Labirintos da memória: quem sou?

Sinto-me agraciada ao prefaciar este livro “Labirintos da memória: Quem sou? (Portal Edições), o qual se constituiu como uma das nossas leituras introdutórias na intenção de compreender a memória como um ato performativo, no sentido de que ao fazer uso da memória nos constituímos como sujeitos sociais no eixo espaço-temporal que perpassa nossas vidas. A estrutura organizacional do livro assume um formato didático que facilita a compreensão do desenrolar das ideias em capítulos bem concatenados.

 

Foi em 2008 que conheci a autora deste livro, quando coordenamos uma sessão de comunicações no CIPA III (Congresso Internacional de Pesquisa (Auto)Biográfica) na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Naquela época compartilhamos nossos trabalhos; confesso que, de imediato, fiquei encantada com as pesquisas de Vera Brandão. Seu foco de interesse direciona-se para a escuta sensível das narrativas memorialísticas de grupos de idosos, um segmento populacional que vem se expandindo quantitativamente no nosso país, mas que, no entanto, carece de um espaço significativo na nossa produção acadêmica.

Desde então venho acompanhando as pesquisas e publicações de Vera, no desejo de aproximar-me dessa temática de estudo; um fértil diálogo com a pesquisadora foi naturalmente acontecendo através de leituras cuidadosas dos seus textos e de conversas acadêmicas e amigáveis nos espaços de eventos e de bancas examinadoras. Essa parceria culminou com sua participação como professora de uma Oficina de (Auto)Formação que realizamos na Universidade do Estado da Bahia (2012) na qual tivemos oportunidade de conhecer uma rede de autores primordiais que se destacam no entrelaçamento dos estudos sobre memória, identidade e cultura. Além disso, discutimos sobre os procedimentos teorico-metodológicos que sustentam as investigações de Vera, em destaque o tratamento criterioso com que lida com seus sujeitos e registro/análise de dados coletados; em síntese, aprendermos muito com a sua vasta experiência de estudos na Gerontologia Social que nos foi disponibilizada. Constatamos a competência profissional de Vera, sua responsabilidade e compromisso social com seus grupos de pesquisa.

Sinto-me agraciada ao prefaciar este livro o qual se constituiu como uma das nossas leituras introdutórias na intenção de compreender a memória como um ato performativo, no sentido de que ao fazer uso da memória nos constituímos como sujeitos sociais no eixo espaço-temporal que perpassa nossas vidas. A estrutura organizacional do livro assume um formato didático que facilita a compreensão do desenrolar das ideias em capítulos bem concatenados; os capítulos essencialmente teóricos abrem portas para novas leituras a partir dos inúmeros autores com os quais a autora dialoga, nos presenteando ainda com um capítulo dedicado à apresentação de pesquisas sobre memória e escrita autobiográfica como projetos de vida e formação. De imediato, nos convencemos que a pesquisa (auto)biográfica está diretamente associada à reflexão crítica do sujeito como autor/a da sua história de vida; a partir da discussão sobre memória em um amplo leque de perspectivas, Vera propõe uma articulação dos atos de rememorar / esquecer com as demarcações de trajetórias de identidade: “Nada somos além do que recordamos… Mas também do que esquecemos, seja as lembranças silenciadas (voluntárias ou involuntariamente), seja os não-ditos”.

Das memórias que surgem, oscilamos entre as que tratam de fatos reais e aquelas fictícias que permeiam nosso imaginário; as leituras que fazemos das nossas memórias se apoiam em crenças, valores e atitudes culturalmente adquiridas a partir das histórias de vida de cada um. Assim, circulamos nossas narrativas entre memórias individuais e coletivas e é nessa constelação de memórias que procuramos compreender o tempo presente a partir das (re)leituras que fazemos do passado. O título do livro já nos antecipa o ponto central que questionamos: Quem sou? Para responder essa questão, precisamos entrar nos labirintos da memória.

Por essa breve exposição, considero que este pequeno grande livro nos convida a avançar nas leituras propostas; cada capítulo em si, na sua singularidade, abre a possibilidade para um seminário. Sua temática geral atende aos interesses de diversos campos profissionais no reconhecimento da sua aplicabilidade à pesquisa interdisciplinar que se debruça sobre as narrativas autobiográficas como processos (auto) formativos. Através de uma escrita segura, suave e sensível, a autora se preocupa não só em garantir a compreensão do leitor, mas lhe faz um convite a pensar sobre si próprio, suas memórias, suas trajetórias de vida.  Finalmente, faço minhas as palavras de Vera: “Convidamos aos leitores que, despidos dos preconceitos, mergulhem no tempo da memória, reflitam, recuperem, ressignifiquem, projetem um futuro no qual, cada um e todos, possamos contribuir para um debate permanente sobre a memória e todas as questões fundamentais do ser humano, no respeito à diversidade em uma cultura de paz”.

Serviço

O livro “Labirintos da memória: Quem Sou?” (editora Portal Edições), pode ser adquirido na loja do Portal Edições, por apenas R$ 30,00 mais a taxa dos Correios. Site: www.portaledicoes.com

 

(*) Kátia Maria Santos Mota – Doutorado em Estudos Luso-Brasileiros – Brown University. Mestrado em Letras (UFB). Licenciatura em Letras (UFB). Professora da Pós-graduação do Programa de Educação e Contemporaneidade / Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Membro do Grupo de Pesquisa (Auto)Biografia Formação e História Oral – GRAFHO. Pesquisa sobre memórias autobiográficas, narrativas (auto)biográficas de imigrantes, mulheres idosas, escrita(auto)biográfica de mulheres. Tem interesse em literatura infantil, diários de viagem, blogs de memória e de mulheres escritoras / leitoras.

 

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