À medida que os médicos envelhecem, cresce a preocupação com sua capacidade

Mesmo após o hospital ter denunciado o médico ao Conselho de Medicina da Califórnia, ele continuou realizando operações por quatro anos, até o conselho finalmente encaminhá-lo a uma avaliação de competência na Universidade da Califórnia, em San Diego.

Laurie Tarkan *

 

“Nós realizamos um exame neuropsicológico e o resultado foi bem anormal”, disse o dr. William Norcross, diretor do programa de avaliação de médicos de lá, que não identificou o cirurgião. “Esse cirurgião tinha anormalidades visuais-espaciais, não apresentava movimentos motores em ordem, não podia reter informação e sua capacidade verbal era muito menor do que a esperado.”

Mas “ninguém sabia que ele tinha um déficit cognitivo e ele não achou que tinha um problema”, prosseguiu Norcross. Foi pedido ao cirurgião que entregasse sua licença médica.

Um terço dos médicos do país tem mais de 65 anos, e essa proporção deverá aumentar. À medida que os médicos da geração “baby boom” (pós-Segunda Guerra Mundial) atingem 65 anos, muitos se encontram em crescentes pressões financeiras, o que os deixa relutantes em se aposentar.

Muitos médicos, é claro, mantêm sua capacidade e mente aguçada além dos 70 anos.

Mas os médicos não são imunes a demência, mal de Parkinson, derrames e outros males do envelhecimento. E alguns especialistas alertam que há muito poucas salvaguardas para proteger os pacientes contra aqueles que não deveriam mais estar exercendo sua profissão. “Meu palpite é que o cidadão médio acha que há algum mecanismo que o proteja de médicos incompetentes”, disse Norcross. “Não há.”

Com frequência o mecanismo não entra em ação até um conselho de medicina estadual considerar necessário avaliar um médico. Um estudo de 2005 apontou que a taxa de ações disciplinares era de 6,6% para médicos saídos da escola de medicina há 40 anos, em comparação a 1,3% para aqueles saídos há apenas 10 anos.

Em 2006, um estudo apontou que em operações complicadas, os índices de mortalidade de pacientes eram maiores quando o cirurgião tinha 60 anos ou mais, apesar de não haver diferença entre médicos mais jovens e mais velhos em operações de rotina.

Defensores dos pacientes notam que os pilotos comerciais, que também são responsáveis pela segurança dos outros, devem se aposentar aos 65 anos e passar por exame físico e mental a cada seis meses a partir dos 40 anos. Mas “o exercício da medicina nunca foi organizado de modo a medir a competência do médico”, disse Diane Pinakiewicz, presidente da Fundação Nacional para Segurança do Paciente, sem fins lucrativos. “Nós precisamos avaliar periodicamente os médicos de modo sistemático e abrangente.”

Alguns especialistas estão pedindo por exames cognitivos e físicos regulares assim que os médicos atingem 65 ou 70 anos, e um pequeno grupo de hospitais instituiu avaliações de médicos mais velhos. Alguns conselhos específicos já exigem que os médicos renovem suas licenças a cada 7 a 10 anos e endureceram as exigências para renovação. Mas essas políticas enfrentam resistência da maioria dos médicos.

“Eu não acredito que uma competência reduzida, atribuída apenas à idade, seja um fator significativo para os problemas da maioria dos médicos com desempenho ruim”, disse o dr. Henry Homburger, 64 anos, professor de medicina laboratorial da Clínica Mayo, por e-mail. Doenças mentais como depressão, abuso de substâncias e “fracasso em manter a competência por meio de educação contínua superam a idade como causas de desempenho ruim, na minha opinião”, ele escreveu.

Outros duvidam que um exame único possa ser usado para avaliar o desempenho de médicos de várias especialidades. “Mais pesquisa é necessária para definirmos que combinação de questões cognitivas e motoras é importante”, disse o dr. Stuart Green, membro do comitê de ética da Academia Americana de Cirurgiões Ortopédicos.

Os médicos precisam atender exigências mínimas para continuar praticando. Para renovação da licença médica na maioria dos Estados, os médicos precisam completar um certo número de horas de cursos médicos a cada ano ou dois.

Isso não impressiona especialistas como Norcross. “Você pode dormir durante esses cursos e ninguém perceberá”, ele disse.

