Medicina sem pressa?

A Slow Medicine é hoje um movimento que vem sendo construído dentro da área médica, influenciado e influenciando os cuidados com idosos. Uma das principais consequências de sua adoção é o evitar iatrogenias.

 

Já há alguns anos a prática médica vem sendo criticada e vem se repensando. Existem muitas queixas sobre a falta de tempo dos médicos, a falta de escuta, de empatia, de vínculo, de compaixão.

Várias críticas voltam-se para o uso intensivo de tecnologias, fazendo com que os médicos pareçam esquecer-se das pessoas que os procuram. Há excesso de exames e de medicações prescritos desnecessariamente e, quando falamos em idosos, há ainda medicamentos utilizados em subdoses ou procedimentos não realizados.

Por outro lado, hoje em dia, inúmeros estudos mostram elevação de doenças como depressão e esgotamento em médicos, observa-se tendência de elevação no número de suicídios entre estes profissionais e é comum ouvir destes queixas sobre a forma como devem trabalhar. Dentre estas queixas, é comum ouvir-se que não há tempo para ouvir o doente, nem examinar direito, daí, pedir-se a cada dia mais exames.

Portanto, nem quem adoece nem os próprios médicos estão satisfeitos com esta situação! E a medicina vai ficando cada dia mais custosa, os sistemas de saúde com problemas de absorção de todas as necessidades das populações e o acesso a um bom atendimento médico cada dia mais restrito.

Tendo em vista este quadro, há alguns anos várias mudanças vêm sendo propostas. Desde a mudança na formação dos futuros médicos, inclusive no Brasil com a adoção de novas diretrizes curriculares nos cursos de medicina, até na forma como a relação profissional e doente acontece.

Dentro desta perspectiva, gostaria de destacar a filosofia da Slow Medicine (medicina sem pressa). Nas palavras de José Carlos Campos Velho: “A Slow Medicine caminha na direção contrária: resgata o tempo como parte essencial da abordagem médica. O tempo para ouvir. A Slow Medicine começa pela escuta cuidadosa e respeitosa do paciente. Enfatiza o raciocínio clínico e o cuidado focado no paciente. Embora pareça romântico, este é o cuidado médico que aprendemos, e esta deveria ser a maneira pela qual a assistência à saúde deveria ser conduzida habitualmente, não importando qual a especialidade”.

A Slow Medicine é hoje um movimento que vem sendo construído dentro da área médica, influenciado e influenciando os cuidados com idosos. Uma das principais consequências de sua adoção é o evitar iatrogenias, que nada mais são do que problemas de saúde causados pelo próprio ato médico, daí sua importância para a saúde do idoso. Baseada tanto em evidências cientificas quanto nos princípios bioéticos que norteiam a profissão, dentre os quais destacamos o primum non nocere (em versão livre: primeiro não prejudicar), é um movimento que se apresenta como contraponto e uma das alternativas às críticas que mencionamos no início de nossa conversa.

Saiba mais

Para saber do movimento slow medicine no Brasil, acesse o link a seguir: http://slowmedicine.com.br/

Foto: Cena do filme “The Doctor”, de 1991. Reprodução

Maria Elisa Gonzalez Manso

Maria Elisa Gonzalez Manso

Médica e bacharel em Direito, pós-graduada em Gestão de Negócios e Serviços de Saúde e em Docência em Saúde, Mestre em Gerontologia Social e Doutora em Ciências Sociais pela PUC SP. Orientadora docente da LEPE- Liga de Estudos do Processo de Envelhecimento e professora titular do Centro Universitários São Camilo. Pesquisadora do grupo CNPq-PUC SP Saúde, Cultura e Envelhecimento. Gestora de serviços de saúde, atua como consultora nas áreas de envelhecimento, promoção da saúde e prevenção de doenças, com várias publicações nestas áreas.

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