Meditação e Envelhecimento

A prática da meditação é uma ferramenta útil para a obtenção da saúde física e mental, mas podemos ir além, com ela é possível adquirir uma nova e transformadora percepção da realidade que permita uma compreensão mais profunda da natureza humana. 

 

A atenção do Ocidente sobre as milenares práticas meditativas orientais teve como um de seus primeiros e memoráveis momentos a chegada, em 1920, de Paramahansa Yogananda aos Estados Unidos para participar de um congresso de líderes religiosos. Com apenas 27 anos de idade, seu discurso sobre ciência e religião gerou muito interesse e, consequentemente, muitas outras palestras no continente americano e europeu. Em 1946, seu livro “Autobiografia de um Iogue” tornou-se um best-seller mundial.

Outro líder espiritual indiano, Maharishi Mahesh, chega aos EUA em 1959 e se torna famoso por sua técnica de Meditação Transcendental amealhando milhares de seguidores e tornando-se o guru dos Beatles. Nos anos 1960 o mundo ocidental vivia fortes tensões políticas protagonizadas pela Guerra Fria e por movimentos sociais, como o movimento gay, o feminista, o estudantil e o movimento hippie. Este último, com sua bandeira de “paz e amor” e a proposta de uma vida simples, ou seja, despojada de hábitos consumistas, atraiu muitos jovens, revoltados com a Guerra do Vietnã, para a filosofia oriental. É de se supor que vários jovens daquele período, hoje já septuagenários, permaneçam adeptos ou, ao menos, simpatizantes do Orientalismo.

Na década de 1970, surge um crescente interesse de pesquisadores pelos efeitos da prática da meditação sobre o cérebro e a mente. Em 1987, é fundado nos EUA, o Mind and Life Institute como resultado dos encontros entre o 14º Dalai Lama, Tenzin Gyatso, o empresário Adam Engle e o neurocientista chileno Francisco Varela. A eles foram se juntando reconhecidos cientistas como Jon Kabat Zin, Richard Davidson, Daniel Goleman (autor do best seller “Inteligência Emocional”), Paul Ekman, Alan Wallace e Matthieu Richard (monge budista francês e Phd em Genética Molecular).

Uma expressiva parcela das investigações desses cientistas se deu por meio do exame das imagens de ressonância magnética de cérebros de monges budistas obtidas durante a prática contemplativa. Logo de início, o que impressionou os pesquisadores foram as alterações funcionais e até estruturais dos cérebros desses monges quando comparadas às imagens do cérebro de pessoas não habituadas a essas práticas.

Ao longo dos últimos anos, os estudos dos efeitos da meditação em programas experimentais com portadores de diversos distúrbios psicossomáticos, têm mostrado a redução do estresse, da hipertensão, da ansiedade, da depressão, da dor crônica, do consumo de drogas, além de um fortalecimento do sistema imunológico e uma melhora na qualidade do sono. Tais resultados reforçaram a constatação da neuroplasticidade, ou seja, da capacidade de adaptação a novos hábitos, como uma importante característica do Sistema Nervoso Central. Há algumas décadas, não se acreditava na possibilidade de surgimento de novos neurônios. Mas, segundo a pesquisadora Sara Lazar da Universidade de Harvard, a meditação promove um incremento de neurônios e a formação de novas redes neuronais que geram, consequentemente, um espessamento do córtex pré-frontal, área responsável pelo planejamento, tomada de decisões e controle emocional.

Um dos trabalhos pioneiros foi o de Robert Keith Wallace publicado na conceituada Revista Science em 1970 sobre os efeitos fisiológicos da meditação transcendental (aquela mesma de Maharish Mahesh). Nesse estudo, o consumo de oxigênio, a freqüência cardíaca, a resistência elétrica da pele e as medições do eletroencefalograma foram registradas antes, durante e depois de sujeitos praticarem meditação. Durante a prática, o consumo de oxigênio e a freqüência cardíaca diminuíram, a resistência da pele aumentou e o eletroencefalograma mostrou alterações específicas em certas freqüências. Esses resultados, segundo o autor, produzem um particular estado de consciência.

Outro trabalho pioneiro é o de Benson, publicado em 1974 pela Revista Lancet sobre a diminuição da pressão sanguínea em hipertensos. A investigação mostrou que o relaxamento induzido por estados meditativos pode diminuir as pressões sangüíneas em pacientes hipertensos.