Mesmo as novas políticas mais duras dos conselhos de medicina geralmente não se aplicam aos médicos mais velhos, que, devido a direitos adquiridos, não são obrigados a renovar sua certificação –um processo caro e que toma tempo.

Eles são encorajados a fazer isso voluntariamente, mas poucos fazem –menos de 1% dos 69 mil membros considerados com direitos adquiridos do Conselho Americano de Medicina Interna, por exemplo.

Médicos com leve deficiência cognitiva podem não estar cientes de que têm um problema ou que seu desempenho está caindo. As mudanças costumam ser sutis no início: uma pessoa pode não conseguir se lembrar de palavras, aprender coisas novas, aplicar conhecimento na solução de problemas ou realizar múltiplas tarefas.

Essas deficiências podem dificultar a realização das mais recentes recomendações de diagnóstico e tratamento, o aprendizado de novas tecnologias baseadas em computador, a lembrança de informações a respeito de medicamentos, ou funcionar bem em um ambiente estressante como uma sala de emergência.

Apenas quando o comportamento do médico começa a ficar estranho é que outros médicos, enfermeiros e pacientes provavelmente notarão.

Os profissionais de medicina supostamente denunciam práticas inseguras e mau comportamento de seus colegas. Mas os médicos sempre relutam em confrontar outros médicos, especialmente veteranos, que podem tê-los treinado. “Às vezes nós temos empatia demais e temos dificuldade em tomar as decisões difíceis que precisamos”, disse Norcross.

Os médicos frequentemente dão cobertura aos médicos que estão perdendo capacidade, com a presença de outro cirurgião na sala de operação ou revisando regularmente seus casos, disse Green.

O dr. John Fromson, diretor associado de ensino médico de pós-graduação do Hospital Geral de Massachusetts, citou um caso em outro centro médico da Nova Inglaterra, onde os médicos notaram as mudanças cognitivas no presidente de medicina interna de 77 anos.

Ele era altamente respeitado e tinha treinado a maioria dos médicos do centro, de modo que eles relutaram em confrontá-lo. Em vez disso, eles lhe deram uma festa de aposentadoria, na esperança de que ele entenderia a dica. “Mas ele não entendeu”, disse Fromson. “Ele continuou trabalhando.”

Fromson promoveu uma intervenção, na qual quatro ou cinco dos principais colegas do médico o confrontaram do modo mais compassivo possível. “Nós reafirmamos nossa preocupação com ele e pedimos que entregasse sua licença médica”, ele disse. “Os olhos dele se encheram de lágrimas, mas ele entregou.”

Para tirar este fardo de seus pares e proteger ao mesmo tempo os pacientes, 5% a 10% dos hospitais do país começaram a tratar da questão do envelhecimento dos médicos de modo mais sistemático, disse o dr. Jonathan Burroughs, um consultor da Greeley Co., que presta consultoria para hospitais e empresas de saúde.

“Os outros 90% a 95% não estão dispostos a lidar com isso”, ele disse. Em alguns casos, seus esforços foram derrotados pelo quadro médico.

No Driscoll Children’s Hospital em Corpus Christi, Texas, o dr. Karl Serrao, o presidente de credenciamento, decidiu agir lentamente e alistar a ajuda do quadro médico para elaborar uma política para envelhecimento dos médicos. O quadro expressou preocupações com discriminação de idade, a perda de experiência valiosa dos médicos mais velhos e invasão de privacidade. Agora a política do hospital declara que quando os médicos com 70 anos ou mais tiverem que ser renomeados, eles precisarão passar por exames físicos e cognitivos que avaliem o domínio específico para suas especialidades.

Burroughs diz que a avaliação dos médicos pode ser um caminho mais compassivo do que os médicos pensam. “Ao identificar um problema cedo, isso amplia as chances de poder praticar medicina por mais tempo”, ele disse. Quando um déficit cognitivo é discutido abertamente, a prática do médico pode ser simplificada, ele pode reduzir o número de pacientes e seus parceiros podem monitorar e avaliar seu trabalho regularmente.

“Mas assim que algo ruim acontece”, disse Burroughs, “a licença dele será tirada”.

*Tradução: George El Khouri Andolfato. Fonte: Uol Notícias Internacional,30/01/2011. Disponível Aqui

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