Memória: somos aquilo que lembramos!

Escutas: “Tenho 82 anos, sou engenheiro civil aposentado, tenho esquecido com certa frequência os itens de compra que minha esposa pede para fazer no supermercado, às vezes me perco nas ruas, esqueço o nome das pessoas e fico muito nervoso!!!”

 

O envelhecimento é acompanhado de declínio nas habilidades cognitivas e a memória é um dos domínios nos quais as alterações e queixas subjetivas são mais frequentes entre idosos. O atendimento de pessoas com problemas de memória deve ser investigado, no sentido de verificar se a dificuldade está restrita à memória ou se irá progredir para um quadro de demência.

Há vários tipos de memória: a de curta duração ou recente, que dura horas; a memória do trabalho ou funcional, usada para entender a realidade que nos rodeia e pode formar ou evocar outras formas de memória; a de longa duração ou remota, que dura dias, meses e anos.

Vale acrescentar que toda memória é adquirida em certo estado emocional, ou seja, grava-se melhor e têm-se menos tendência a esquecer as lembranças de alto conteúdo emocional (Izquierdo, 2007).

A percepção do idoso em relação às suas dificuldades de memória também é outro fator importante em seu desempenho e cada pessoa idosa tem seu funcionamento próprio e particular. ” Somos aquilo que pensamos, amamos, realizamos e lembramos” (Bobbio,1997).

O modelo teórico definido por seleção, otimização e compensação representa que os idosos tendem a selecionar tarefas para as quais têm ótimo desempenho excluindo as que têm dificuldades. Otimizam a manutenção de habilidades que ainda são preservadas, compensando aquelas que estão comprometidas (Baltes e Smith, 2006).

Na minha prática em atendimento individual no consultório e grupal em instituição enfatizo a importância do acolhimento afetivo, acompanhado de pensamentos positivos que estimulem a serenidade, a confiança pessoal e a memorização subjetiva em distintos momentos existenciais, utilizando muitas vezes a teoria de Seleção, Otimização e Compensação (Baltes & Baltes,1990).

A vida moderna está repleta de mudanças e de novas exigências que podem afetar a memória e a auto confiança das pessoas idosas e por que não as mais jovens; assim, em ambiente acolhedor, com conteúdo emocional positivo, nos sentimos bem e grava-se melhor e não se esquece.

Neste sentido, devemos trabalhar com a prevenção, orientando as pessoas em qualquer idade, e especialmente os mais velhos, da importância do equilíbrio emocional e sua influência na memorização!

Referências

BALTES, P.B. & BALTES, M.M.(Eds.) (1990). Succesful aging: perspectives from behavioral sciences. New York: Cambridge University Press.

BALTES P. B.; SMITH J. (2006) Novas Fronteiras para o futuro do envelhecimento: a velhice bem-sucedida do idoso jovem aos dilemas da Quarta Idade. A Terceira Idade; 7 (36):7-31.

BOBBIO, N.(1997). O tempo da memória – de senectude e outros escritos autobiográficos. Rio de Janeiro: Campus.

Izquierdo, I. (2007). A arte de esquecer. Rio de janeiro; Vieira & Lent.

Eliana Novaes Procopio de Araujo

Eliana Novaes Procopio de Araujo

Psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP, especialista em Gerontologia pela SBGG e doutoranda em Ciências da Saúde na Faculdade de Saúde Pública da USP. E-mail: eliananovaespa@hotmail.com

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