Em 1982, Jon Kabat-Zinn publicou no General Hospital Psychiatry Journal o programa de medicina comportamental que ele desenvolveu para pacientes com dor crônica baseado na prática da Atenção Plena (Mindfulness) e verificou que a meditação facilitou uma postura atencional em relação à propriocepção e a um desligamento sensorial da experiência da dor, reduzindo o sofrimento através de uma reavaliação cognitiva. Concluiu-se que esta forma de meditação pode ser usada como base para um programa comportamental eficaz na auto-regulação em pacientes com dor crônica. Lembremos que dores crônicas tendem a ser mais frequentes e intensas em pacientes de idade avançada.

Elizabeth Blackburn, bioquímica da Universidade da Califórnia, comanda uma equipe que se dedica a estudar a meditação como fator de desaceleração do envelhecimento e aumento da expectativa de vida. Uma importante contribuição científica de Blackburn foi a descoberta da enzima telomerase, substância destinada a preservar os telômeros, estruturas que compõe a terminação dos cromossomos e que tendem a se desgastar a cada divisão das células, esse desgaste provoca um paulatino encurtamento dos telômeros, gerando erros na duplicação celular e conduzindo ao inexorável envelhecimento do organismo. Por essa pesquisa, Blackburn recebeu o premio Nobel de Medicina, em 2009.

Juntamente com Elissa Epel também da Universidade da Califórnia, Blackburn realizou um ouro estudo que constatou encurtamento de telômeros e baixo nível de telomerase em indivíduos acometidos pelo stress. As pessoas mais esgotadas tinham telômeros que indicavam uma década a mais de envelhecimento quando comparadas às menos estressadas, e tinham metade do nível de telomerase. Foi um indício de que, além de fazer mal à saúde, o estresse envelhece. Posteriormente, dois grupos de sujeitos foram formados, um de controle e outro que passou por sessões de meditação durante três meses em um retiro. Verificou-se que o grupo de meditantes, ao cabo desse período, possuía um nível de telomerase 30% superior ao grupo que não havia meditado. A meditação parece ter colaborado para a redução da ação do cortisol, hormônio responsável pelo stress.

De modo geral, pesquisas semelhantes têm apontado: melhora do estresse relacionado ao câncer; melhora da atividade imunológica; melhora dos sintomas da fibromialgia; redução de recaídas no consumo de álcool e outras drogas e redução da insônia em mulheres na pós-menopausa. Destaque-se também algumas aplicações de caráter social, como a crescente introdução de práticas meditativas em escolas junto a crianças e adolescentes, sobretudo, nos Estados Unidos. Da mesma forma, a meditação tem sido praticada em prisões. Tais experiências têm revelado uma considerável diminuição da violência e dos comportamentos anti-sociais.

Uma observação importante: ainda que traga uma série de benefícios pessoais e sociais, a meditação não é uma panaceia, isto é, um remédio, capaz de garantir solução para todos os problemas de saúde. Ela deve ser entendida como uma intervenção auxiliar ou coadujvante aos tratamentos médicos convencionais.

Concluindo, a prática da meditação pode ser vista como uma ferramenta útil para a obtenção da saúde física e mental, o que, de fato, não é pouco, pois, sem dúvida, representa um ganho valioso em qualquer etapa da existência. Ao combater o stress da vida moderna, a prática da meditação pode melhorar a autoestima, incrementar a produtividade e promover relacionamentos saudáveis.

Com a meditação, porém, podemos ir além desses benefícios, vale dizer, é possível adquirir uma nova e transformadora percepção da realidade que permita uma compreensão mais profunda da natureza humana. Nesse processo de transformação interior, novos e mais sólidos valores éticos se estabelecerão, agindo como a base para a compreensão da importância do fomento de uma cultura de paz e do desenvolvimento da empatia, da solidariedade e da compaixão. Lembro uma famosa frase de Mahatma Gandhi, que serve de diretriz para todos nós: “Seja a mudança que você gostaria de ver no mundo”, porque assim procedendo teremos mais condições de intervir de modo mais efetivo para a constituição de uma sociedade melhor.

José Carlos Ferrigno

José Carlos Ferrigno

Praticante de meditação, formado em Práticas Meditativas pelo Instituto Palas Athena, sob a coordenação da Profa. Lia Diskin. Psicólogo. Doutor em Psicologia Social pela USP. Especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e pela Universidade de Barcelona. Especialista em Gestão de Programas Intergeracionais pela Universidade de Granada. Ex-coordenador do programa intergeracional Sesc Gerações. Consultor em planejamento, acompanhamento e avaliação de programas de preparação para a aposentadoria, de ocupação do tempo livre e lazer do aposentado e de programas intergeracionais em instituições públicas e privadas. Autor de artigos sobre a psicologia do envelhecimento e dos livros “Coeducação entre Gerações” e “Conflito e Cooperação entre Gerações” Edições Sesc. E-mail: jcferrigno@gmail.com

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