. Ora, diante de uma (c)idade fragmentada, volátil e em permanente mutação, faço a pergunta feita nos encontros imaginários entre Kublai Khan e Marco Polo narrados por Ítalo Calvino em As cidades invisíveis: o que privilegiar quanto a envelhecer em São Paulo?

Se a (c)idade – como meio de comunicação -, me comunicava uma São Paulo em movimento na qual fiz minha incursão e excursão… na diversidade desconexa, nos imbricamentos de signos, ritmos, estilos, linguagens, pontos, congestionamentos, i-legal(idades), violências…, imprimir forma a uma resposta é uma exigência da memória. É imprimir forma a uma construção da (c)idade, seja por meio da descrição, da linguagem ou da apresentação de um corpo em permanente mutação. Como a (c)idade é composta aleatoriamente de momentos, minha apreensão de São Paulo é parcial, fragmentada e momentânea, porque tudo nela é passageiro, veloz, finito, assim como o envelhecer que habita em mim desde quando nasci.

Para mim, a (c)idade deixa de ser um conceito geo e demográfico consolidado para se tornar símbolo da diamorfose. A cidade e a velhice são imagens construídas aleatória e permanentemente formando outras identidades, símbolos da mutação. No percurso, eu e a cidade mudamos. A cidade, como eu, não está destinada à imobilidade. Esta metáfora é mais uma contribuição ao discurso que se faz sobre ela, a (c)idade, que se repete em diferentes versões, dimensões.

Não se tenta digerir tudo o que a (c)idade apresenta, mas selecionar o que degustar… Nesta metaphorai projetei o passado para o presente, retratando a (c)idade que assume outras configurações, percepções, narrativas, pulsações, memórias, de corpos em movimento e em reconhecimento, nos e sobre os quais estão sendo continuamente inscritos sentidos e significados.

Estas inscrições nos corpos – urbano e humano – nos lembram o que Milan Kundera em A lentidão (1995) já dizia: que existe um vínculo secreto entre a lentidão e a memória, entre a velocidade e o esquecimento. Com a passagem dos anos entende-se claramente que “o grau de lentidão é diretamente proporcional a intensidade da memória”, assim como “o grau de velocidade é diretamente proporcional à intensidade do esquecimento” e que ambos estão intrinsecamente ligados ao envelhecer na metrópole.

Beltrina Côrte

Beltrina Côrte

Jornalista, Especialização e Mestrado em Planejamento e Administração do Desenvolvimento Regional, Doutorado e Pós.doc em Ciências da Comunicação pela USP. É docente da PUC-SP, onde está como coordenadora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia. Coordena o grupo de pesquisa Longevidade, Envelhecimento e Comunicação. Editora executiva do Web site Portal do Envelhecimento e Portal Edições. Integra o banco de avaliadores do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior – Basis/Inep/MEC. Integra também a Rede Iberoamericana de Psicogerontologia (Redip) e a Red Iberoamericana Interdisciplinar de Investigación en Envejecimiento y Sociedad (RIIIES). E-mail: beltrinac@gmail.com

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